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Debates / Vida pessoal e relações

Mentir é sempre errado?

Da mentira branca à mentira que salva vidas: Kant disse que nunca; quase todo mundo discorda. Onde fica a linha?

Mentir é afirmar o que se acredita falso com a intenção de enganar. Todas as tradições a condenam, e todas as pessoas mentem, em geral por pequenas coisas. A pergunta é se há mentiras permitidas, e o que as distingue.

Antes de ler: para que lado você pende?

As perspectivas

Contra toda mentira

  • Kant: mentir trata o outro como alguém que não merece decidir com a verdade; a máxima não é universalizável, porque se todos mentissem a mentira não funcionaria.
  • Confiança é um bem público: cada mentira, mesmo pequena, gasta um pouco dela, e a soma é um mundo em que ninguém acredita em ninguém.
  • Quem se permite mentiras “boas” rapidamente passa a achar boas as mentiras que lhe convêm.

A favor de exceções

  • Mentir ao assassino que pergunta onde está a vítima: quase ninguém aceita a resposta de Kant. Há casos em que a verdade é cumplicidade.
  • A mentira branca que poupa um sentimento sem prejudicar ninguém tem custo quase nulo e benefício real; a honestidade brutal não é virtude.
  • Deontologistas pluralistas: a veracidade é um dever prima facie, que cede diante de deveres mais fortes.
  • Para as virtudes, a pessoa honesta não é a que despeja verdades, e sim a que encontra o jeito verdadeiro e gentil de falar.

Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.

O que cada teoria tende a dizer

Deontologia kantianaNunca: a mentira viola o dever de veracidade e a dignidade do outro.
Deontologia pluralista (deveres prima facie)Dever prima facie de veracidade, que cede a deveres mais fortes.
Utilitarismo clássicoDepende das consequências, inclusive do efeito sobre a confiança geral.
Ética das virtudesA honestidade é uma virtude; a crueldade com a verdade, um vício.
Consequencialismo de regrasA regra “não minta” produz mais bem do que “minta quando convier”; exceções só para casos extremos.

Por que é complexo

Onde a razão pesa

A razão pesa para um lado, com ressalvas

Quase todos os filósofos rejeitam o absolutismo kantiano: há mentiras permitidas, e a do assassino é o caso claro. Mas a defesa da mentira branca é mais fraca do que parece, porque o hábito corrói a confiança e porque quase sempre há uma verdade gentil disponível. A regra prática que sobrevive: mentir só quando a verdade causaria dano sério a quem não merece, e nunca por conveniência própria.

Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.

E agora, depois de ler?

Perguntas para pensar

  1. Qual parte é fato, e qual é valor?
  2. Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
  3. Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
  4. O que me faria mudar de ideia?

Lições relacionadas: Kant e o imperativo categórico, Intenção e previsão: o duplo efeito e os deveres prima facie, Dilemas do cotidiano: mentiras, promessas e consumo.