Ética
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Avançado / Metaética

A ética da crença: é errado acreditar sem evidência?

Clifford disse que é sempre errado; James disse que às vezes é permitido. O debate sobre o dever de ter boas razões, e por que ele é uma questão moral.

AvançadoMetaéticaMente e vieses3 min de leitura

Um armador manda ao mar um navio que suspeita estar em mau estado, convence a si mesmo de que está tudo bem, e o navio afunda. William Clifford, em 1877, disse que o armador é culpado mesmo que o navio chegasse: é sempre errado, para qualquer um, acreditar em qualquer coisa com evidência insuficiente. A frase fundou a ética da crença.

Uma analogia

Um piloto que decola “achando” que há combustível suficiente, sem checar, é culpado mesmo que o avião pouse bem. O erro não foi o resultado; foi decidir sobre a vida dos outros sem olhar o medidor. Crer sem evidência, quando outros dependem da crença, é decolar sem checar.

Explicando para uma criança

Se você diz para um amigo que a ponte está firme sem ter olhado, e ele atravessa, você fez algo errado mesmo que a ponte aguente. Antes de acreditar em algo que afeta os outros, vale conferir. Acreditar também é uma escolha.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Reconstruir o argumento do armador de Clifford.
  • Explicar a resposta de James e onde ela vale.
  • Dizer por que a crença é uma questão moral e quais são as virtudes epistêmicas.

Ajuda ter lido: Epistemologia moral: desacordo, testemunho e ficção.

Antes de ler: o que você faria?

Um armador manda um navio velho ao mar sem inspecionar, convencendo-se de que está tudo bem. O navio chega.

O armador fez algo errado, mesmo com o navio chegando? O que exatamente foi o erro?

Ver o que a lição responde

Clifford diz que o erro foi crer sem evidência quando vidas dependiam da crença, e que o resultado feliz não absolve. A lição apresenta o argumento, a resposta de James e as virtudes epistêmicas.

O argumento de Clifford

Crenças não são privadas: guiam ações que afetam outros, se espalham e formam o hábito de crer sem razão, que se repete em coisas que importam. Crer sem evidência é, portanto, uma falha moral, não só intelectual: é uma forma de descuido com os outros. A moral da crença é o dever de investigar antes de aceitar.

A resposta de James

William James, em 1896, respondeu que há decisões que a evidência não decide e que não podem esperar: confiar em alguém, abraçar um projeto, a fé religiosa. Nesses casos, em que a opção é viva, forçada e momentosa, temos direito de crer além da evidência, porque esperar também é decidir. A crítica: James descreve bem a escolha de agir sob incerteza, mas chamá-la de “direito de crer” confunde agir com acreditar; pode-se apostar sem fingir certeza.

Por que isso é ética

A ligação com o resto do curso é direta. Toda prática que sobrevive sem evidência (um tratamento que não funciona, um preconceito sobre quem é capaz de sofrer, uma política que não produz o que promete) prejudica alguém. O inevidencialismo aparece nas fronteiras da parcialidade por isso: não é um viés de grupo, mas é uma fonte de dano. E as catástrofes morais do passado se sustentaram em crenças que ninguém examinou. Veja catástrofes morais.

As virtudes epistêmicas

VirtudeO que éO vício correspondente
Honestidade intelectualDizer o que se sabe e o que não se sabe, inclusive para siAutoengano, raciocínio motivado
HumildadeDar à própria opinião o peso que a evidência dáArrogância; ou a falsa modéstia que recusa julgar
CuriosidadeProcurar o que pode estar erradoIndiferença, conformismo
CoragemSustentar a conclusão impopular quando a evidência a apoiaCovardia; e o seu oposto, o contrarianismo por hábito
AberturaMudar quando a evidência mudaDogmatismo. Veja abertura moral

Ceticismo não é negar tudo

O ceticismo metodológico, da ciência, é proporcionar a crença à evidência: aceitar o que está bem apoiado, duvidar do que não está, e manter os graus. Isso é diferente do ceticismo que nega tudo, que também é uma crença sem evidência. Veja probabilidade e ética.

Onde James tinha razão

Há crenças cuja função não é descrever: a confiança em um amigo, a esperança em um projeto. Exigir evidência prévia para elas destruiria o que elas tornam possível. A posição razoável: evidencialismo para crenças sobre como o mundo é, sobretudo as que afetam outros; latitude para atitudes que não pretendem descrever. O armador de Clifford não tinha essa desculpa: ele cria sobre o estado de um navio com pessoas dentro.

Para guardar

  • Clifford: crer sem evidência é errado quando outros dependem da crença; o resultado feliz não absolve.
  • James: em questões vivas, forçadas e sem evidência disponível, é permitido crer; o limite é onde a evidência existe.
  • As virtudes epistêmicas (humildade, honestidade, curiosidade, coragem) são virtudes morais.

Para pensar

Que crença sua afeta outras pessoas e foi formada sem checar? O armador de Clifford faria o mesmo? O que custaria checar?

Erro comum: “O que eu acredito é problema meu.” Crenças guiam ações e se espalham; crer mal sobre vacinas, sobre grupos ou sobre riscos afeta outros. A responsabilidade não é pela crença em si, e sim por como ela foi formada quando outros dependem dela.
Pratique: Fato ou valor?. Treine separar o que se discute com argumento moral do que se checa com evidência.

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