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Avançado / Metaética

Motivação moral: saber o que é certo move a agir?

Internalismo e externalismo, a teoria humeana da motivação, o amoralista e as razões internas de Williams: o que liga o juízo moral à ação.

AvançadoMetaéticaMente e vieses3 min de leitura

Alguém diz, com sinceridade, que doar é a coisa certa a fazer, e não doa. Alguém diz que comer animais é errado, e come. O que se passa? A pergunta parece de psicologia, mas é de metaética: o que é um juízo moral depende de ele mover ou não quem o faz.

Uma analogia

Saber que exercício faz bem não faz ninguém sair do sofá; o que faz é querer, ter o hábito, ter alguém esperando na academia. O juízo moral é como o saber: precisa de pontes para virar ação. A filosofia discute se o saber já traz um pouco do querer, ou se são coisas separadas.

Explicando para uma criança

Às vezes você sabe que devia dividir o lanche, mas não tem vontade. Saber o que é certo e querer fazer o certo são coisas diferentes, e aprender a ligar as duas é parte de crescer.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir internalismo e externalismo do juízo moral.
  • Explicar a teoria humeana da motivação e o “problema moral” de Smith.
  • Reconstruir a tese das razões internas de Williams e as respostas.

Ajuda ter lido: Antirrealismo moral: erro, emotivismo e quase-realismo, Fraqueza de vontade: saber o que é certo e não fazer.

Antes de ler: o que você faria?

Alguém diz, com sinceridade, que doar é a coisa certa e não doa; diz que comer animais é errado e come.

Essa pessoa de fato julga o que diz? O que está faltando: a crença, o desejo, ou a ponte entre os dois?

Ver o que a lição responde

Para o internalista, julgar traz alguma motivação, e falhar totalmente é não ter julgado; para o externalista, juízo e motivação são separados. A lição apresenta a disputa e o que a psicologia acrescenta.

Internalismo e externalismo

O internalismo do juízo diz que julgar sinceramente que algo é certo implica alguma motivação para fazê-lo: quem não sente nenhum puxão não julgou de verdade, só repetiu palavras. O externalismo diz que o juízo e a motivação são coisas separadas: pode-se saber que algo é certo e não se importar; a motivação vem de um desejo adicional (de ser bom, de evitar culpa) que nem todos têm. O caso de teste é o amoralista: alguém que entende os juízos morais, os faz com competência e é indiferente a eles. O internalista diz que ele não entende de fato; o externalista diz que ele existe, e que o psicopata é a prova.

A teoria humeana

Hume defendeu que crenças sozinhas não movem: o que move é o desejo, e a razão só mostra os meios. Se isso é verdade e o internalismo também é, então o juízo moral tem de ser, ele mesmo, um estado de desejo ou sentimento, e não uma crença: é o caminho para o expressivismo. Michael Smith chamou isso de “o problema moral”: três teses plausíveis (os juízos morais são crenças sobre fatos; julgar move a agir; só desejos movem) que não cabem juntas. Cada metaética sacrifica uma: o realista rejeita o internalismo ou a psicologia humeana; o expressivista rejeita que juízos sejam crenças.

Razões internas e externas

Bernard Williams levou a questão às razões: dizer que alguém tem razão para agir só faz sentido se a ação se liga, por deliberação sadia, a algo que a pessoa já quer (seu “conjunto motivacional”). Razões externas, que valeriam para qualquer um independentemente do que quer, seriam vazias: dizer ao marido cruel que ele tem razão para tratar bem a esposa, quando nada nele se liga a isso, é só repreendê-lo. Korsgaard respondeu que a racionalidade prática pode criar motivos onde não havia; McDowell, que o conjunto motivacional de uma pessoa virtuosa é diferente porque ela vê o mundo de outro modo. A disputa decide se a moral obriga todos (Kant) ou só quem já tem algo pelo que se importar (Hume).

O que a psicologia acrescenta

A pesquisa sobre emoções morais e sobre fraqueza de vontade mostra que juízo e ação se ligam por caminhos fracos e interrompíveis: a culpa antecipada, a empatia, o hábito, a identidade (“não sou o tipo de pessoa que faz isso”). Quando essas pontes faltam, o juízo fica inerte, o que favorece o externalismo; quando se as fortalece, a ação segue, o que mostra o que a educação moral faz. A psicopatia, em que o juízo existe e a empatia não, é o experimento natural do debate (veja o debate).

Para guardar

  • Internalismo: julgar traz alguma motivação; externalismo: juízo e motivação são separados; o amoralista é o caso de teste.
  • Smith: crenças morais, motivação pelo juízo e psicologia humeana não cabem juntas; cada metaética sacrifica uma.
  • Williams: razões ligam-se ao que a pessoa já quer; Korsgaard e McDowell respondem.

Para pensar

Pense numa convicção moral sua que não move você a agir. Falta a crença, falta o desejo, ou falta a ponte? O que construiria a ponte?

Erro comum: “Saber o que é certo basta para fazer o certo.” É a tese socrática, e a evidência a contradiz: a acrasia existe. O juízo move por pontes (emoção, hábito, identidade) que podem faltar. A educação moral é o trabalho de construir essas pontes.
Dilemas para testar: O anel de Giges.

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