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Intermediário / Consequencialismo por dentro

O que torna uma vida boa? As teorias do bem-estar

Prazer, desejos satisfeitos ou uma lista de bens: três respostas sobre o que é bom para quem vive a vida, e por que a escolha muda tudo.

IntermediárioConsequencialismoFundamentos4 min de leitura

Bem-estar é o que torna uma vida boa para quem a vive. Toda teoria ética precisa de uma resposta, não só o utilitarismo: deontologistas decidem o que é beneficência, éticos das virtudes o que é florescer, e quem defende animais precisa dizer o que é uma vida boa para um porco. Há três famílias de resposta.

Uma analogia

Três formas de avaliar uma viagem: pelo quanto você se divertiu (hedonismo), pelo quanto ela foi como você queria (desejo), ou pelo que você de fato conheceu e aprendeu, mesmo que tenha chovido (lista objetiva). As três podem dar notas diferentes para a mesma viagem.

Explicando para uma criança

O que faz uma vida ser boa? Sentir coisas boas? Conseguir o que você quer? Ou ter coisas que são boas mesmo que você não perceba, como aprender e ter amigos? Os filósofos têm as três respostas, e cada uma muda o que a gente faz pelos outros.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir hedonismo, teorias do desejo e lista objetiva.
  • Usar a máquina de experiências para testar o hedonismo.
  • Explicar por que a escolha da teoria do bem-estar muda as conclusões práticas.

Ajuda ter lido: Bentham, Mill e o utilitarismo clássico.

Antes de ler: o que você faria?

Um homem viveu feliz acreditando que a mulher e os amigos o amavam. Na verdade, todos o desprezavam e fingiam. Ele morreu sem saber.

A vida dele foi boa? Se você hesita, o que isso diz sobre a tese de que só a experiência conta?

Ver o que a lição responde

Se só o que se sente conta, a vida foi boa; a maioria hesita, o que sugere que queremos que as coisas sejam de certo modo, não só que pareçam. A lição apresenta as três teorias e o que cada uma diz desse caso.

Hedonismo

Bem-estar é prazer e ausência de dor, no sentido amplo: toda experiência que se sente como boa ou ruim. Bentham o adotou; Mill o refinou com prazeres superiores e inferiores; hoje o defendem Roger Crisp e, desde 2014, Peter Singer. A força: é o que todos sentem diretamente, e é o que faz a dor de um animal contar. A fraqueza: a máquina de experiências. Se só a experiência conta, uma vida de ilusões felizes é tão boa quanto uma vida real, e a maioria recusa isso.

Teorias do desejo

Bem-estar é a satisfação das preferências da pessoa, aconteça ou não que ela a sinta. Escapa da máquina: quem prefere a realidade tem essa preferência frustrada na ilusão. É a base do utilitarismo de preferências e da economia do bem-estar. As dificuldades: desejos mal informados (querer o que faria mal), desejos adaptados (quem nunca teve escolha deseja pouco), desejos sobre coisas distantes (que o Brasil ganhe a Copa depois da minha morte: isso me beneficia?). As versões sofisticadas contam só desejos informados e sobre a própria vida, o que as aproxima da terceira família.

Lista objetiva

Há bens que tornam uma vida melhor mesmo que a pessoa não os deseje nem os sinta: saúde, conhecimento, amizade, realização, autonomia, prazer. Aristóteles é o ancestral; Parfit, Finnis e Martha Nussbaum (com as capacidades) são versões modernas. A força: explica por que uma vida de conquistas reais é melhor do que uma de ilusões, e por que a educação beneficia quem não a quer. A fraqueza: quem faz a lista, e com que autoridade? E uma vida cheia de “bens” que a pessoa detesta é boa para ela?

TeoriaO que é bom para vocêAcerta emFalha em
HedonismoSentir-se bemDor e prazer são o que mais importa a quem senteMáquina de experiências; vidas enganadas
DesejoConseguir o que querRespeita a autonomia; escapa da máquinaDesejos ruins, adaptados ou distantes
Lista objetivaTer os bens que fazem uma vida boaExplica vidas boas sem ilusão e o valor da educaçãoPaternalismo; quem faz a lista

Por que a escolha muda tudo

  • Animais: para o hedonismo, a vida de um animal conta pelo que ele sente, e isso basta para a ética animal inteira. Para teorias de lista, a pergunta é o que é florescer para cada espécie (Nussbaum).
  • Morte: para o hedonismo, a morte é ruim pelo prazer perdido; para o desejo, pelos projetos frustrados; para a lista, pelos bens que não virão. Isso decide o peso de matar um ser sem projetos.
  • Paternalismo: listas objetivas justificam mais intervenção; teorias do desejo, menos. Veja o debate.
  • Ética populacional: criar uma vida “boa” depende do que “boa” quer dizer.
  • Política: renda, satisfação declarada ou capacidades? O IDH escolheu a terceira.

Uma posição híbrida

Muitos filósofos hoje combinam: o bem-estar exige uma experiência positiva e que ela se refira a algo real e valioso (Robert Adams, Wayne Sumner). Nem a ilusão feliz nem a conquista sem alegria são vidas plenamente boas. É menos elegante do que cada teoria pura, e mais parecido com o que as pessoas pensam.

Para guardar

  • Três respostas sobre o que é bom para quem vive: prazer, desejos satisfeitos, uma lista de bens.
  • A máquina de experiências e a vida enganada são os testes do hedonismo; a lista objetiva paga com a pergunta “quem decide a lista?”.
  • A escolha da teoria do bem-estar muda as conclusões práticas de qualquer consequencialismo.

Para pensar

Você entraria na máquina de experiências por uma vida inteira? Se não, o que você quer além de sentir que as coisas vão bem?

Erro comum: “Bem-estar é o que a pessoa acha que é.” Essa é só uma das teorias (a do desejo), e tem problemas: desejos mal informados, desejos que não afetam a pessoa. O hedonismo e a lista objetiva discordam, e a disputa é séria.
Dilemas para testar: A máquina de experiências.

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