Durante a maior parte da história, a maioria das pessoas achou normal que alguns humanos não contassem: escravizados, mulheres, estrangeiros, pessoas de outra religião. O círculo de quem merece consideração se ampliou aos poucos. Peter Singer chamou esse movimento de expansão do círculo moral.
Uma analogia
Pense em uma pedra jogada em um lago: os círculos vão se abrindo. Primeiro a família, depois a tribo, a cidade, o país, a humanidade. A cada volta, alguém que estava fora descobriu que a razão para excluí-lo não valia. O lago ainda não terminou de ondular.
Explicando para uma criança
Antigamente, na brincadeira, só alguns podiam jogar. Um dia a turma percebeu que isso era injusto e deixou todo mundo entrar. Depois percebeu que as crianças da outra rua também queriam jogar. Incluir quem ficava de fora é assim que o mundo melhora.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Descrever, em linhas gerais, como o círculo cresceu na história.
- Explicar o mecanismo da expansão: aplicar com coerência um princípio já aceito.
- Avaliar se a expansão é progresso ou só mudança de costume.
Ajuda ter lido: O círculo moral: quem conta e por quê.
Antes de ler: o que você faria?
Em 1800, dizer que mulheres deveriam votar soava absurdo para quase todos, inclusive para muitas mulheres.
O que mudou entre 1800 e 1930 não foi a biologia das mulheres. O que foi? E o que isso sugere sobre as fronteiras de hoje?
Ver o que a lição responde
Mudou a percepção de que o traço usado para excluir (o sexo) era irrelevante para o que estava em jogo (o direito de decidir sobre a própria vida). A lição mostra o padrão: cada expansão foi uma coerência que faltava, e pergunta onde ele ainda falta.
Uma linha do tempo resumida
| Quem ficava de fora | A razão alegada | O que mudou |
|---|---|---|
| Escravizados | Origem, cor, “natureza inferior” | Abolição no Brasil em 1888, última das Américas |
| Mulheres | Sexo, “emoção demais, razão de menos” | Voto feminino no Brasil em 1932 |
| Pessoas de outra religião | “Infiéis” | Liberdade religiosa como direito |
| Pessoas LGBT | “Antinatural”, “doença” | Despatologização; união reconhecida no Brasil em 2011 |
| Crianças | “Propriedade dos pais” | Direitos da criança; fim do castigo físico legal em muitos países |
| Estrangeiros | Lugar de nascimento | Direitos humanos universais, em teoria; na prática, ainda em disputa |
| Animais | Espécie | Leis contra crueldade; reconhecimento da senciência em várias legislações. Em disputa |
O motor da expansão
O que empurra o círculo para fora não é só sentimento. É um argumento de coerência: tratar casos iguais de forma igual, a menos que haja uma diferença relevante. Cada exclusão se apoiava em uma diferença, e a diferença se mostrou irrelevante para o que estava em jogo. A cor da pele não muda a capacidade de sofrer; o sexo não muda a capacidade de decidir. Quase todo avanço moral foi descobrir que uma diferença tratada como importante não era.
Houve outros motores: convivência (conhecer “o outro” desfaz estereótipos), ativismo (quase toda conquista teve quem pagasse caro por ela), ciência (saber quem sente e o que sente) e prosperidade (com menos medo, é mais fácil incluir).
Isso é progresso ou só mudança?
Se cada época só julga pelos próprios valores, “progresso” seria o nome que damos à nossa opinião. Mas há um teste melhor: a mudança corrigiu uma incoerência? Defender a liberdade e manter escravizados era contradição. Dizer que a dor importa e ignorar a dor das mulheres era contradição. Por isso dá para falar em progresso, e não só em moda. Veja progresso moral no Avançado.
O círculo não cresce sozinho
Ele também encolhe. A Alemanha de Weimar virou o nazismo em poucos anos, e grupos antes incluídos foram expulsos do círculo. Genocídios começam quando um grupo é descrito como menos humano. Por isso, a expansão não é uma lei da história, e sim um trabalho que cada geração faz ou desfaz.
Quem está na fronteira hoje
- Animais: bilhões vivem e morrem em criação industrial. Ver ética animal na prática.
- Gerações futuras: quem ainda não nasceu não vota, e sofre as consequências do que decidimos. Ver gerações futuras.
- Pessoas distantes: a distância ainda pesa mais do que deveria. Ver a criança no lago.
- Mentes artificiais: se vierem a sentir, a pergunta se coloca. Ver mentes artificiais.
Para guardar
- Escravizados, mulheres, estrangeiros e outros grupos já ficaram fora de quem conta; o círculo cresceu por conflito e argumento, não por tempo.
- O motor da expansão é mostrar que o traço usado para excluir é irrelevante para o que está em jogo.
- Cada expansão corrigiu uma incoerência entre o que a sociedade dizia valer e o que praticava.
Para pensar
Que exclusão de hoje seus netos vão achar difícil de entender? Que princípio que você já aceita, aplicado com coerência, a alcançaria?
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