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Iniciante / Quem conta

O círculo moral: quem conta e por quê

Toda ética precisa dizer quem merece consideração direta. A resposta depende do critério: senciência, razão, laços ou espécie.

InicianteCírculo moral3 min de leitura

O círculo moral é o conjunto de seres cujos interesses contam por si mesmos, e não só pelo efeito sobre outros. Toda teoria ética precisa traçar essa fronteira, e a escolha do critério muda tudo o que vem depois.

Uma analogia

Pense em uma festa com uma lista de convidados. Quem está na lista tem lugar à mesa; quem não está só entra se alguém de dentro pedir. O círculo moral é essa lista: quem está dentro conta por si mesmo. A pergunta difícil é qual é o critério para entrar, e se ele está sendo aplicado a todos.

Explicando para uma criança

Quando você divide o lanche, pensa em quem está perto: seus amigos. Mas e a criança nova, que ninguém conhece? E o cachorro com fome? O círculo moral é a lista de quem você leva em conta. Aumentar a lista é lembrar de quem ficou de fora sem motivo.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir consideração direta de indireta.
  • Listar os critérios candidatos (senciência, razão, laços, espécie) e o que cada um inclui e exclui.
  • Formular a pergunta que organiza o debate: que traço é relevante para ser prejudicado?

Ajuda ter lido: O que é ética?.

Antes de ler: o que você faria?

Você não deve riscar o carro do vizinho. Também não deve chutar o cachorro dele.

As duas proibições têm o mesmo motivo? O que o carro não tem e o cachorro tem?

Ver o que a lição responde

O carro importa pelo dono (consideração indireta); o cachorro importa por si, porque sofre (consideração direta). A pergunta do círculo moral é que traço dá a alguém valor direto, e a lição compara as respostas.

Consideração direta e indireta

Quase todo mundo acha errado chutar um cão. Mas há duas razões possíveis. Uma é indireta: isso embrutece quem chuta, ou incomoda o dono. Outra é direta: o cão sofre, e o sofrimento dele conta. Kant deu a primeira resposta; Bentham, a segunda. Quem está dentro do círculo recebe consideração direta. Quem está fora só conta quando afeta alguém de dentro.

Os critérios possíveis

CritérioQuem entraProblema
Ser euSó euArbitrário: por que a minha dor e não a sua?
LaçosMinha família, meu grupoPermite indiferença ao estranho que sofre igual
EspécieTodos os humanosPor que a espécie, e não a cor ou o sexo? O que ela muda?
RacionalidadeQuem raciocinaExclui bebês e pessoas com deficiência grave, e inclui máquinas que raciocinem
SenciênciaQuem pode sentir dor e prazerPede saber quem sente, o que a ciência ainda estuda
VidaTodo ser vivoO que uma bactéria tem a perder?
EcossistemasRios, florestas, biomasUm ecossistema não sente nada; os animais nele, sim

A pergunta que organiza o debate

Para incluir ou excluir alguém, é preciso apontar uma diferença relevante. A cor da pele não muda a capacidade de sofrer, e por isso não serviu como razão para excluir. O sexo não muda a capacidade de decidir, e por isso não serviu. A pergunta de hoje é: a espécie muda algo relevante? Um porco não faz matemática, mas também um bebê não faz, e o bebê está dentro. Se o que importa é poder sofrer, a fronteira passa pela senciência, e não pela espécie.

Esse é o argumento de Peter Singer em Libertação Animal, retomando Bentham: a pergunta não é “podem raciocinar?”, mas “podem sofrer?”. Quem rejeita a conclusão precisa dizer qual é a diferença relevante. Veja especismo.

Três perguntas extras

Decidir que seres sencientes contam ainda deixa perguntas, que o Teste de Visão Moral separa:

  • Gradualismo: a inteligência muda o peso do sofrimento? Uma dor igual conta igual em um humano e em um frango? Veja gradualismo.
  • Tempo: quem vai existir daqui a cem anos conta tanto quanto quem existe hoje? Veja gerações futuras.
  • Substrato: se uma máquina vier a sentir, ela conta? Ou só mentes biológicas? Veja mentes artificiais.

Posições com nome

Antropocentrismo (só humanos), sencientismo (quem sente), biocentrismo (toda vida) e ecocentrismo (os sistemas naturais) são as principais. Elas podem se combinar: dá para achar que seres sencientes contam por si e que florestas contam também. O que não dá é fugir da pergunta: quem conta, e o que justifica a fronteira exatamente ali?

A seção de critérios éticos compara as seis delimitações lado a lado: quem tem valor direto em cada uma, a razão alegada, o que cada uma deixa passar e onde é forte ou fraca.

Para guardar

  • Consideração direta é valer por si; indireta é valer por causa de outro. O carro vale pelo dono; o cachorro vale por si, porque sente.
  • Os critérios candidatos são senciência, razão, laços e espécie; cada um inclui e exclui grupos diferentes.
  • A pergunta que organiza o debate: que traço é relevante para alguém poder ser prejudicado?

Para pensar

Faça uma lista rápida de quem conta para você: pessoas próximas, estranhos, animais, gerações futuras. Qual critério explica a lista inteira? Ele deixa alguém de fora por um traço irrelevante?

Erro comum: “Quem conta é quem é inteligente.” Se a inteligência fosse o critério, bebês e pessoas com deficiência cognitiva grave ficariam fora, e ninguém aceita isso. O critério mais defendido é a capacidade de ser prejudicado, isto é, de sentir.
Pratique: Monte o seu círculo moral. Marque quem conta para você e descubra o nome da sua posição.
Dilemas para testar: Os casos marginais, O último homem.

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