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Fazer e deixar acontecer: o viés de omissão

Causar um dano parece pior do que deixar que ele aconteça. Às vezes é. Mas o cérebro usa essa diferença para desculpar muito do que deixamos de fazer.

IntermediárioConsequencialismoMente e vieses4 min de leitura

Empurrar alguém na água é pior do que não salvar quem está se afogando? A maioria diz que sim. A diferença entre fazer e deixar acontecer está no centro de muitos debates éticos, e também no centro de um viés que nos faz tolerar danos enormes, desde que não os tenhamos causado com as próprias mãos.

Uma analogia

Um salva-vidas que empurra alguém na água é um criminoso. Um que vê alguém se afogar e fica olhando, podendo salvar, também é. Ele não fez “nada”: fez a escolha de não agir, e o afogado não vê diferença. A distinção entre fazer e deixar acontecer vale em alguns casos; no do salva-vidas, não.

Explicando para uma criança

Se você derruba o castelo de areia do seu amigo, fez algo ruim. Se vê a onda vindo, pode avisar e não avisa, também fez algo ruim, mesmo sem tocar no castelo. “Eu não fiz nada” às vezes é só outro jeito de fazer.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar o caso de Rachels (Smith e Jones) e o que ele testa.
  • Dizer onde a diferença entre fazer e permitir parece real e onde é viés de omissão.
  • Usar a distinção com honestidade em casos próprios.

Ajuda ter lido: Consequencialismo: quando o resultado pesa mais, Deontologia: quando deveres e direitos pesam mais.

Antes de ler: o que você faria?

Smith afoga o sobrinho na banheira para herdar. Jones planeja o mesmo, mas o sobrinho escorrega e Jones apenas assiste.

Jones é menos culpado? Se os dois lhe parecem iguais, o que isso diz sobre a diferença entre matar e deixar morrer?

Ver o que a lição responde

Rachels conclui que a diferença, por si, não muda a avaliação quando intenção e resultado são iguais. A lição mostra onde a distinção ainda importa e onde o cérebro a usa para desculpar omissões.

O caso de Rachels

James Rachels, em 1975, propôs dois casos. Smith herdará uma fortuna se o primo de seis anos morrer; ele afoga a criança na banheira e faz parecer acidente. Jones tem o mesmo plano, mas, ao entrar no banheiro, vê o primo escorregar e bater a cabeça; ele só fica olhando, pronto para empurrá-lo de volta se for preciso, e a criança morre sozinha. Smith matou; Jones deixou morrer. Alguém acha Jones melhor do que Smith? Rachels concluiu que a diferença entre matar e deixar morrer, por si só, não tem peso moral: o que importa são a intenção, o motivo e o resultado.

Onde a diferença parece real

Deontologistas respondem que os casos de Rachels são iguais porque tudo o mais é igual. Em geral, não é. Quem faz o dano é a causa dele; quem deixa acontecer só não interferiu. Warren Quinn e Philippa Foot defenderam que temos direitos negativos (a não ser prejudicado) mais fortes do que direitos positivos (a ser ajudado), e que isso explica a diferença: matar viola um direito negativo; deixar morrer, no máximo, deixa de cumprir um dever positivo. Sem essa distinção, argumentam, estaríamos obrigados a salvar todos o tempo todo, e a vida seria impossível.

PosiçãoFazer e deixar acontecerConsequência
ConsequencialismoNão há diferença em si; o que conta é o resultado e o que estava ao alcanceDeixar de ajudar quando se pode é tão sério quanto prejudicar
DeontologiaHá diferença: causar dano viola um direito; não ajudar não violaDeveres de ajuda são reais, mas mais fracos e com latitude
Ética das virtudesDepende do que a omissão revela: indiferença, covardia ou prudênciaA pessoa boa não se esconde atrás de “eu não fiz nada”

O viés de omissão

Independentemente de a distinção ser válida, a psicologia mostra que a usamos além da conta. Ilana Ritov e Jonathan Baron, em 1990, perguntaram a pais se vacinariam os filhos contra uma doença que mata 10 em 10 mil crianças, sabendo que a vacina mata 5 em 10 mil. Muitos recusaram: preferiam o risco maior, desde que viesse da doença, e não de uma ação deles. É o viés de omissão: julgar ações danosas como piores do que omissões igualmente danosas, mesmo quando o resultado é pior.

O viés tem explicações. A ação é mais visível, mais atribuível e mais fácil de culpar. Omissões se diluem entre todos os que poderiam ter agido. E a evolução nos preparou para evitar a culpa, não para minimizar o dano.

Onde ele custa caro

  • Doar: não doar para salvar uma vida parece neutro; tirar a vida parece crime. O resultado para quem morre é o mesmo. Veja a criança no lago.
  • Políticas públicas: reguladores atrasam remédios por medo dos efeitos colaterais de aprovar, enquanto as mortes por não aprovar não aparecem em lugar nenhum.
  • Animais selvagens: “a natureza é assim” trata o sofrimento que não causamos como se não contasse. Veja animais selvagens.
  • Clima e futuro: os danos de não agir não têm autor, e por isso parecem menos graves do que são.
  • Medicina: deixar morrer é aceito; ajudar a morrer é proibido, mesmo quando o paciente pede e o resultado é o mesmo. É a origem do debate sobre eutanásia passiva e ativa.

Como usar a distinção com honestidade

  1. Pergunte o que estava ao seu alcance. Omissão só é neutra quando não havia nada a fazer.
  2. Compare os resultados. Se a omissão produz mais dano, “não fiz nada” não é defesa.
  3. Reserve a diferença para onde ela faz sentido: proteger direitos contra interferência, e não desculpar indiferença.
  4. Desconfie quando a distinção sempre favorece a sua comodidade.

Para guardar

  • Smith e Jones: quando intenção e resultado são iguais, a diferença entre matar e deixar morrer não muda a avaliação.
  • A distinção importa onde há diferença de intenção, de meio ou de custo; não vale como desculpa geral.
  • O viés de omissão faz a omissão parecer neutra; ela também é escolha.

Para pensar

Liste três danos que você “deixa acontecer” sem causar (uma doação não feita, um aviso não dado). Em qual deles a distinção fazer/permitir de fato o desculpa?

Erro comum: “Não fazer nada é sempre neutro.” Deixar acontecer também é uma escolha com efeitos, e o viés de omissão faz parecer que não. Há casos em que a omissão é menos grave; não há casos em que ela não conte.
Pratique: O bonde, caso a caso. Responda às variantes do dilema e veja que padrão suas respostas revelam.
Dilemas para testar: O bonde: o desvio, A criança no lago.

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