Debates / Vida pessoal e relações
Homossexualidade
Há algo moralmente errado em relações entre pessoas do mesmo sexo? A filosofia respondeu que não, e vale ver por quê, e o que ainda é devido.
Relações entre pessoas do mesmo sexo foram criminalizadas em quase todo o mundo até a segunda metade do século XX, e ainda são em dezenas de países. A pergunta ética tem duas partes: há erro na relação em si? E o que a sociedade deve a quem a vive?
Antes de ler: para que lado você pende?
As perspectivas
Não há erro na relação
- O teste básico: há alguém prejudicado? Entre adultos consentindo, não. Toda objeção precisa apontar uma vítima, e nenhuma apontou.
- “Não é natural”: é a falácia naturalista; e o comportamento homossexual é observado em centenas de espécies, o que torna o argumento falso além de inválido.
- “Não gera filhos”: casais inférteis e pessoas que escolhem não ter filhos não são condenados por isso; o critério, aplicado com coerência, condenaria metade da humanidade.
- A tradição e o nojo: toda discriminação se apoiou neles, e a imparcialidade pergunta qual diferença relevante existe entre um casal e outro. Não há.
- Despatologização: a psiquiatria retirou a homossexualidade da lista de transtornos em 1973 (APA) e 1990 (OMS), por falta de evidência de disfunção.
As objeções restantes, e seus limites
- Objeções religiosas: valem para quem partilha a fé, e mesmo entre crentes há leituras que as rejeitam; não podem fundar leis em sociedades plurais. Veja ética e religião.
- Objeções de lei natural: dependem de definir a sexualidade pela procriação, o que a própria tradição não sustenta com coerência.
- Preocupações com crianças em famílias homoparentais: décadas de estudos não encontram prejuízo; o dano que existe vem do preconceito externo.
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
O que cada teoria tende a dizer
| Utilitarismo clássico | Sem dano a ninguém e com bem-estar para os envolvidos: nada a objetar; a proibição é que causa sofrimento. |
|---|---|
| Deontologia kantiana | Kant pessoalmente condenou; kantianos de hoje notam que nenhuma pessoa é usada como meio, e a máxima é universalizável. |
| Ética da lei natural | A tradição condenou por ligar sexo a procriação; críticos internos e externos mostram a incoerência. |
| Ética das virtudes | O que importa é amor, fidelidade e cuidado, e eles não têm sexo. |
| Contratualismo rawlsiano | Sob o véu, sem saber a própria orientação, ninguém aceitaria a discriminação. |
Por que é complexo
- O que resta de debate não é sobre a moral da relação, e sim sobre deveres: reconhecimento legal igual, proteção contra violência, e o conflito entre liberdade religiosa e não discriminação em serviços públicos.
- Terapias de “conversão” causam dano documentado e são proibidas em vários países, inclusive pelo conselho de psicologia no Brasil.
- A orientação sexual é um dos eixos das fronteiras da parcialidade; o argumento contra a homofobia é o mesmo contra o racismo: um traço irrelevante tomado como relevante.
Onde a razão pesa
Há consenso filosófico: não há nada moralmente errado em relações entre adultos do mesmo sexo, porque não há vítima, e todas as objeções apresentadas falham no teste da diferença relevante ou são falácias naturalistas. O que é devido a pessoas homossexuais é o que é devido a qualquer pessoa: igual consideração, igual reconhecimento legal e proteção contra o dano que o preconceito causa.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.
E agora, depois de ler?
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
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