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Critérios éticos

13 posições sobre os critérios da moral: quem recebe consideração direta, com que peso, e se há um padrão comum a todos.

Como ler: antes de decidir como agir, toda ética responde a duas perguntas de critério: quem conta (o círculo moral) e se há um padrão válido para todos (contra o egoísmo, o relativismo e o ceticismo). Estas posições se combinam com qualquer teoria normativa. Veja as lições sobre o círculo moral e sobre egoísmo, relativismo e ceticismo.

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Egoísmo, relativismo e ceticismo talvez não haja um padrão único

Círculo moral quem recebe consideração direta, e com que peso

Todas

Egoísmo, relativismo e ceticismo talvez não haja um padrão único

Círculo moral quem recebe consideração direta, e com que peso

As seis delimitações do círculo

Quem tem valor direto, a razão alegada, o que cada delimitação deixa passar e onde é forte ou fraca. As delimitações podem se combinar, e cada pessoa tem graus de cada uma; quando entram em conflito, é preciso decidir qual pesa.

EgocentrismoTribalismo (grupocentrismo)AntropocentrismoSenciocentrismo (sencientismo)BiocentrismoEcocentrismo
Quem tem valor diretoSó o próprio indivíduo tem valor em siOs indivíduos de grupos específicos têm mais valorOs humanos têm valor em si; o resto conta pelo efeito sobre humanosOs seres sencientes têm valor em siOs seres vivos têm valor em si, sencientes ou nãoAs entidades naturais (ecossistemas, espécies, a biosfera) têm valor em si, acima dos indivíduos
A razão alegadaCada um é a única perspectiva a que tem acesso, e cuidar de si é o que a natureza premiaLaços, lealdade, semelhança e tradição; o grupo é descrito como naturalmente superior ou como o único que pode ser conhecido de verdadePertencer à espécie humana, ou ter capacidades (razão, linguagem) tomadas como exclusivas delaO que é relevante para receber consideração de forma justa e imparcial é a capacidade de ser prejudicado ou beneficiado, isto é, de sentirTodo organismo tem um bem próprio: crescer, se manter, se reproduzir. Ter um bem próprio bastaria para contarA interdependência de tudo o que existe em um ecossistema; a saúde e a estabilidade do todo vêm antes das partes
Movimentos derivadosEgoísmo ético, individualismo radical, solipsismo moralFamiliarismo, nacionalismo, etnocentrismo, religiosismo, classismo e as demais fronteiras parciais listadas abaixoHumanismo em sua forma tradicional (não todo humanismo: muitos humanistas incluem os animais)Antiespecismo, veganismo ético, biologia do bem-estar, éticas focadas no sofrimentoReverência pela vida (Schweitzer), biocentrismo igualitário (Taylor), biocentrismo com graus (Attfield)Ética da terra (Leopold, Callicott), ecologia profunda (Naess), parte do ambientalismo
Parcialidades que deixa passarTodas: qualquer parcialidade serve, desde que favoreça o próprio agenteSexismo, racismo, homofobia, capacitismo, intolerância religiosa e política, especismo: qualquer exclusão de quem está fora do grupoEspecismoNenhuma das anteriores. Em versões parciais, admite graus (gradualismo), desconto do futuro (temporalismo) ou exclusão de mentes artificiais (carbonismo)Indiferença à senciência: pode sacrificar interesses de quem sente por seres que não sentem, ou tratá-los como equivalentesSacrifício de indivíduos sencientes pelo “bem do sistema”: abate de espécies introduzidas, recusa de ajudar animais selvagens, indiferença ao sofrimento “natural”
