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Imparcialidade: a regra de ouro, o véu e a universalidade

Três testes para saber se você defende um princípio ou só o seu lado. Eles não dão a resposta final, mas eliminam as respostas ruins.

InicianteCírculo moralFundamentos3 min de leitura

Quase todo mundo acha a própria visão justa. A imparcialidade é o conjunto de testes para descobrir se ela é mesmo, ou se só favorece você e os seus. A ideia é antiga e aparece em quase todas as tradições.

Uma analogia

Um juiz que apita o jogo do próprio filho, mesmo com boa intenção, tende a ver as faltas a favor dele. Por isso buscamos juízes de fora. Os testes de imparcialidade tentam fazer isso dentro da nossa cabeça: tirar a camisa do time por um instante, para ver se a regra continua justa.

Explicando para uma criança

Sabe o truque para dividir um bolo de forma justa? Uma pessoa corta e a outra escolhe primeiro. Assim, quem corta tenta fazer pedaços iguais. E antes de fazer algo com um colega, você pode perguntar: eu ia gostar se fizessem isso comigo?

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Aplicar a regra de ouro, o véu da ignorância e o teste da universalidade a um caso.
  • Explicar por que os três testes empurram o círculo para fora.
  • Reconhecer os limites: os testes eliminam respostas ruins, não escolhem a melhor.

Ajuda ter lido: O círculo moral: quem conta e por quê.

Antes de ler: o que você faria?

Um político defende que imigrantes não tenham acesso ao sistema de saúde público.

Aplique o véu da ignorância: sem saber se você nasceria aqui ou lá, aceitaria a regra? E a regra de ouro?

Ver o que a lição responde

Sob o véu, a regra fica difícil de aceitar, porque você poderia ser o imigrante. Os testes não decidem a política inteira, mas mostram que a posição depende de saber de que lado se está. É o que a lição chama de testar um princípio contra o próprio lado.

A regra de ouro

“Trate os outros como gostaria de ser tratado.” Aparece no confucionismo, no judaísmo, no cristianismo, no islamismo, no hinduísmo e no budismo, com variações. Na forma negativa: não faça aos outros o que não quer para si. Na positiva: faça aos outros o que quer para si.

O limite: nem todos querem as mesmas coisas. Por isso, uma versão melhor pergunta o que aquela pessoa tem razão para querer, e não só o que você quereria no lugar dela.

O véu da ignorância

John Rawls propôs imaginar que escolhemos as regras da sociedade sem saber quem seremos nela: rico ou pobre, saudável ou doente, da maioria ou da minoria. O véu retira da conta tudo o que só favorece você. Quem sabe que é rico pode achar a desigualdade natural; sem saber, tende a querer proteções para quem estiver pior.

Mark Rowlands estendeu o véu: e se você também não soubesse a sua espécie? Se poderia nascer frango em uma granja industrial, que regras aceitaria para a criação de animais? Veja o contratualismo estendido.

A universalidade

Kant perguntou se você poderia querer que a regra da sua ação valesse para todos. R. M. Hare e Peter Singer defendem que julgar moralmente é, por definição, sair do próprio ponto de vista. Uma regra que só funciona quando você está do lado vencedor não é uma regra moral, é uma vantagem disfarçada.

Falha de universalidadeO teste
“Mentir é errado”, mas as minhas mentiras são “necessárias”Eu aceitaria a mesma desculpa de outra pessoa?
“Quem sofre importa”, só se for do meu grupoO que justifica a diferença, além de ser do meu grupo?
“Liberdade de expressão”, só para quem concordaEu defenderia esse direito para quem me critica?
“Crueldade é inaceitável”, exceto a que está no meu pratoO que muda quando a vítima é de outra espécie?

Por que a imparcialidade empurra o círculo

Os três testes dizem a mesma coisa de formas diferentes: casos iguais pedem tratamento igual, a menos que haja uma diferença relevante. É esse princípio que explica a expansão do círculo moral. Cada vez que uma diferença tratada como importante (cor, sexo, origem) se mostrou irrelevante para o que estava em jogo, a exclusão caiu. A pergunta aberta é quais diferenças ainda tratamos como relevantes sem que sejam.

Os limites dos testes

  • Não eliminam os valores: duas pessoas podem passar pelo véu e escolher diferente, conforme o quanto temem o risco.
  • Deveres especiais existem: cuidar mais dos próprios filhos não viola a imparcialidade, desde que não se trate os outros como se não contassem.
  • Passar no teste não prova que está certo: os testes eliminam visões ruins com mais facilidade do que confirmam as boas.
  • Viés continua: dá para usar o teste só para confirmar o que já se pensava. Veja vieses morais.

Para guardar

  • Regra de ouro, véu da ignorância e universalidade são três testes para saber se você defende um princípio ou só o seu lado.
  • Os testes empurram o círculo para fora: o que torna um lugar ruim é o sofrimento, não a espécie.
  • Eles eliminam princípios parciais, mas não escolhem entre princípios imparciais rivais.

Para pensar

Pegue uma posição sua sobre um grupo a que você não pertence. Sob o véu da ignorância, sem saber se nasceria nesse grupo, você a manteria?

Erro comum: “Imparcialidade é tratar todo mundo igual.” Imparcialidade é dar consideração igual a interesses iguais, o que muitas vezes exige tratamento diferente: a criança e o adulto, o doente e o são. O que ela proíbe é descontar alguém por quem ele é.
Pratique: Simulador do véu da ignorância. Escolha as regras de uma sociedade sem saber quem você será nela. Depois, descubra.
Dilemas para testar: O véu da ignorância.

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