Ética
Para Iniciantes
Comece aqui

Intermediário / Ética aplicada

Deficiência: dependência, cuidado e o valor de cada vida

O que a deficiência ensina às teorias feitas para adultos independentes: o modelo social, a crítica de Kittay a Rawls e o debate com Singer.

IntermediárioCírculo moralCaráter e cuidado4 min de leitura

As grandes teorias éticas imaginam agentes adultos, racionais e independentes. Pessoas com deficiência, sobretudo cognitiva grave, não cabem nesse modelo, e por isso a deficiência é um teste para toda teoria: ou ela as inclui, ou revela que o modelo era pequeno demais.

Uma analogia

Uma escada não é um obstáculo para quem anda; é para quem usa cadeira de rodas. Trocar a escada por uma rampa não muda a pessoa, muda o prédio. A deficiência vive nesse encontro, e uma ética que só pensa em quem sobe escada esqueceu de perguntar quem fez a escada.

Explicando para uma criança

Algumas pessoas não andam, não enxergam ou pensam de um jeito diferente. Elas não valem menos. Muitas vezes o problema não está nelas, e sim nas coisas que foram feitas sem pensar nelas, como uma escada sem rampa.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir modelo médico e modelo social.
  • Explicar a crítica de Kittay a Rawls.
  • Reconstruir o debate com Singer e o que ele expõe nas teorias do círculo moral.

Ajuda ter lido: Igualdade humana: em que ela se baseia?, A ética do cuidado.

Antes de ler: o que você faria?

Um prédio tem só escadas. Uma pessoa que usa cadeira de rodas não entra.

O problema está na pessoa ou no prédio? O que muda na política se a resposta for a segunda?

Ver o que a lição responde

O modelo social diz que a deficiência vive no encontro entre o corpo e um ambiente que não o acomoda; a resposta é a rampa, não a cura. A lição mostra esse modelo, a crítica ao contrato e o debate com Singer.

Modelo médico e modelo social

O modelo médico vê a deficiência como um defeito no indivíduo, a ser curado ou compensado. O modelo social, nascido do movimento de pessoas com deficiência, vê a deficiência como o encontro entre uma diferença corporal e um ambiente que não a acomoda: a escada, não a cadeira de rodas, é o que impede de entrar. A verdade está em alguma combinação, e Elizabeth Barnes defende que ter uma deficiência é ser diferente, não pior, embora o mundo torne a diferença custosa.

Kittay contra Rawls

Eva Kittay, filósofa e mãe de uma filha com deficiência cognitiva grave, mostrou que o contrato social de Rawls deixa de fora quem não pode cooperar como igual, e também quem cuida deles. Sua proposta: a dependência não é exceção, é a condição humana, no começo e no fim da vida e em muitos momentos entre eles; uma teoria da justiça precisa começar por ela. É a ética do cuidado levada à política.

O debate com Singer

Peter Singer argumentou que o valor de uma vida depende de capacidades como autoconsciência e projetos, e que, em casos de recém-nascidos com deficiências gravíssimas, a eutanásia pode ser permitida com consentimento dos pais. Pessoas com deficiência e filósofos como Kittay e Harriet McBryde Johnson responderam com força: a vida com deficiência é valorizada por quem a vive; prever a qualidade de vida de fora é o que a história do capacitismo sempre fez; e o argumento de Singer, aplicado a humanos, soa como o que ele combate quando aplicado a animais. Singer manteve a posição teórica e reconheceu que a qualidade de vida de pessoas com deficiência é maior do que os não deficientes supõem.

O debate expõe uma tensão interna à ética do círculo moral: o mesmo argumento (capacidades, não espécie) que inclui os animais pode ser usado para graduar humanos. O gradualismo e os casos marginais são o lugar onde isso se decide, e a resposta sencientista é que a dor conta igual, seja de quem for, e que o que varia é o que se perde com a morte, não o peso do sofrimento.

Capacitismo

É a fronteira parcial que favorece corpos e mentes normativos. Aparece em piadas, em prédios sem acesso, em diagnósticos pré-natais que presumem que uma vida com síndrome de Down não vale a pena, e na pergunta “por que gastar com quem não vai produzir?”. A resposta da ética é a mesma dada às outras fronteiras: a capacidade não muda o valor dos interesses de alguém. Veja critérios éticos.

O que as teorias dizem

TeoriaSobre a deficiência
Contratualismo (Rawls)Dificuldade: quem não coopera fica fora; respostas de Nussbaum (capacidades) e Kittay (dependência).
UtilitarismoInclui pela senciência; o risco é descontar vidas por “qualidade” presumida de fora.
KantDignidade não depende de capacidade, mas a teoria original exigia razão; Korsgaard corrige.
CuidadoParte da dependência; é a teoria mais à vontade com o tema.
Capacidades (Nussbaum)Justiça é garantir a cada um as capacidades de uma vida digna, com os apoios que forem necessários.

Para guardar

  • Modelo social: a deficiência vive no encontro entre o corpo e um ambiente que não o acomoda; a resposta é a rampa, não só a cura.
  • Kittay: a dependência é a condição humana; uma teoria da justiça que começa por independentes começa pela metade.
  • O debate com Singer expõe que o critério das capacidades, usado para incluir animais, pode graduar humanos; a resposta sencientista é que a dor conta igual para todos.

Para pensar

Olhe o prédio, o site ou o serviço onde você trabalha ou estuda: que pessoa ele deixa de fora? O problema está na pessoa ou no desenho?

Erro comum: “Vidas com deficiência são piores; é só honestidade dizer.” Quem vive com deficiência relata qualidade de vida muito maior do que quem olha de fora supõe, e a história do capacitismo é a história de prever de fora. Há deficiências que causam sofrimento; há muitas que só custam por causa do ambiente.
Pratique: Monte o seu círculo moral. Marque quem conta para você e descubra o nome da sua posição.
Dilemas para testar: Os casos marginais.

Teste rápido · 1 de 3

Aplique · 2 de 3

Confira · 3 de 3