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Intermediário / Mente e moral

Tribalismo moral: os eixos em que privilegiamos os nossos

Mesmo quem busca imparcialidade mantém preferências por grupo. Nação, raça, sexo, religião, classe, espécie: dezesseis eixos para examinar.

IntermediárioMente e viesesCírculo moral3 min de leitura

Tribalismo moral é dar mais peso aos interesses de quem pertence ao seu grupo, só por pertencer. Ele é natural, foi útil na história da espécie, e é a fonte mais constante de injustiça. O primeiro passo para controlá-lo é saber em quais eixos ele atua.

Uma analogia

Em um jogo, a torcida vê falta quando é o time dela que sofre, e “lance normal” quando é o adversário. Isso acontece sem ninguém perceber. O tribalismo moral é a torcida dentro da cabeça: ela defende os nossos em cada eixo, nação, grupo, espécie, e chama isso de justiça.

Explicando para uma criança

É natural gostar mais dos amigos do seu time. O problema é quando alguém do outro time cai e você finge que não viu, ou acha que a dor dele importa menos. A dor dele é igual à do seu amigo, só o time é diferente.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar o que é tribalismo moral e por que persiste mesmo em quem busca imparcialidade.
  • Reconhecer os dezesseis eixos e o mecanismo comum a todos.
  • Aplicar o teste de troca a uma preferência própria.

Ajuda ter lido: Imparcialidade: a regra de ouro, o véu e a universalidade, Vieses que distorcem o julgamento moral.

Antes de ler: o que você faria?

Um ataque mata cem pessoas no seu país e abre os jornais por semanas; outro mata mil em um país distante e ocupa um parágrafo.

A diferença de atenção corresponde a uma diferença moral? Qual é o traço que está decidindo?

Ver o que a lição responde

A nacionalidade, que não muda o sofrimento de ninguém. É o tribalismo mais respeitável, e a lição o põe ao lado dos outros quinze eixos, com o mesmo mecanismo: um traço irrelevante tomado como relevante.

O ponto de partida

Antes de qualquer grupo, há o eu. O egoísmo moral dá prioridade absoluta a si mesmo. O tribalismo familiar estende a prioridade ao círculo íntimo. Quase todo mundo dá algum peso extra a si e aos seus, e isso não é necessariamente um erro: cuidar bem de quem depende de você é parte da moral. O erro começa quando o peso extra vira indiferença ao resto.

Os dezesseis eixos

O Teste de Visão Moral mapeia dezesseis dimensões em que podemos manter preferências de grupo, mesmo buscando imparcialidade:

Alguns desses eixos são reconhecidos como preconceito quase por todos hoje: raça, sexo, religião. Outros ainda passam despercebidos: peso corporal, sotaque, idade. E dois são aceitos abertamente pela maioria: nação e espécie. A pergunta de coerência é a mesma para todos: que diferença relevante justifica dar menos peso a quem está do outro lado desse eixo?

O mesmo mecanismo em cada eixo

EtapaComo funciona
CategorizarA mente divide o mundo em “nós” e “eles” em segundos, por qualquer traço
FavorecerOs “nossos” recebem empatia, benefício da dúvida e recursos
JustificarInventamos uma diferença relevante: “eles são menos racionais, menos sensíveis, menos limpos”
NaturalizarA exclusão vira costume, e o costume vira “natureza”

A história do racismo, do sexismo e da homofobia segue essas etapas. As justificativas (“não sentem como nós”, “não têm a mesma razão”) são impressionantemente parecidas com as usadas hoje para a espécie. Isso não prova que a espécie seja um eixo igual aos outros, mas obriga quem a defende a mostrar a diferença.

Nação: o tribalismo respeitável

Dar prioridade aos compatriotas é visto como dever cívico, não como preconceito. Há razões para alguma prioridade: instituições compartilhadas, deveres recíprocos. Mas o lugar de nascimento é a maior loteria da vida, e ninguém o escolheu. Uma criança que morre de doença evitável do outro lado da fronteira não sofre menos por estar do outro lado. O filósofo Peter Singer pergunta: se a distância e a nacionalidade não mudam o valor de uma vida, o que justifica o peso que damos a elas?

O que fazer com isso

  • Nomear o eixo: “estou dando menos peso a esta pessoa por qual traço?”
  • Pedir a diferença relevante: se a resposta é “porque é diferente”, não é uma razão.
  • Testar a troca: o mesmo ato, com o autor do outro grupo. Veja o teste de troca.
  • Aceitar deveres especiais sem indiferença: cuidar mais dos seus é legítimo. Tratar os outros como se não contassem, não.

Para guardar

  • Tribalismo moral é descontar quem está fora do grupo por um traço irrelevante; persiste mesmo em quem busca imparcialidade.
  • Dezesseis eixos, o mesmo mecanismo; a nação é o tribalismo que ainda é respeitável.
  • O teste de troca pergunta se o veredito muda com o grupo e não com o ato.

Para pensar

Em qual dos dezesseis eixos você se pega descontando o sofrimento de alguém? Aplique o teste de troca a um caso recente.

Erro comum: “Preferir os seus é natural, logo não é tribalismo.” É natural e é tribalismo: o natural descreve, não justifica. A preferência legítima pelos próximos (deveres especiais) é diferente de descontar o sofrimento de quem está fora do grupo.
Pratique: Teste de troca. Você julgaria o mesmo ato se o autor fosse do outro grupo?
Teorias desta lição: Egoísmo ético, Antropocentrismo.
Dilemas para testar: A criança no lago.

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