Depois de todo o curso, uma coisa ficou clara: ninguém tem certeza sobre qual teoria ética é a correta. Pessoas inteligentes discordam há séculos. A pergunta prática é como agir bem sem ter resolvido isso. A resposta tem nome: ética sob incerteza moral.
Uma analogia
Um investidor que não sabe qual ação vai subir não aposta tudo em uma: diversifica. Diante de teorias éticas que podem estar erradas, dá para fazer o mesmo: preferir ações que são boas em várias teorias e evitar as que seriam uma catástrofe em alguma.
Explicando para uma criança
Imagine que você não tem certeza se uma regra está certa. O jeito seguro é escolher o que seria bom em qualquer caso e evitar o que seria muito ruim se a regra estivesse errada. É como levar guarda-chuva quando não se sabe se vai chover.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir incerteza empírica de incerteza moral.
- Comparar “minha teoria favorita”, escolha esperada e parlamento moral.
- Aplicar cobertura de riscos à dúvida sobre quem conta.
Ajuda ter lido: O que é metaética: fatos morais existem?, Teoria da decisão e ética.
Antes de ler: o que você faria?
Você dá 60% ao utilitarismo e 40% a uma deontologia de direitos. Um ato é levemente bom pela primeira e gravíssimo pela segunda.
Seguir a teoria favorita manda agir. Isso parece sensato? O que uma apólice de seguro faria?
Ver o que a lição responde
A escolha esperada pesa a gravidade pela probabilidade e manda não agir: um risco de 40% de fazer algo gravíssimo vence um ganho pequeno e provável. A lição apresenta os métodos e o parlamento moral.
Dois tipos de incerteza
A incerteza empírica é sobre fatos: esse remédio funciona? esse animal sente dor? Lidamos com ela por probabilidades. A incerteza moral é sobre valores: o sofrimento pesa mais do que o prazer? direitos cedem em catástrofes? Para ela, não há consenso sobre o que fazer, mas há propostas.
Minha teoria favorita
A resposta mais comum é agir pela teoria em que você mais acredita, ignorando as outras. O problema: se você tem 60% de confiança em uma teoria que diz que um ato é levemente bom e 40% em outra que diz que ele é uma catástrofe, agir só pela primeira ignora um risco enorme. Fazemos o oposto com incerteza empírica: não dirigimos a 200 km/h porque “provavelmente” nada acontecerá.
Maximizar a escolha esperada
William MacAskill, Toby Ord e Krister Bykvist propõem tratar teorias como hipóteses com probabilidades, e escolher a ação com o melhor resultado esperado, somando o que cada teoria diria, ponderado pela confiança. A dificuldade é comparar o que teorias diferentes dizem: quanto “errado” deontológico equivale a quanto “bem-estar perdido” utilitarista? Há propostas de normalização, nenhuma consensual.
O parlamento moral
Nick Bostrom sugeriu imaginar um parlamento em que cada teoria tem assentos proporcionais à sua credibilidade, e negocia. Teorias que se importam muito com um caso (a deontologia, diante de uma violação grave) conseguem barrá-lo, mesmo em minoria, em troca de ceder em casos que lhes importam menos. A imagem captura algo que a soma não captura: evitar que uma teoria minoritária seja pisoteada em tudo.
Cobertura de riscos
Com dinheiro, diversificamos para não perder tudo. Com teorias, podemos fazer o mesmo: preferir ações que são boas ou aceitáveis em muitas teorias, e evitar as que são catastróficas em alguma, mesmo que ótimas em outra. Isso tem uma consequência prática forte:
| Ação | Utilitarismo | Deontologia | Virtudes | Sob incerteza |
|---|---|---|---|---|
| Matar um para salvar cinco | Certo | Grave violação | Horror | Evitar: catástrofe em duas teorias |
| Doar parte da renda a quem precisa | Obrigatório | Louvável | Generoso | Fazer: bom em todas |
| Reduzir sofrimento de animais criados | Obrigatório | Devido, se são sujeitos de uma vida | Compassivo | Fazer: bom em todas, e a dúvida sobre senciência pede cautela |
| Mentir para proteger um inocente | Certo | Discutível; muitos aceitam | Honesto e prudente | Fazer, com cuidado |
Incerteza sobre quem conta
A incerteza moral mais consequente é sobre o círculo. Se há 30% de chance de que camarões sintam dor, e matamos trilhões por ano, o valor esperado do sofrimento é enorme mesmo com a dúvida. Jonathan Birch propõe tratar a senciência como uma questão de precaução: diante de evidência razoável, agir como se fosse verdade. Veja senciência.
O que fazer, em resumo
- Não exija certeza para agir: ela não vem.
- Prefira ações robustas, boas em muitas teorias.
- Evite as que são catastróficas em alguma teoria plausível, mesmo que ótimas em outra.
- Dê peso à dúvida sobre quem sente: errar por incluir custa menos do que errar por excluir.
- Continue aprendendo: a incerteza diminui com informação e reflexão. Veja abertura moral.
Para guardar
- Incerteza moral é não saber qual teoria está certa; é a condição normal, e há métodos para decidir sob ela.
- Seguir a teoria favorita ignora a gravidade; a escolha esperada pesa gravidade por probabilidade; o parlamento moral evita o fanatismo.
- Sobre quem conta, a cobertura de riscos favorece incluir: o custo de errar excluindo é maior.
Para pensar
Dê uma probabilidade às três famílias de teorias para você. Diante de um ato que uma delas condena com gravidade, o que a sua distribuição manda fazer?
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