FinsProteger e favorecer a si mesmoProteger e favorecer grupos específicosProteger e favorecer qualquer indivíduo humanoProteger e favorecer qualquer indivíduo sencienteProteger e favorecer qualquer ser vivoProteger e favorecer qualquer ente natural
Pontos fortesÉ intuitivo: cada um sente os próprios interesses com mais força do que os dos outros, e conhece melhor as próprias necessidades.É intuitivo e apela ao que já sentimos: cuidamos mais de quem está perto, e a evolução nos preparou para isso. Deveres especiais com os próximos são reais.Inclui todos os humanos, o que já foi uma conquista enorme. É confortável e de fácil adesão, porque coincide com o costume e com vieses arraigados. Reconhece capacidades humanas reais.É o mais coerente diante da razão: usa o critério da relevância, a imparcialidade e o tratamento de interesses semelhantes de forma semelhante. Inclui bebês e pessoas com deficiência sem truques, e explica por que a crueldade com um animal é errada pelo animal.Leva a sério a vida não humana e rejeita a arrogância da espécie. Reconhece a importância de preservar toda a vida, e tem um apelo real.Visão holística, que leva em conta a interdependência e a irreversibilidade da destruição ambiental. Fundamenta a conservação e corrige o curto prazo das éticas individualistas.
FraquezasÉ arbitrário: a minha dor não é diferente da sua por ser minha. Não resolve conflitos (manda cada um vencer o outro), não pode ser recomendado a ninguém e, levado a sério, não é uma moral, e sim a ausência de uma.O traço que define o grupo nunca é relevante para o que está em jogo: cor, nação ou religião não mudam a capacidade de sofrer. Permite opressões sistemáticas e já justificou todas as que a história registra. Deveres especiais permitem cuidar mais dos seus; não permitem tratar os outros como se não contassem.Não usa o que é relevante para a ética, a capacidade de ser prejudicado ou beneficiado. A espécie é um traço biológico como a raça; e as capacidades alegadas (razão, linguagem) faltam a bebês e a pessoas com deficiência grave, que contam, e sobram em muitos animais, que não contam. É o argumento dos casos marginais.É contraintuitivo e de adesão difícil, porque confronta hábitos e vieses. Precisa saber quem sente, e a ciência ainda tem incerteza sobre invertebrados. Comparar experiências entre espécies é difícil. As implicações práticas são grandes, e a maioria não as segue.Um ser sem senciência pode ser danificado, mas não se importa com o dano: não há ninguém para quem as coisas vão mal. Pelo critério da relevância, defender entidades não sencientes de forma direta é um erro de categoria, e os sencientes ficam em segundo plano. Biocentristas respondem que ter um bem próprio basta; é o ponto em disputa.Um ecossistema não sente; os animais que vivem nele, sim. Dar consideração direta ao todo e negá-la a quem sofre dentro dele inverte a ordem da relevância. “Integridade” e “estabilidade” não são estados naturais: ecossistemas mudam, e escolher um estado como o certo é decisão humana. Regan chamou a prioridade do todo de “fascismo ambiental”.

