Escravidão legal, mulheres sem voto e tortura como espetáculo público já foram normais. Hoje, a maioria considera tudo isso errado. Isso é progresso, no sentido de ter chegado mais perto da verdade moral? Ou só mudança, como a moda? A resposta depende da metaética, mas há critérios que servem em quase qualquer posição.
Uma analogia
Pense em uma trilha na montanha. O progresso moral é entender melhor para onde vale a pena ir, e a trilha não sobe sempre: há descidas, e uma ponte pode cair se ninguém cuidar dela. Saber se avançamos exige um mapa que não seja só a nossa opinião de hoje.
Explicando para uma criança
Antes, só alguns podiam jogar na brincadeira. Um dia a turma percebeu que isso era injusto. Isso é progresso. Mas, se ninguém cuidar da regra nova, os mais fortes podem voltar a mandar. Melhorar é um trabalho que não acaba.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Formular o problema: progresso ou só mudança de costume?
- Aplicar critérios de progresso (coerência, inclusão, evidência).
- Dizer por que nada é garantido e o que isso pede.
Ajuda ter lido: A expansão do círculo moral na história.
Antes de ler: o que você faria?
Em 200 anos, a escravidão legal acabou, as mulheres votam e a tortura pública desapareceu. Um cético diz: “mudaram os costumes, só isso”.
Há um critério que distinga progresso de moda? Qual?
Ver o que a lição responde
Coerência (aplicar a todos o princípio que já se aceitava), inclusão (quem ficava fora passa a contar) e evidência (menos crenças falsas sobre os excluídos). A lição propõe esses critérios e alerta que o progresso não é automático.
O problema
Se julgamos o passado pelos nossos valores, é claro que parecemos melhores: estamos usando a régua que nos favorece. Um escravocrata do século XVIII também achava que vivia o ponto alto da civilização. Para falar em progresso sem circularidade, precisamos de um critério que não seja só “o que achamos hoje”.
Critérios que servem
- Coerência: a mudança corrigiu uma contradição? “Todos nascem iguais” mais escravidão era uma contradição. Resolvê-la é progresso por qualquer régua que aceite a lógica.
- Informação: a mudança veio de saber mais sobre quem é afetado? Descobrir que mulheres raciocinam tão bem quanto homens, que animais sentem dor, que a homossexualidade não é doença, mudou juízos sem mudar valores básicos.
- Imparcialidade: a nova regra seria aceita por quem está dos dois lados dela? A velha, não?
- Menos sofrimento: há menos dor e morte evitáveis? É um critério que quase toda teoria aceita como relevante, mesmo que não como único.
- Melhores razões: a mudança se apoiou em argumentos que sobrevivem ao exame, ou em força e preconceito?
Allen Buchanan e Russell Powell, em A Evolução do Progresso Moral (2018), propõem pensar o progresso em tipos específicos (inclusão de novos grupos, melhor compreensão de conceitos morais, redução de crenças falsas que sustentavam práticas) em vez de uma única linha ascendente. Isso permite reconhecer progresso aqui e regresso ali, sem uma narrativa triunfal.
A principal forma: incluir quem ficava de fora
Quase todo progresso moral reconhecido foi uma expansão do círculo: descobrir que uma diferença tratada como relevante não era. Isso dá uma direção: a pergunta “quem ainda está de fora por uma diferença irrelevante?” é um bom detector de onde o próximo progresso pode estar.
Nada é garantido
- O círculo encolhe: a Alemanha de Weimar se tornou o nazismo em poucos anos. Ruanda em 1994 e a Bósnia nos anos 1990 mostram que grupos incluídos podem ser expulsos do círculo com rapidez.
- Progresso de fachada: leis mudam sem que a prática mude. A escravidão foi abolida e cerca de 50 milhões de pessoas vivem em formas modernas dela, segundo a OIT.
- Pontos cegos imensos: condenamos a crueldade e mantemos bilhões de animais em condições que, descritas sem a palavra “comida”, chamaríamos de tortura. Progresso convive com cegueira.
- Falso progresso: regimes do século XX mataram milhões em nome do “homem novo”, e o colonialismo se chamou “civilizar”. Nem tudo que se anuncia como avanço é.
Humildade com o passado e com o presente
Se nossos avós erraram em coisas que lhes pareciam óbvias, é quase certo que nós também. A pergunta útil não é “como eles puderam?”, e sim “o que estamos fazendo que o futuro verá assim?”. Candidatos frequentes: o tratamento dos animais, a indiferença à pobreza extrema, o descaso com as gerações futuras. Nenhum deles exige valores novos. Exige aplicar os que já temos a quem ainda não aplicamos.
Para guardar
- Progresso se distingue de moda por coerência, inclusão e evidência.
- A principal forma de progresso é incluir quem ficava fora do círculo.
- Nada é garantido: houve retrocessos longos, e o progresso acontece onde pessoas o fazem.
Para pensar
Qual avanço moral dos últimos cem anos você acha mais frágil hoje? O que o sustentaria, e o que você pode fazer por isso?
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