Os antirrealistas negam que haja fatos morais independentes de nós. Mas discordam sobre o que a linguagem moral faz. Alguns dizem que ela tenta descrever fatos e falha; outros, que ela nunca tentou descrever nada: expressa, prescreve, recomenda.
Uma analogia
Quando alguém grita “que gol!” no estádio, não está descrevendo um fato: está expressando alegria. O emotivista acha que “isso é errado” funciona assim, como um “buuu” elaborado. O desafio é explicar por que, então, discutimos moral com argumentos, e não só com gritos.
Explicando para uma criança
Alguns filósofos acham que, quando dizemos “isso é errado”, estamos mostrando o que sentimos, como quando fazemos cara feia. Outros acham que estamos dando uma ordem para todo mundo: “ninguém faça isso”. Eles concordam que não é como descrever a cor de uma parede.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir teoria do erro, emotivismo, prescritivismo e quase-realismo.
- Explicar o problema de Frege-Geach e por que o quase-realismo o leva a sério.
- Dizer o que os antirrealistas acertam e o que custam.
Ajuda ter lido: O que é metaética: fatos morais existem?.
Antes de ler: o que você faria?
“Se mentir é errado, então fazer o irmão mentir é errado.” A frase parece válida.
Se “mentir é errado” só expressa um sentimento (“buu, mentir!”), como pode ser a premissa de um raciocínio? Sentimentos não têm “se… então”.
Ver o que a lição responde
É o problema de Frege-Geach, a objeção mais forte ao emotivismo simples; o quase-realismo de Blackburn tenta explicar a lógica sem fatos morais. A lição apresenta as quatro posições e o que custam.
Teoria do erro
J. L. Mackie, em Ética: Inventando o Certo e o Errado (1977), aceitou que a linguagem moral comum pretende descrever fatos objetivos e vinculantes, e concluiu que ela erra: não há tais fatos. Todo juízo moral é, estritamente, falso, como todo juízo sobre bruxas. Dois argumentos: o da relatividade (a variação moral entre culturas se explica melhor por modos de vida do que por percepções diferentes de um fato) e o da estranheza (fatos que obrigam por si mesmos não se parecem com nada que conhecemos). Mackie não achava que isso liberasse ninguém: a moral é uma invenção útil, e devemos continuar inventando bem. Veja a teoria do erro.
Emotivismo
A. J. Ayer e Charles Stevenson, nos anos 1930 e 1940, disseram que juízos morais não descrevem nada, nem falsamente. Eles expressam atitudes: “matar é errado” equivale a “matar, buuu!”, com a função de influenciar os outros. Não são verdadeiros nem falsos, como um grito não é. A vantagem é explicar por que a moral motiva: ela é emoção expressa. A desvantagem é o problema de Frege-Geach: a frase “se matar é errado, mandar matar é errado” não expressa emoção alguma, e ainda assim faz sentido e entra em argumentos válidos. Veja o emotivismo.
Prescritivismo
R. M. Hare refinou a ideia: juízos morais são prescrições, comandos, mas de um tipo especial: universalizáveis. Dizer que algo é errado é prescrever que ninguém o faça, em qualquer situação igual, inclusive eu. Isso dá lógica à moral (prescrições podem ser consistentes ou não) sem supor fatos. E tem uma consequência normativa: levar a sério a universalização, para Hare, leva ao utilitarismo, porque é preciso pesar as preferências de todos como se fossem as próprias. Veja o prescritivismo.
Quase-realismo
Simon Blackburn aceitou que juízos morais expressam atitudes, e tentou mostrar que, mesmo assim, temos direito a falar como realistas: dizer que a escravidão “era errada mesmo quando todos a aprovavam”, que podemos estar enganados, que há progresso. O truque é que essas frases expressam atitudes de segunda ordem: atitudes sobre as nossas atitudes. Os críticos perguntam se, no fim, o quase-realista acredita ou não que a tortura é errada. Blackburn responde: acredito, e isso é uma atitude. Veja o quase-realismo.
| Posição | Juízos morais são… | Podem ser verdadeiros? | Problema principal |
|---|---|---|---|
| Teoria do erro | Tentativas de descrever fatos que não existem | Não; todos falsos | Como seguir levando a moral a sério? |
| Emotivismo | Expressões de emoção | Não se aplica | Não explica argumentos morais (Frege-Geach) |
| Prescritivismo | Comandos universalizáveis | Não se aplica, mas há consistência | Um fanático consistente passaria no teste |
| Quase-realismo | Atitudes, com direito a falar como realista | “Sim”, em sentido deflacionado | Parece realismo com outro nome |
O que os antirrealistas acertam
- A moral motiva: saber que algo é errado move à ação de um jeito que saber que a água ferve a 100 graus não move. Expressivismo explica isso bem.
- A conexão com o desejo: David Hume já havia notado que a razão sozinha não motiva; precisa de uma paixão. Antirrealistas levam isso a sério.
- Economia: não precisam de fatos estranhos.
O que custam
Se nada é errado em sentido pleno, a frase “o genocídio seria errado mesmo que todos o aprovassem” precisa de uma reinterpretação. Os antirrealistas sofisticados oferecem uma. Se ela convence, é uma questão que divide a filosofia até hoje. O que quase todos concordam é que a prática moral, argumentar, criticar, mudar de ideia, continua fazendo sentido em qualquer das posições.
Para guardar
- Teoria do erro: os juízos pretendem descrever fatos que não existem; emotivismo e prescritivismo: eles expressam atitudes ou ordens; quase-realismo: explica a lógica moral sem fatos.
- Frege-Geach é a objeção mais forte ao emotivismo simples.
- Antirrealistas levam a moral a sério; o que discutem é o estatuto dos juízos.
Para pensar
Se você se convencesse de que não há fatos morais, mudaria alguma coisa no que faz? Se não, o que isso diz sobre de onde vem a força dos seus juízos?
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