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Intermediário / Consequencialismo por dentro

Um cenário melhor ou o melhor cenário?

“Melhorou” não é “ficou bom”, e “bom” não é “o melhor possível”. A diferença entre comparar com o passado e comparar com as alternativas reais decide muitas discussões.

IntermediárioConsequencialismoVida prática4 min de leitura

“A situação dos animais melhorou.” “A pobreza caiu.” “Esse político foi menos ruim do que o anterior.” Todas podem ser verdadeiras e, ainda assim, irrelevantes para a pergunta que importa: entre as opções que temos, esta é a melhor? Confundir melhor do que antes com o melhor disponível é um dos erros mais comuns do raciocínio moral.

Uma analogia

Um aluno que tirava 3 e passou a tirar 5 melhorou. Mas, se ele poderia tirar 8 com o mesmo esforço, “melhorou” não é a resposta certa para “está bem?”. E quem exige o 10 ou nada acaba sem o 5. A pergunta útil é sempre: entre as notas possíveis, qual é a melhor que dá para tirar agora?

Explicando para uma criança

Se você arrumou metade do quarto, está melhor do que antes. Mas se dava para arrumar tudo no mesmo tempo, “melhorou” não quer dizer “ficou pronto”. E quem só aceita o quarto perfeito acaba sem arrumar nada. O jeito certo é fazer o melhor que dá hoje.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir três comparações: com o passado, com o possível e com as alternativas reais.
  • Reconhecer os dois erros simétricos: contentar-se com “melhorou” e exigir o ideal.
  • Explicar a diferença entre maximizar e satisfazer.

Ajuda ter lido: Consequencialismo: quando o resultado pesa mais.

Antes de ler: o que você faria?

Uma empresa anuncia que reduziu o confinamento dos seus frangos “em 30%” e que “melhorou muito”.

“Melhorou” responde se está bom? Com que você compara: o passado, o ideal, ou o que ela poderia fazer agora?

Ver o que a lição responde

Comparar com o passado mostra progresso; comparar com as alternativas reais mostra o que falta. Os dois erros (satisfazer-se com qualquer melhora, exigir o ideal) são simétricos, e a lição dá o critério do melhor cenário esperado.

Três comparações diferentes

PerguntaCompara comResponde
Melhorou?O passadoSe houve progresso. Não diz se basta nem se há opção melhor
É bom?Um padrão (um mínimo, um direito)Se atinge o que se deve. Não diz se há algo ainda melhor
É o melhor possível?As alternativas reais disponíveisSe há razão para mudar. É a pergunta que decide a ação

O consequencialismo pede a terceira. Uma ação não é certa por ser boa: é certa se, entre as alternativas disponíveis, produz o melhor resultado. Isso vale para políticas, escolhas pessoais e julgamentos sobre o passado.

Dois erros simétricos

  • Contentar-se com “melhorou”: galinhas em gaiolas maiores vivem melhor do que em gaiolas menores. É progresso, e é bom lutar por ele. Mas, se a alternativa de não criar em gaiola existe, “melhorou” não encerra a pergunta. O mesmo vale para um governo que faz menos mal do que o anterior.
  • Exigir o perfeito: “se não resolve tudo, não vale”. Rejeitar uma reforma porque não é a abolição, ou uma doação porque não acaba com a pobreza, troca um bem real por um ideal inexistente. O perfeito, quando não está entre as opções, não é uma opção.

Os dois erros têm a mesma causa: comparar com a coisa errada. O primeiro compara com o passado; o segundo, com um ideal. A ética compara com as alternativas reais, inclusive a de não fazer nada.

Maximizar ou satisfazer?

Michael Slote propôs o consequencialismo satisfatório: basta produzir um resultado bom o suficiente, sem obrigação de maximizar. A motivação é a objeção da exigência: se devemos sempre o melhor, nunca estamos quites. A crítica é que “bom o suficiente” não tem critério: por que parar aqui e não ali, se dá para fazer melhor ao mesmo custo? A maioria dos consequencialistas mantém que o melhor resultado é o critério do certo, e trata a exigência como um problema de quanto cobrar, não de o que é certo.

O melhor cenário esperado

Quando não se sabe o resultado, o “melhor cenário” não é o mais otimista, e sim o de maior valor esperado: cada resultado pesado pela sua probabilidade. Apostar no cenário mais bonito ignorando a chance de ele acontecer é o erro oposto a só olhar o pior. Veja teoria da decisão e ética.

Na prática

  1. Nomeie as alternativas reais, inclusive “não fazer nada” e “fazer menos”. Sem elas, não há comparação.
  2. Pergunte “melhor do que o quê?” sempre que ouvir “melhorou” ou “é bom”.
  3. Aceite o melhor disponível e continue trabalhando para ampliar as opções. Reforma hoje e abolição como meta não se excluem.
  4. Não use o ideal como desculpa: quem rejeita todo avanço parcial em nome do perfeito costuma acabar com nenhum.
  5. Não use o progresso como desculpa: quem celebra todo avanço parcial como suficiente costuma parar cedo demais.

Para guardar

  • “Melhorou” compara com o passado; “bom” compara com o possível; a comparação que decide é com as alternativas reais.
  • Contentar-se com qualquer melhora e exigir o ideal são erros simétricos.
  • Satisfazer é racional sob limites; vira desculpa quando o melhor estava ao alcance.

Para pensar

Pense numa mudança que você fez e chamou de “melhora”. Comparada com o que você podia ter feito, ela foi o melhor cenário disponível?

Erro comum: “Se não dá para fazer o ideal, qualquer melhora serve.” A comparação relevante não é com o ideal nem com o passado, e sim com as alternativas disponíveis. “Melhor que antes” pode ser muito pior do que o que era possível.
Dilemas para testar: A criança no lago.

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