A ética supõe que há pessoas que persistem no tempo: a que promete é a que deve cumprir, a que cometeu o crime é a que é punida, a que poupa hoje é a que gasta amanhã. Derek Parfit perguntou o que faz uma pessoa de hoje ser a mesma de amanhã, concluiu que a resposta é menos sólida do que parece, e mostrou que isso muda a ética.
Uma analogia
Um rio é o mesmo rio de ontem? A água é outra, o leito mudou um pouco, mas há continuidade. Parfit diz que somos assim: não há um “eu” fixo por baixo, só a continuidade. E se o seu eu de daqui a cinquenta anos é só alguém muito ligado a você, cuidar dele se parece com cuidar de outra pessoa.
Explicando para uma criança
Você vai ser uma pessoa bem diferente quando for velho: vai lembrar pouco de agora e gostar de outras coisas. Cuidar desse “você do futuro” é um pouco como cuidar de outra pessoa. Por isso, ser bom com os outros e ser bom consigo mesmo são parecidos.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Explicar a tese de Parfit: o que importa é a continuidade psicológica, não a identidade.
- Derivar as três consequências: prudência, separação das pessoas, punição e diretivas.
- Avaliar a crítica de Korsgaard e o paralelo budista.
Ajuda ter lido: Ética populacional e a conclusão repugnante, Egoísmo, relativismo e ceticismo: há um padrão?.
Antes de ler: o que você faria?
Um teletransporte copia você em Marte e destrói o original. A cópia tem suas memórias e planos.
A cópia é você? Se não há resposta profunda, o que importa foi preservado? E o que muda na ética se a resposta é sim?
Ver o que a lição responde
Parfit diz que a Relação R está preservada e é o que importa; a identidade é uma questão vazia. A lição extrai as consequências: o egoísmo perde o chão e a prudência vira moral.
O que importa não é a identidade
Imagine um teletransporte que copia cada célula sua em Marte e destrói o original. A cópia acorda com suas memórias, seu caráter e suas intenções. É você? Parfit diz que a pergunta não tem resposta profunda, e não precisa ter: o que importa é a continuidade psicológica (a Relação R, memória, intenção, caráter, com qualquer causa), e ela está preservada. Se um dia a máquina produzir duas cópias, nenhuma será “você” mais do que a outra, e nada do que importa se perdeu. Somos como nações ou clubes: existimos, mas não há um fato extra, uma alma ou um eu cartesiano, além da sequência ligada de experiências.
Três consequências morais
A prudência deixa de ser especial. Se o meu eu de daqui a quarenta anos é alguém ligado a mim por laços fracos, a razão para me sacrificar por ele é parecida com a razão para me sacrificar por outra pessoa. O egoísmo racional, que diz “cuide de si no longo prazo e não dos outros”, perde a linha que o separava da moral: ou a prudência é um dever moral para com uma pessoa futura, ou não é um dever de todo. Sidgwick já via o problema; Parfit o tornou agudo.
A separação das pessoas pesa menos. Rawls e Nozick objetaram ao utilitarismo que ele soma o bem de pessoas diferentes como se fossem uma, ignorando que cada vida é de alguém. Parfit respondeu: se a fronteira entre pessoas é menos profunda do que pensamos, somar entre pessoas é menos escandaloso do que parece, e a objeção fica mais fraca. Essa é uma das razões de ele ter levado a sério o problema da conclusão repugnante.
Punição, promessa e diretivas antecipadas. O homem de oitenta anos que não lembra o crime dos vinte, e cujo caráter mudou inteiramente, está ligado ao criminoso por laços tênues: a punição retributiva perde força à medida que a conexão enfraquece. O mesmo vale para a pessoa com demência que, lúcida, pediu que não a mantivessem viva, e que agora, sem lembrar, parece contente: Ronald Dworkin defende respeitar a pessoa anterior (seus interesses críticos); Rebecca Dresser, a atual (seus interesses de experiência). A resposta depende de quanto as duas são a mesma.
Paralelos e críticas
Parfit notou que sua conclusão é a do Buda: não há um eu permanente (anatta), e aceitar isso dissolve parte do medo da morte e do apego. Críticos (Korsgaard, Schechtman) respondem que a unidade da pessoa não é um fato a descobrir, e sim algo que fazemos ao agir e ao narrar a própria vida: a identidade prática é construída, e por isso é tão real quanto precisa ser para a ética. O debate continua, mas um efeito ficou: a pergunta “por que me importar com os outros?” e a pergunta “por que me importar com meu futuro?” passaram a ser parentes próximas.
Para guardar
- Parfit: o que importa é a continuidade psicológica, não a identidade; a pergunta “é você?” pode ser vazia.
- Se o eu futuro é alguém ligado a mim por laços fracos, a prudência se parece com a moral e o egoísmo perde o chão.
- Punição, promessas e diretivas antecipadas dependem de quanto a pessoa de agora é a de antes.
Para pensar
Quanto você se sente a mesma pessoa de dez anos atrás? Se o seu eu de daqui a trinta anos é quase outro, por que cuidar dele mais do que de um estranho?
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