Ética
Para Iniciantes
Comece aqui

Avançado / As fronteiras do círculo

Vida e ecossistemas: biocentrismo e ecocentrismo

Uma árvore ou um rio contam por si mesmos? As éticas ambientais ampliam o círculo além da senciência, e entram em tensão com ela.

AvançadoCírculo moralÉtica animal4 min de leitura

A ética ambiental pergunta se seres vivos sem senciência, como plantas, e sistemas naturais, como florestas e rios, têm valor por si mesmos, e não só pelo que fazem por quem sente. Duas posições respondem sim, com argumentos e problemas diferentes.

Uma analogia

Um prédio histórico é valioso, mas se pega fogo, salvamos as pessoas antes das paredes. A tensão entre ecocentrismo e sencientismo é assim: a floresta importa, mas quem sente o fogo são os animais dentro dela. Quando o todo e os indivíduos conflitam, vale lembrar quem sente a diferença.

Explicando para uma criança

Cuidar da floresta é muito importante. Mas uma árvore não sente dor, e um macaco que vive nela sente. Quando a gente protege a natureza, vale lembrar que o que mais importa são os seres que sentem alguma coisa.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir biocentrismo e ecocentrismo.
  • Usar o último homem para testar se a natureza tem valor por si.
  • Explicar a tensão com a senciência e o meio-termo possível.

Ajuda ter lido: O círculo moral: quem conta e por quê.

Antes de ler: o que você faria?

O último ser humano, antes de morrer, destrói uma floresta onde não vive nenhum animal. Ninguém jamais a verá.

Ele fez algo errado? Se sim, o erro foi contra quem?

Ver o que a lição responde

Quem diz que sim atribui valor à floresta por si (ecocentrismo); quem diz que não exige alguém que seja prejudicado (sencientismo). A lição apresenta as duas posições, a tensão e um meio-termo.

Biocentrismo

Toda vida tem valor inerente. Albert Schweitzer falou de “reverência pela vida”; Paul Taylor, em Respeito pela Natureza (1986), argumentou que todo organismo tem um bem próprio (crescer, se reproduzir, manter-se), e que ter um bem próprio basta para merecer consideração. Humanos não seriam superiores: apenas uma espécie entre outras. Veja o biocentrismo.

A dificuldade: o que uma bactéria ou uma planta tem a perder? Ela pode ser danificada, mas não sente o dano. Se a consideração moral exige um ponto de vista, alguém para quem as coisas vão bem ou mal, seres sem senciência não o têm. E dar peso igual a tudo o que vive leva a conclusões estranhas: matar uma planta e matar um porco seriam equivalentes.

Ecocentrismo

O que tem valor são os sistemas: ecossistemas, espécies, a biosfera. Aldo Leopold, em A Ética da Terra (1949), formulou: algo é certo quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica. J. Baird Callicott desenvolveu a posição, e a ecologia profunda de Arne Naess a radicalizou. Veja o ecocentrismo.

A dificuldade: um ecossistema não sente nada. Os animais que vivem nele, sim. Quando o ecocentrismo manda sacrificar indivíduos pela “saúde do sistema” (abater animais introduzidos, deixar que a predação siga seu curso), ele dá prioridade a algo que não sofre sobre quem sofre. Tom Regan chamou isso de “fascismo ambiental”. Além disso, “integridade” e “estabilidade” não são estados naturais: ecossistemas mudam o tempo todo, e escolher um estado como o certo é uma decisão humana.

O último homem

Richard Routley propôs: o último humano vivo destrói, antes de morrer, toda a vida restante. Ninguém será afetado. Ele fez algo errado? Se a resposta é sim, algo na natureza tem valor independente de nós. Mas repare: no cenário, há animais sencientes sendo mortos. Um sencientista também diz que foi errado. Para separar as posições, é preciso imaginar a destruição só de plantas e rochas, e aí a intuição fica muito menos clara. Veja o dilema.

A tensão com a senciência

CasoEcocentrismoSencientismo
Animais selvagens sofrendo por fome ou doençaParte do sistema; não interferirSofrimento conta; ajudar se possível sem causar mais dano
Espécie invasora que ameaça um biomaErradicarBuscar métodos que não causem sofrimento; o bioma só vale pelos seres que sentem
Floresta sem animais sencientesTem valor em siTem valor pelo que faz por quem sente, inclusive no futuro
Criação industrial de animaisRuim pelo impacto ambientalRuim pelo sofrimento, antes de qualquer impacto

O Teste de Visão Moral emite um aviso de tensão quando alguém inclui ecossistemas sem incluir nenhum ser senciente: deu consideração ao todo, e nenhuma a quem sofre dentro dele.

Um meio-termo possível

Muita gente combina as posições: seres sencientes contam por si; ecossistemas contam de forma derivada, porque abrigam quem sente, hoje e no futuro, e porque sua destruição é irreversível. Isso preserva quase tudo o que o ambientalismo pede, sem colocar o sistema acima de quem sofre nele. O que não dá é ignorar a tensão: proteger “a natureza” e proteger os animais nem sempre coincidem.

Para guardar

  • Biocentrismo: toda vida tem valor por si; ecocentrismo: ecossistemas contam acima dos indivíduos.
  • O último homem testa se a natureza tem valor sem ninguém para quem seja boa.
  • A crítica sencientista: um ecossistema não sente a diferença entre existir e não existir; seus habitantes sentem.

Para pensar

Você condenaria o último homem por destruir uma floresta vazia? Se sim, contra quem foi o erro? Se não, o que torna a floresta valiosa quando há alguém nela?

Erro comum: “Proteger a natureza é o mesmo que proteger os animais.” Com frequência coincidem, mas ecocentristas aceitam matar animais individuais pelo equilíbrio do sistema, e sencientistas aceitam alterar ecossistemas para reduzir sofrimento. A diferença aparece justamente nos casos difíceis.
Pratique: Monte o seu círculo moral. Marque quem conta para você e descubra o nome da sua posição.
Dilemas para testar: O último homem.

Teste rápido · 1 de 3

Aplique · 2 de 3

Confira · 3 de 3