Quadro editorial do site, a partir das planilhas de delimitações éticas e do critério da relevância: o que importa para contar é poder ser prejudicado ou beneficiado. Biocentristas e ecocentristas contestam esse critério; as páginas de cada posição trazem a defesa deles.

As fronteiras da parcialidade

Raça, espécie, nacionalidade, religião, classe, idade, aparência: cada uma já serviu de critério para decidir quem conta. Todas têm a mesma estrutura: um traço irrelevante para o que está em jogo, tomado como relevante. A coluna da direita diz qual é a posição imparcial correspondente, e ela nunca é a hostilidade ao grupo favorecido: é a consideração igual.

Viés ou sistema parcialCritério usadoFavoreceDespreza ou prejudicaA posição imparcial
Grau 1: Indivíduo
Egoísmo / egocentrismoexistencialo próprio indivíduotodos os outrosImparcialidade: os interesses de cada um contam igual
Grau 2: Grupo íntimo
Familiarismointimidade, sangue, afetofamília, parceiros, amigos, animais de companhiaquem está fora do círculo íntimoDeveres especiais com limite: cuidar mais dos seus sem tratar os outros como se não contassem
Grau 3: Grupo amplo
Intolerância políticapolíticaquem tem as mesmas crenças político-econômicasquem pensa diferente, inclusive de forma democráticaPluralismo e tolerância política
Elitismo / classismo / casteísmoeconômicaquem tem mais poder econômico ou nasceu na casta certaos mais pobres e os de casta inferiorIgualdade de consideração entre classes; prioridade a quem está pior
Intolerância religiosareligiosaquem tem a mesma religiãoquem tem outra religião ou nenhumaLiberdade religiosa e laicidade do Estado
Nacionalismo / patriotismo excludentegeográfica, culturalcompatriotasestrangeirosCosmopolitismo: o lugar de nascimento não é razão moral
Etnocentrismoetnográficaquem tem a mesma etniaoutras etniasAntietnocentrismo
Sexismobiológicao próprio sexoo outro sexoIgualdade entre os sexos
Racismobiológicaa própria raça ou as preferidasoutras raçasAntirracismo
Transfobiaidentidade de gêneroquem tem identidade de gênero normativapessoas trans e não bináriasRespeito à identidade de gênero
Homofobiaorientação sexualquem tem orientação normativaoutras orientaçõesRespeito à orientação sexual
Etarismoidadecertas faixas etáriasoutras idades, em geral idosos e criançasAntietarismo
Capacitismocapacidade física, cognitiva ou psíquicaquem tem constituição normativapessoas com deficiênciaAnticapacitismo: a capacidade não muda o valor dos interesses
Lookismo (discriminação estética)aparênciaquem está dentro do padrão de belezaquem está foraAntilookismo
Linguismolíngua, sotaquequem fala como o grupo dominantequem fala outra língua ou com outro sotaqueAntilinguismo
Discriminação por tamanho corporalpeso, alturacorpos de certo tamanhocorpos fora do padrãoAntitamanhismo
Reacionarismotemporal, culturalos costumes de certa épocaquem vive de outro modoAbertura à mudança, com exame
Grau 4: Espécie
Especismo / antropocentrismo / carnismoespéciehumanosos demais animaisAntiespecismo / sencientismo
Carbonismo (substratismo)substratomentes biológicasmentes artificiais sencientes, caso existamSencientismo independente de substrato
Ambientalismo antropocêntricoutilidade para humanos, carismahumanos e espécies carismáticas ou úteisas demais espécies e os indivíduos que sofrem nos ecossistemasAmbientalismo antiespecista: proteger a natureza por quem sente nela
Grau 5: Tempo e evidência
Presentismo (geracionismo)temporalquem existe agoraas gerações futurasAtemporalismo / longoprazismo
Inevidencialismoepistêmica, não um grupocrenças e práticas sem evidênciaquem é prejudicado por decisões mal fundamentadasPráticas baseadas em evidências

Os graus vão do indivíduo à espécie e ao tempo. Cada pessoa pode ter um pouco de várias fronteiras, em intensidades diferentes; sistemas sociais inteiros se organizam em torno delas. A última linha, o inevidencialismo, não é um viés de grupo: é uma falha epistêmica, incluída porque decisões sem evidência prejudicam quem é afetado por elas. Veja a lição sobre tribalismo moral.

As cinco dimensões de uma visão moral

Uma visão moral não é só uma teoria. Tem cinco dimensões, e o site cobre cada uma em uma seção.

DimensãoA perguntaAs respostas
PrioridadeQual teoria normativa mais pesaConsequências (utilitarismo, prioritarismo, igualitarismo, suficientismo); regras e deveres (deontologia, kantismo, pluralismo, mandamento divino); caráter (virtudes, cuidado); acordo (contratualismo)
CritérioQuem recebe consideração, e com que pesoHumanos; sencientes (pleno ou gradual); vivos; sistemas naturais; os mais racionais; um grupo humano específico
FonteDe onde vem a moralFontes naturais e seculares (razão, experiência, ciência), ou fontes sobrenaturais (revelação, religião, misticismo). Não confundir com o naturalismo e o não naturalismo da metaética, que são duas formas de realismo
Capacidade de agirQue força o indivíduo tem para realizar o que considera certoConhecimento (pouco, médio, muito) e poder (pouco, médio, muito); a tríade de influência de Cunha acrescenta a motivação
AberturaComo o indivíduo revisa suas visõesAbertura, honestidade e humildade intelectual, testabilidade, coerência, imparcialidade; ou dogmatismo, fechamento, enviesamento e conformismo