Durante a maior parte da história, a filosofia moral foi escrita por homens, sobre a vida pública de homens, tratando a casa, o cuidado e a dependência como assunto de fora. A ética feminista não é uma teoria única: é um conjunto de críticas e propostas que nasceram quando mulheres passaram a fazer filosofia moral e perguntaram o que ela tinha deixado de fora.
Uma analogia
Um mapa feito só por quem anda de carro mostra estradas e esquece calçadas, escadas e o caminho até a creche. O mapa não está errado; está incompleto, e quem anda a pé se perde nele. A ética feminista redesenhou o mapa incluindo quem ficou fora, e todos passaram a andar melhor.
Explicando para uma criança
Durante muito tempo, só homens escreveram sobre o que é certo e errado, e esqueceram de coisas que as mulheres faziam, como cuidar das crianças e dos doentes. Quando as mulheres começaram a escrever também, todo mundo descobriu que cuidar dos outros é uma das coisas mais importantes da vida.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Descrever as três etapas: inclusão, crítica das teorias, justiça nas estruturas.
- Definir autonomia relacional, interseccionalidade e injustiça epistêmica.
- Explicar a ponte com a ética animal e a crítica sencientista a ela.
Ajuda ter lido: A ética do cuidado, Igualdade humana: em que ela se baseia?.
Antes de ler: o que você faria?
Rawls aplicou seus princípios de justiça à estrutura básica da sociedade. A divisão do trabalho doméstico ficou de fora, como assunto privado.
Se a maior parte da desigualdade entre homens e mulheres nasce na família, o que acontece com uma teoria da justiça que para na porta de casa?
Ver o que a lição responde
Okin mostrou que ela deixa intacta a fonte da desigualdade. A lição percorre as perguntas que a ética feminista fez às teorias e os conceitos que deu a todas elas.
Três ondas de perguntas
Mary Wollstonecraft (1792) aplicou às mulheres o argumento que os iluministas aplicavam aos homens: se a razão dá direitos, e as mulheres têm razão, a exclusão é incoerente. Mill repetiu o argumento em A Sujeição das Mulheres. Simone de Beauvoir mostrou que a mulher era construída como “o Outro”, definida pelo homem como referência. Essa primeira etapa pede inclusão nas teorias existentes.
A segunda etapa, nos anos 1980, perguntou se as próprias teorias eram neutras. Carol Gilligan e Nel Noddings propuseram a ética do cuidado: uma moral das relações concretas, que as teorias da imparcialidade mal enxergavam. Virginia Held e Eva Kittay levaram-na à política: a dependência (na infância, na velhice, na doença) é a condição humana, e uma teoria da justiça que começa por adultos independentes começa pela metade.
A terceira etapa discute a justiça dentro da família e as estruturas. Susan Moller Okin, em Justice, Gender, and the Family, mostrou que Rawls aplicava seus princípios à sociedade e parava na porta de casa, onde a divisão do trabalho doméstico produzia desigualdade que nenhum véu da ignorância tocava. Martha Nussbaum propôs a abordagem das capacidades como padrão universal de uma vida digna, contra o relativismo que aceitava a opressão como “cultura”.
Conceitos que a ética feminista deu a todos
- Autonomia relacional: ninguém decide num vácuo; a autonomia se forma e se exerce em relações, e pode ser destruída por elas. Isso corrige o modelo do agente isolado de Kant e do contrato.
- Esfera privada como lugar moral: o que acontece em casa (trabalho, cuidado, violência) é assunto de justiça, não só de afeto.
- Opressão como categoria: Marilyn Frye e Iris Marion Young descreveram a opressão como estrutura, não só como atos individuais: as “cinco faces” de Young (exploração, marginalização, impotência, imperialismo cultural, violência) servem para qualquer grupo.
- Interseccionalidade: Kimberlé Crenshaw mostrou que raça, gênero e classe não se somam, cruzam-se: a experiência de uma mulher negra não é a de uma mulher branca mais a de um homem negro.
- Injustiça epistêmica: Miranda Fricker nomeou o dano de não ser acreditada por ser quem se é, e o de não ter palavras para a própria experiência (veja o glossário).
A ponte com os animais
Carol J. Adams, em A Política Sexual da Carne, ligou a lógica que objetifica mulheres à que transforma animais em “carne”: nos dois casos, um sujeito vira coisa e desaparece da frase. Josephine Donovan e o ecofeminismo propuseram a ética do cuidado como base da ética animal, contra o que viam como racionalismo frio de Singer e Regan. A crítica sencientista a essa ponte é que o cuidado parte do próximo e precisa da imparcialidade para alcançar o frango que ninguém vê; os dois lados hoje se combinam mais do que se opõem.
Críticas e debates internos
A ética do cuidado foi acusada de essencialismo (atribuir às mulheres uma “voz” que é efeito da socialização) e de romantizar um papel imposto; Okin e outras liberais preferiram reformar a justiça a substituí-la pelo cuidado. Há desacordo sobre trabalho sexual, pornografia e maternidade de substituição (veja os debates), e sobre quanto do que é chamado de escolha é escolha sob opressão. O que une as correntes é o método: perguntar quem ficou fora da teoria, e o que muda quando entra.
Para guardar
- Três etapas: incluir as mulheres nas teorias, criticar as teorias, levar a justiça às estruturas e à família.
- Autonomia relacional, injustiça epistêmica e interseccionalidade são conceitos que a ética feminista deu a todas as teorias.
- O método é perguntar quem ficou fora da teoria e o que muda quando entra; ele serve para outros excluídos.
Para pensar
Pegue uma teoria da ética que você gosta e pergunte: para quem ela foi pensada? Que experiência humana ela deixa de ver por isso?
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