Ideias
Critérios éticos
13 posições sobre os critérios da moral: quem recebe consideração direta, com que peso, e se há um padrão comum a todos.
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Egoísmo, relativismo e ceticismo talvez não haja um padrão único
Círculo moral quem recebe consideração direta, e com que peso
Todas
Egoísmo, relativismo e ceticismo talvez não haja um padrão único
Egoísmo ético
Cada pessoa deve agir pelo próprio interesse. Na versão universal, todos devem; na individual, é uma escolha pessoal.
Egoísmo, relativismo e ceticismoRelativismo cultural
Certo e errado dependem das normas de cada cultura; não há padrão para julgar de fora.
Egoísmo, relativismo e ceticismoSubjetivismo (relativismo individual)
Certo e errado dependem do julgamento de cada pessoa.
Egoísmo, relativismo e ceticismoCeticismo normativo
Talvez não exista padrão moral algum a descobrir; juízos morais só expressam atitudes.
Egoísmo, relativismo e ceticismoObjetivismo de Ayn Rand
O egoísmo racional como virtude: a própria vida é o padrão de valor, e o altruísmo é um erro moral.
Círculo moral quem recebe consideração direta, e com que peso
Antropocentrismo
Só humanos contam de forma direta; o resto conta pelo efeito sobre pessoas.
Círculo moralSencientismo
Quem pode sentir dor e prazer conta por si mesmo, seja de que espécie for.
Círculo moralBiocentrismo
Toda vida tem valor inerente, sencientes ou não; humanos não são a referência.
Círculo moralEcocentrismo (holismo ambiental)
Ecossistemas, espécies e a biosfera têm valor por si mesmos, acima dos indivíduos.
Círculo moralGradualismo
Seres sencientes contam, mas o peso dos seus interesses varia com capacidades como inteligência e autoconsciência.
Círculo moralTemporalismo e atemporalismo
O presente pesa mais do que o futuro (temporalismo), ou um sofrimento vale o mesmo em qualquer data (atemporalismo)?
Círculo moralCarbonismo
Só mentes biológicas contam, mesmo que um sistema artificial venha a sentir.
Círculo moralJainismo (ahimsa)
A tradição indiana que levou a não violência mais longe: todo ser vivo tem uma alma (jiva) e sofre; o dever primeiro é não ferir nenhum, em ato, palavra ou pensamento.
As seis delimitações do círculo
Quem tem valor direto, a razão alegada, o que cada delimitação deixa passar e onde é forte ou fraca. As delimitações podem se combinar, e cada pessoa tem graus de cada uma; quando entram em conflito, é preciso decidir qual pesa.
| Egocentrismo | Tribalismo (grupocentrismo) | Antropocentrismo | Senciocentrismo (sencientismo) | Biocentrismo | Ecocentrismo | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Quem tem valor direto | Só o próprio indivíduo tem valor em si | Os indivíduos de grupos específicos têm mais valor | Os humanos têm valor em si; o resto conta pelo efeito sobre humanos | Os seres sencientes têm valor em si | Os seres vivos têm valor em si, sencientes ou não | As entidades naturais (ecossistemas, espécies, a biosfera) têm valor em si, acima dos indivíduos |
| A razão alegada | Cada um é a única perspectiva a que tem acesso, e cuidar de si é o que a natureza premia | Laços, lealdade, semelhança e tradição; o grupo é descrito como naturalmente superior ou como o único que pode ser conhecido de verdade | Pertencer à espécie humana, ou ter capacidades (razão, linguagem) tomadas como exclusivas dela | O que é relevante para receber consideração de forma justa e imparcial é a capacidade de ser prejudicado ou beneficiado, isto é, de sentir | Todo organismo tem um bem próprio: crescer, se manter, se reproduzir. Ter um bem próprio bastaria para contar | A interdependência de tudo o que existe em um ecossistema; a saúde e a estabilidade do todo vêm antes das partes |
| Movimentos derivados | Egoísmo ético, individualismo radical, solipsismo moral | Familiarismo, nacionalismo, etnocentrismo, religiosismo, classismo e as demais fronteiras parciais listadas abaixo | Humanismo em sua forma tradicional (não todo humanismo: muitos humanistas incluem os animais) | Antiespecismo, veganismo ético, biologia do bem-estar, éticas focadas no sofrimento | Reverência pela vida (Schweitzer), biocentrismo igualitário (Taylor), biocentrismo com graus (Attfield) | Ética da terra (Leopold, Callicott), ecologia profunda (Naess), parte do ambientalismo |
