Ideias
Glossário de ética
105 termos explicados em uma ou duas frases, com link para a lição que os aprofunda.
Fundamentos
- Ética
A área da filosofia dedicada à análise da moral, também chamada de filosofia moral: a reflexão sobre como devemos agir e tratar os outros. No uso comum, sinônimo de moral.
- Moral
O conjunto de valores e normas que uma pessoa ou grupo segue. A ética examina a moral.
- Ética normativa
A parte da ética que pergunta o que torna uma ação certa ou errada e como devemos agir.
- Ética descritiva
O estudo do que pessoas e culturas de fato consideram certo, sem julgar. Trabalho de antropólogos e psicólogos.
- Ética aplicada
A ética normativa voltada a áreas específicas: bioética, ética animal, ética ambiental, ética dos negócios.
- Fato e valor
Um fato descreve o mundo e pode ser checado; um valor diz como o mundo deveria ser e pede argumentos.
- Guilhotina de Hume
A observação de que não se pode concluir o que deve ser só a partir do que é.
- Falácia naturalista
Em sentido amplo, concluir que algo é bom porque é natural, comum ou tradicional. Em Moore, identificar “bom” com uma propriedade natural.
- Intuição moral
A reação imediata de que algo é certo ou errado, antes de qualquer argumento. É dado, não veredito.
- Equilíbrio reflexivo
O método de ajustar princípios e intuições uns aos outros até formarem um conjunto coerente.
- Imparcialidade
Tratar casos iguais igualmente, a menos que haja uma diferença relevante; não dar peso extra a si ou aos seus por serem seus.
- Universalidade
A exigência de que uma regra moral valha para todos em situação igual, inclusive para quem a propõe.
- Regra de ouro
Trate os outros como gostaria de ser tratado. Aparece em quase todas as tradições, em forma positiva ou negativa.
- Véu da ignorância
O experimento de Rawls: escolher as regras da sociedade sem saber que posição se ocupará nela.
- Supererrogatório
O que é louvável fazer, mas não obrigatório. Ir além do dever.
- Dilema moral
Uma situação em que qualquer escolha viola algum dever ou valor. Experimentos mentais isolam o que está em jogo.
- Dilema trágico e resíduo moral
Situação em que qualquer escolha viola algo que importa; o resíduo é o pesar legítimo que sobra depois da escolha certa.
Teorias normativas
- Consequencialismo
Família de teorias em que o que mais pesa é o resultado da ação para todos os afetados.
- Utilitarismo
O consequencialismo que soma o bem-estar de todos, contando cada um por um.
- Hedonismo
A tese de que o bem-estar é prazer e ausência de dor.
- Agregação
Como juntar o bem-estar de várias pessoas em um só julgamento: somar, priorizar os piores, garantir um mínimo.
- Prioritarismo
Um ganho vale mais quanto pior está quem o recebe.
- Maximin
Avaliar só pela situação de quem está pior.
- Suficientismo
Garantir a todos um mínimo suficiente; acima dele, a distribuição importa pouco.
- Utilitarismo negativo
Dar prioridade a reduzir sofrimento sobre produzir prazer, em graus que vão de “pesa mais” a “só isso conta”.
- Deontologia
Família de teorias em que o que mais pesa são deveres e direitos. Do grego déon, dever.
- Imperativo categórico
A regra fundamental de Kant: aja só segundo uma máxima que possa querer universal; trate a humanidade como fim.
- Restrição lateral
Em Nozick, um limite ao que se pode fazer a alguém, mesmo em busca de uma boa meta.
- Deontologia de limiar
Restrições que valem quase sempre, mas cedem diante de consequências catastróficas.
- Duplo efeito
A doutrina de que importa se um dano foi pretendido ou apenas previsto como efeito colateral.
- Dever prima facie
Em Ross, um dever que vale à primeira vista e pode ser superado por outro no caso concreto.
- Ética das virtudes
Teoria em que o que mais pesa é o caráter: a ação certa é a que a pessoa virtuosa faria.
- Eudaimonia
Em Aristóteles, a vida realizada e florescente, alcançada pela atividade virtuosa.
- Sabedoria prática (phronesis)
A virtude de perceber o que cada situação pede e agir na medida certa.
- Ética do cuidado
Teoria em que o que mais pesa é a relação de atenção e resposta a quem é vulnerável.
