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Avançado / Decidir sem certeza

Incerteza moral: agir sem saber qual teoria é a certa

Você não tem certeza se o utilitarismo ou a deontologia está certa. E agora? Parlamento moral, cobertura de riscos e o que as teorias concordam.

AvançadoFuturo e incertezaTeorias normativas3 min de leitura

Depois de todo o curso, uma coisa ficou clara: ninguém tem certeza sobre qual teoria ética é a correta. Pessoas inteligentes discordam há séculos. A pergunta prática é como agir bem sem ter resolvido isso. A resposta tem nome: ética sob incerteza moral.

Uma analogia

Um investidor que não sabe qual ação vai subir não aposta tudo em uma: diversifica. Diante de teorias éticas que podem estar erradas, dá para fazer o mesmo: preferir ações que são boas em várias teorias e evitar as que seriam uma catástrofe em alguma.

Explicando para uma criança

Imagine que você não tem certeza se uma regra está certa. O jeito seguro é escolher o que seria bom em qualquer caso e evitar o que seria muito ruim se a regra estivesse errada. É como levar guarda-chuva quando não se sabe se vai chover.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir incerteza empírica de incerteza moral.
  • Comparar “minha teoria favorita”, escolha esperada e parlamento moral.
  • Aplicar cobertura de riscos à dúvida sobre quem conta.

Ajuda ter lido: O que é metaética: fatos morais existem?, Teoria da decisão e ética.

Antes de ler: o que você faria?

Você dá 60% ao utilitarismo e 40% a uma deontologia de direitos. Um ato é levemente bom pela primeira e gravíssimo pela segunda.

Seguir a teoria favorita manda agir. Isso parece sensato? O que uma apólice de seguro faria?

Ver o que a lição responde

A escolha esperada pesa a gravidade pela probabilidade e manda não agir: um risco de 40% de fazer algo gravíssimo vence um ganho pequeno e provável. A lição apresenta os métodos e o parlamento moral.

Dois tipos de incerteza

A incerteza empírica é sobre fatos: esse remédio funciona? esse animal sente dor? Lidamos com ela por probabilidades. A incerteza moral é sobre valores: o sofrimento pesa mais do que o prazer? direitos cedem em catástrofes? Para ela, não há consenso sobre o que fazer, mas há propostas.

Minha teoria favorita

A resposta mais comum é agir pela teoria em que você mais acredita, ignorando as outras. O problema: se você tem 60% de confiança em uma teoria que diz que um ato é levemente bom e 40% em outra que diz que ele é uma catástrofe, agir só pela primeira ignora um risco enorme. Fazemos o oposto com incerteza empírica: não dirigimos a 200 km/h porque “provavelmente” nada acontecerá.

Maximizar a escolha esperada

William MacAskill, Toby Ord e Krister Bykvist propõem tratar teorias como hipóteses com probabilidades, e escolher a ação com o melhor resultado esperado, somando o que cada teoria diria, ponderado pela confiança. A dificuldade é comparar o que teorias diferentes dizem: quanto “errado” deontológico equivale a quanto “bem-estar perdido” utilitarista? Há propostas de normalização, nenhuma consensual.

O parlamento moral

Nick Bostrom sugeriu imaginar um parlamento em que cada teoria tem assentos proporcionais à sua credibilidade, e negocia. Teorias que se importam muito com um caso (a deontologia, diante de uma violação grave) conseguem barrá-lo, mesmo em minoria, em troca de ceder em casos que lhes importam menos. A imagem captura algo que a soma não captura: evitar que uma teoria minoritária seja pisoteada em tudo.

Cobertura de riscos

Com dinheiro, diversificamos para não perder tudo. Com teorias, podemos fazer o mesmo: preferir ações que são boas ou aceitáveis em muitas teorias, e evitar as que são catastróficas em alguma, mesmo que ótimas em outra. Isso tem uma consequência prática forte:

AçãoUtilitarismoDeontologiaVirtudesSob incerteza
Matar um para salvar cincoCertoGrave violaçãoHorrorEvitar: catástrofe em duas teorias
Doar parte da renda a quem precisaObrigatórioLouvávelGenerosoFazer: bom em todas
Reduzir sofrimento de animais criadosObrigatórioDevido, se são sujeitos de uma vidaCompassivoFazer: bom em todas, e a dúvida sobre senciência pede cautela
Mentir para proteger um inocenteCertoDiscutível; muitos aceitamHonesto e prudenteFazer, com cuidado

Incerteza sobre quem conta

A incerteza moral mais consequente é sobre o círculo. Se há 30% de chance de que camarões sintam dor, e matamos trilhões por ano, o valor esperado do sofrimento é enorme mesmo com a dúvida. Jonathan Birch propõe tratar a senciência como uma questão de precaução: diante de evidência razoável, agir como se fosse verdade. Veja senciência.

O que fazer, em resumo

  1. Não exija certeza para agir: ela não vem.
  2. Prefira ações robustas, boas em muitas teorias.
  3. Evite as que são catastróficas em alguma teoria plausível, mesmo que ótimas em outra.
  4. Dê peso à dúvida sobre quem sente: errar por incluir custa menos do que errar por excluir.
  5. Continue aprendendo: a incerteza diminui com informação e reflexão. Veja abertura moral.

Para guardar

  • Incerteza moral é não saber qual teoria está certa; é a condição normal, e há métodos para decidir sob ela.
  • Seguir a teoria favorita ignora a gravidade; a escolha esperada pesa gravidade por probabilidade; o parlamento moral evita o fanatismo.
  • Sobre quem conta, a cobertura de riscos favorece incluir: o custo de errar excluindo é maior.

Para pensar

Dê uma probabilidade às três famílias de teorias para você. Diante de um ato que uma delas condena com gravidade, o que a sua distribuição manda fazer?

Erro comum: “Se não tenho certeza da teoria, não posso decidir nada.” A incerteza é a condição normal, e há métodos para decidir sob ela, como em qualquer decisão com risco. O que não se pode é fingir certeza que não se tem.
Dilemas para testar: O transplante.

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