| Parcialidades que deixa passar | Todas: qualquer parcialidade serve, desde que favoreça o próprio agente | Sexismo, racismo, homofobia, capacitismo, intolerância religiosa e política, especismo: qualquer exclusão de quem está fora do grupo | Especismo | Nenhuma das anteriores. Em versões parciais, admite graus (gradualismo), desconto do futuro (temporalismo) ou exclusão de mentes artificiais (carbonismo) | Indiferença à senciência: pode sacrificar interesses de quem sente por seres que não sentem, ou tratá-los como equivalentes | Sacrifício de indivíduos sencientes pelo “bem do sistema”: abate de espécies introduzidas, recusa de ajudar animais selvagens, indiferença ao sofrimento “natural” |
| Fins | Proteger e favorecer a si mesmo | Proteger e favorecer grupos específicos | Proteger e favorecer qualquer indivíduo humano | Proteger e favorecer qualquer indivíduo senciente | Proteger e favorecer qualquer ser vivo | Proteger e favorecer qualquer ente natural |
| Pontos fortes | É intuitivo: cada um sente os próprios interesses com mais força do que os dos outros, e conhece melhor as próprias necessidades. | É intuitivo e apela ao que já sentimos: cuidamos mais de quem está perto, e a evolução nos preparou para isso. Deveres especiais com os próximos são reais. | Inclui todos os humanos, o que já foi uma conquista enorme. É confortável e de fácil adesão, porque coincide com o costume e com vieses arraigados. Reconhece capacidades humanas reais. | É o mais coerente diante da razão: usa o critério da relevância, a imparcialidade e o tratamento de interesses semelhantes de forma semelhante. Inclui bebês e pessoas com deficiência sem truques, e explica por que a crueldade com um animal é errada pelo animal. | Leva a sério a vida não humana e rejeita a arrogância da espécie. Reconhece a importância de preservar toda a vida, e tem um apelo real. | Visão holística, que leva em conta a interdependência e a irreversibilidade da destruição ambiental. Fundamenta a conservação e corrige o curto prazo das éticas individualistas. |
| Fraquezas | É arbitrário: a minha dor não é diferente da sua por ser minha. Não resolve conflitos (manda cada um vencer o outro), não pode ser recomendado a ninguém e, levado a sério, não é uma moral, e sim a ausência de uma. | O traço que define o grupo nunca é relevante para o que está em jogo: cor, nação ou religião não mudam a capacidade de sofrer. Permite opressões sistemáticas e já justificou todas as que a história registra. Deveres especiais permitem cuidar mais dos seus; não permitem tratar os outros como se não contassem. | Não usa o que é relevante para a ética, a capacidade de ser prejudicado ou beneficiado. A espécie é um traço biológico como a raça; e as capacidades alegadas (razão, linguagem) faltam a bebês e a pessoas com deficiência grave, que contam, e sobram em muitos animais, que não contam. É o argumento dos casos marginais. | É contraintuitivo e de adesão difícil, porque confronta hábitos e vieses. Precisa saber quem sente, e a ciência ainda tem incerteza sobre invertebrados. Comparar experiências entre espécies é difícil. As implicações práticas são grandes, e a maioria não as segue. | Um ser sem senciência pode ser danificado, mas não se importa com o dano: não há ninguém para quem as coisas vão mal. Pelo critério da relevância, defender entidades não sencientes de forma direta é um erro de categoria, e os sencientes ficam em segundo plano. Biocentristas respondem que ter um bem próprio basta; é o ponto em disputa. | Um ecossistema não sente; os animais que vivem nele, sim. Dar consideração direta ao todo e negá-la a quem sofre dentro dele inverte a ordem da relevância. “Integridade” e “estabilidade” não são estados naturais: ecossistemas mudam, e escolher um estado como o certo é decisão humana. Regan chamou a prioridade do todo de “fascismo ambiental”. |
Quadro editorial do site, a partir das planilhas de delimitações éticas e do critério da relevância: o que importa para contar é poder ser prejudicado ou beneficiado. Biocentristas e ecocentristas contestam esse critério; as páginas de cada posição trazem a defesa deles.
As fronteiras da parcialidade
Raça, espécie, nacionalidade, religião, classe, idade, aparência: cada uma já serviu de critério para decidir quem conta. Todas têm a mesma estrutura: um traço irrelevante para o que está em jogo, tomado como relevante. A coluna da direita diz qual é a posição imparcial correspondente, e ela nunca é a hostilidade ao grupo favorecido: é a consideração igual.