- Contratualismo
Teorias em que os princípios morais são os que pessoas razoáveis aceitariam em um acordo justo.
- Egoísmo ético
A tese de que cada pessoa deve agir pelo próprio interesse. Diferente do egoísmo psicológico, que diz que sempre agimos assim.
- Relativismo moral
A tese de que certo e errado dependem da cultura ou da pessoa, sem padrão comum.
- Consequencialismo satisfatório
A variante, de Michael Slote, em que basta um resultado bom o suficiente, sem obrigação de maximizar.
- Preferencialismo
Nome dado às teorias em que o bem-estar é a satisfação de preferências (utilitarismo de preferências; teorias do desejo). O caso das preferências póstumas é um de seus testes.
- Perfeccionismo
Teoria do bem segundo a qual a vida boa é a que desenvolve as capacidades humanas (razão, conhecimento, criação), tenha ou não prazer nisso (Hurka).
Círculo moral
- Círculo moral
O conjunto de seres cujos interesses contam por si mesmos.
- Consideração direta e indireta
Direta: os interesses do ser contam por si. Indireta: contam só pelo efeito sobre outros.
- Senciência
A capacidade de ter experiências com valor para quem as tem: dor, prazer, medo, conforto.
- Especismo
Dar menos peso aos interesses de um ser só por ele não ser da nossa espécie.
- Igual consideração de interesses
O princípio de Singer: interesses iguais contam igual, seja de quem forem.
- Sujeito de uma vida
Em Regan, um ser com crenças, desejos, memória e um bem-estar que importa para si; portador de direitos.
- Casos marginais
O argumento de que, se a razão fosse o critério para contar, bebês ficariam fora; logo o critério é outro, e inclui animais.
- Antropocentrismo
A posição de que só humanos contam de forma direta.
- Sencientismo
A posição de que quem pode sentir conta por si mesmo, de qualquer espécie.
- Biocentrismo
A posição de que toda vida tem valor inerente, senciente ou não.
- Ecocentrismo
A posição de que ecossistemas e a biosfera têm valor por si, acima dos indivíduos.
- Gradualismo
A posição de que o peso dos interesses varia com capacidades como inteligência.
- Temporalismo
Dar menos peso ao bem-estar futuro por ser futuro. O oposto é o atemporalismo.
- Carbonismo
Incluir animais sencientes no círculo, mas excluir mentes artificiais sencientes, caso existam.
- Expansão do círculo moral
O processo histórico de incluir grupos antes excluídos, descrito por Peter Singer.
- Critério parcial
Um traço irrelevante para o que está em jogo (cor, sexo, nação, espécie, idade, aparência) usado para decidir quem conta ou quanto conta. Toda discriminação tem essa estrutura.
- Delimitação do círculo
A fronteira de quem tem valor direto: só eu, meu grupo, os humanos, os sencientes, os vivos ou os sistemas naturais.
- Tribalismo moral
Dar mais peso aos interesses de quem pertence ao seu grupo, só por pertencer.
- Igualdade humana
Não a afirmação de que as pessoas têm as mesmas capacidades, e sim o princípio de que os interesses de cada uma pesam igual.
- Sofrimento dos animais selvagens
O sofrimento, de causas naturais, da maioria dos animais que nascem; conta se o sofrimento conta, mesmo sem ter sido causado por nós.
- Neurodiversidade
O modelo em que autismo, TDAH e outras condições são variações do funcionamento humano, não defeitos.
Metaética
- Metaética
A parte da ética que pergunta o que é um juízo moral: fato, sentimento, ordem?
- Realismo moral
A tese de que existem fatos morais objetivos, independentes de opinião.
- Antirrealismo moral
A negação de que existam fatos morais objetivos.
- Cognitivismo
A tese de que juízos morais podem ser verdadeiros ou falsos. O não cognitivismo nega.
- Naturalismo e não naturalismo
Fatos morais são fatos naturais (naturalismo) ou de um tipo próprio, como os matemáticos (não naturalismo).
- Intuicionismo
A tese de que conhecemos verdades morais básicas por intuição racional, como axiomas.
- Questão em aberto
O argumento de Moore: para qualquer propriedade natural N, faz sentido perguntar “N é bom?”.
- Teoria do erro
A tese de Mackie: a linguagem moral tenta descrever fatos que não existem; todo juízo moral é falso.
