Debates / Vida e morte
Aborto
O debate mais polarizado da ética aplicada, e um dos mais bem estruturados: tudo depende de duas perguntas, e elas são diferentes.
Duas perguntas se misturam: o feto é uma pessoa com direito à vida? E, se for, a mulher tem obrigação de sustentá-lo com o próprio corpo? Boa parte do debate público só vê a primeira. A filosofia mostra que a segunda é independente.
Antes de ler: para que lado você pende?
As perspectivas
A favor da permissão
- Thomson: mesmo concedendo que o feto é uma pessoa, não se segue a obrigação de sustentá-lo com o próprio corpo, como no caso do violinista.
- Critérios de pessoa: direito à vida pleno exige capacidades (consciência, desejos, senciência) que o embrião não tem e o feto só adquire aos poucos. Singer e Tooley seguem essa linha.
- Consequências da proibição: abortos clandestinos, mortes e desigualdade, sem redução proporcional do número de abortos, segundo a maior parte dos estudos.
- Autonomia e igualdade: a gravidez forçada impõe à mulher um ônus que não se impõe a ninguém em nenhum outro caso.
Contra a permissão
- Marquis: o aborto é errado porque priva o feto de “um futuro como o nosso”, o mesmo que torna errado matar um adulto, sem depender de religião.
- Continuidade: não há ponto não arbitrário entre concepção e nascimento; se o recém-nascido tem direito à vida, o feto também.
- Responsabilidade: na maioria dos casos a gravidez resulta de um ato voluntário, o que enfraquece a analogia do violinista sequestrado.
- Santidade da vida: para as tradições religiosas, a vida humana tem valor desde a concepção.
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
O que cada teoria tende a dizer
| Utilitarismo de preferências | Permite: o embrião não tem preferências; o feto tardio, talvez interesses, que pesam contra os da mulher. |
|---|---|
| Deontologia de direitos | Permite: o direito à vida não inclui o direito ao corpo de outra pessoa. |
| Deontologia absolutista | Proíbe, se o feto é pessoa: matar inocentes não se faz. |
| Ética do cuidado | Olha a relação concreta, as circunstâncias e quem cuidará; recusa a resposta em abstrato. |
| Sencientismo | O peso moral acompanha a senciência: quase nulo no início, crescente no fim. |
Por que é complexo
- A senciência do feto é empírica e gradual: a evidência aponta para o terceiro trimestre, o que dá peso moral crescente ao longo da gestação.
- O argumento de Marquis e o de Thomson não se respondem: um fala do status do feto, o outro da obrigação de sustentá-lo.
- Permitir não é obrigar nem aprovar: a pergunta política é se a proibição legal é justa e eficaz, e ela é diferente da pergunta moral.
Onde a razão pesa
Entre filósofos, há maioria a favor da permissão ao menos no início da gestação, por autonomia, pelos critérios de pessoa e pelo argumento de Thomson, e consenso de que o peso moral cresce com a senciência. Mas o argumento de Marquis é levado a sério, e a questão do status do feto segue sendo um desacordo real entre pessoas razoáveis. Sobre a lei, as consequências da proibição pesam contra ela com mais clareza do que a moral do ato.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.
E agora, depois de ler?
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
Lições relacionadas: O círculo moral: quem conta e por quê, Senciência: o que é, quem tem e como sabemos, Fazer e deixar acontecer: o viés de omissão.
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