| Viés ou sistema parcial | Critério usado | Favorece | Despreza ou prejudica | A posição imparcial |
|---|---|---|---|---|
| Grau 1: Indivíduo | ||||
| Egoísmo / egocentrismo | existencial | o próprio indivíduo | todos os outros | Imparcialidade: os interesses de cada um contam igual |
| Grau 2: Grupo íntimo | ||||
| Familiarismo | intimidade, sangue, afeto | família, parceiros, amigos, animais de companhia | quem está fora do círculo íntimo | Deveres especiais com limite: cuidar mais dos seus sem tratar os outros como se não contassem |
| Grau 3: Grupo amplo | ||||
| Intolerância política | política | quem tem as mesmas crenças político-econômicas | quem pensa diferente, inclusive de forma democrática | Pluralismo e tolerância política |
| Elitismo / classismo / casteísmo | econômica | quem tem mais poder econômico ou nasceu na casta certa | os mais pobres e os de casta inferior | Igualdade de consideração entre classes; prioridade a quem está pior |
| Intolerância religiosa | religiosa | quem tem a mesma religião | quem tem outra religião ou nenhuma | Liberdade religiosa e laicidade do Estado |
| Nacionalismo / patriotismo excludente | geográfica, cultural | compatriotas | estrangeiros | Cosmopolitismo: o lugar de nascimento não é razão moral |
| Etnocentrismo | etnográfica | quem tem a mesma etnia | outras etnias | Antietnocentrismo |
| Sexismo | biológica | o próprio sexo | o outro sexo | Igualdade entre os sexos |
| Racismo | biológica | a própria raça ou as preferidas | outras raças | Antirracismo |
| Transfobia | identidade de gênero | quem tem identidade de gênero normativa | pessoas trans e não binárias | Respeito à identidade de gênero |
| Homofobia | orientação sexual | quem tem orientação normativa | outras orientações | Respeito à orientação sexual |
| Etarismo | idade | certas faixas etárias | outras idades, em geral idosos e crianças | Antietarismo |
| Capacitismo | capacidade física, cognitiva ou psíquica | quem tem constituição normativa | pessoas com deficiência | Anticapacitismo: a capacidade não muda o valor dos interesses |
| Lookismo (discriminação estética) | aparência | quem está dentro do padrão de beleza | quem está fora | Antilookismo |
| Linguismo | língua, sotaque | quem fala como o grupo dominante | quem fala outra língua ou com outro sotaque | Antilinguismo |
| Discriminação por tamanho corporal | peso, altura | corpos de certo tamanho | corpos fora do padrão | Antitamanhismo |
| Reacionarismo | temporal, cultural | os costumes de certa época | quem vive de outro modo | Abertura à mudança, com exame |
| Grau 4: Espécie | ||||
| Especismo / antropocentrismo / carnismo | espécie | humanos | os demais animais | Antiespecismo / sencientismo |
| Carbonismo (substratismo) | substrato | mentes biológicas | mentes artificiais sencientes, caso existam | Sencientismo independente de substrato |
| Ambientalismo antropocêntrico | utilidade para humanos, carisma | humanos e espécies carismáticas ou úteis | as demais espécies e os indivíduos que sofrem nos ecossistemas | Ambientalismo antiespecista: proteger a natureza por quem sente nela |
| Grau 5: Tempo e evidência | ||||
| Presentismo (geracionismo) | temporal | quem existe agora | as gerações futuras | Atemporalismo / longoprazismo |
| Inevidencialismo | epistêmica, não um grupo | crenças e práticas sem evidência | quem é prejudicado por decisões mal fundamentadas | Práticas baseadas em evidências |
Os graus vão do indivíduo à espécie e ao tempo. Cada pessoa pode ter um pouco de várias fronteiras, em intensidades diferentes; sistemas sociais inteiros se organizam em torno delas. A última linha, o inevidencialismo, não é um viés de grupo: é uma falha epistêmica, incluída porque decisões sem evidência prejudicam quem é afetado por elas. Veja a lição sobre tribalismo moral.
As cinco dimensões de uma visão moral
Uma visão moral não é só uma teoria. Tem cinco dimensões, e o site cobre cada uma em uma seção.
| Dimensão | A pergunta | As respostas |
|---|---|---|
| Prioridade | Qual teoria normativa mais pesa | Consequências (utilitarismo, prioritarismo, igualitarismo, suficientismo); regras e deveres (deontologia, kantismo, pluralismo, mandamento divino); caráter (virtudes, cuidado); acordo (contratualismo) |
| Critério | Quem recebe consideração, e com que peso | Humanos; sencientes (pleno ou gradual); vivos; sistemas naturais; os mais racionais; um grupo humano específico |
| Fonte | De onde vem a moral | Fontes naturais e seculares (razão, experiência, ciência), ou fontes sobrenaturais (revelação, religião, misticismo). Não confundir com o naturalismo e o não naturalismo da metaética, que são duas formas de realismo |
| Capacidade de agir | Que força o indivíduo tem para realizar o que considera certo | Conhecimento (pouco, médio, muito) e poder (pouco, médio, muito); a tríade de influência de Cunha acrescenta a motivação |
| Abertura | Como o indivíduo revisa suas visões | Abertura, honestidade e humildade intelectual, testabilidade, coerência, imparcialidade; ou dogmatismo, fechamento, enviesamento e conformismo |