- Emotivismo
Juízos morais expressam emoções e não são verdadeiros nem falsos.
- Prescritivismo
Juízos morais são comandos universalizáveis.
- Quase-realismo
Expressamos atitudes, mas temos direito a falar como realistas sobre erro e progresso.
- Quietismo
A posição de que a pergunta sobre fatos morais “lá fora” está mal colocada.
- Construtivismo
Fatos morais são o que agentes racionais decidiriam em condições ideais.
- Problema de Frege-Geach
A objeção ao emotivismo: frases morais em condicionais não expressam emoção e ainda entram em argumentos válidos.
- Desmascaramento evolutivo
O argumento de que intuições moldadas pela seleção natural não são confiáveis para rastrear verdades morais.
- Conceitos éticos densos
Termos como “cruel”, “corajoso” ou “generoso”, que descrevem e avaliam ao mesmo tempo (Williams); dificultam separar fato de valor.
Mente e método
- Psicologia moral
O estudo de como as pessoas de fato fazem juízos morais.
- Fundamentos morais
Na teoria de Haidt, as seis bases intuitivas do julgamento: cuidado, justiça, lealdade, autoridade, santidade, liberdade.
- Raciocínio motivado
Buscar razões para a conclusão que já se quer.
- Vítima identificável
O viés de que uma pessoa com nome e rosto comove mais do que estatísticas.
- Insensibilidade à escala
O viés de que o número de vítimas quase não muda a disposição a ajudar.
- Dissonância cognitiva
O desconforto entre crença e comportamento, que costuma ser resolvido ajustando a crença.
- Incerteza moral
Não saber qual teoria ética é a correta, e a questão de como agir assim.
- Parlamento moral
A imagem de Bostrom: teorias com assentos proporcionais à credibilidade, negociando decisões.
- Conclusão repugnante
A implicação de que um mundo imenso de vidas quase sem valor supera um mundo pequeno de vidas excelentes.
- Problema da não identidade
Políticas de hoje determinam quem existirá; quem nasce em um mundo pior não existiria sem a política que o piorou.
- Fraqueza de vontade (acrasia)
Agir contra o próprio melhor juízo: saber o que é certo e não fazer. Diferente de hipocrisia, em que a crença é fingida.
- Motivação moral
A pergunta de se acreditar que algo é errado já motiva, por si, a evitá-lo (internalismo) ou se é preciso um desejo a mais (externalismo).
- Viés de omissão
Julgar ações danosas como piores do que omissões igualmente danosas, mesmo quando o resultado da omissão é pior.
- Altruísmo eficaz
O movimento que usa evidência e razão para descobrir como fazer o máximo de bem com recursos limitados.
- Risco existencial (risco X)
O risco de a humanidade ser extinta ou perder para sempre seu potencial.
- Risco de sofrimento (risco S)
O risco de o futuro conter sofrimento em escala muito maior do que toda a história até aqui.
- Catástrofe moral em curso
Diferente das catástrofes reconhecidas, como guerras e genocídios: a hipótese, de Evan Williams, de que a nossa sociedade provavelmente comete um mal grave sem perceber, como toda sociedade do passado.
- Valor esperado
Cada resultado possível pesado pela sua probabilidade, somados. O critério do consequencialismo sob incerteza.
- Longoprazismo
A posição de que as pessoas futuras contam, e são tantas que proteger o futuro é uma prioridade moral.
- Bioética
A ética da medicina e da pesquisa com seres vivos: autonomia, beneficência, não maleficência e justiça.
- Sorte moral
Julgar pessoas por resultados, circunstâncias ou caráter que não controlaram (Nagel, Williams).
- Compatibilismo
A tese de que liberdade é agir pelas próprias razões sem coerção, e que isso é compatível com causas.
- Licença moral
O efeito psicológico em que fazer algo bom aumenta a tolerância a fazer algo ruim em seguida.
- Razão pública
Em Rawls, a exigência de justificar leis que coagem a todos com razões que todos possam aceitar.
- Injustiça epistêmica
O dano de não ser acreditado por preconceito (testemunhal) ou de não ter conceitos para entender a própria experiência (hermenêutica), segundo Miranda Fricker.
- Progresso moral
A ideia de que podemos nos aproximar da verdade moral, e não só mudar de costume.
- Abertura moral
A disposição de revisar crenças morais diante de bons argumentos e evidências.