A ética ambiental pergunta se seres vivos sem senciência, como plantas, e sistemas naturais, como florestas e rios, têm valor por si mesmos, e não só pelo que fazem por quem sente. Duas posições respondem sim, com argumentos e problemas diferentes.
Uma analogia
Um prédio histórico é valioso, mas se pega fogo, salvamos as pessoas antes das paredes. A tensão entre ecocentrismo e sencientismo é assim: a floresta importa, mas quem sente o fogo são os animais dentro dela. Quando o todo e os indivíduos conflitam, vale lembrar quem sente a diferença.
Explicando para uma criança
Cuidar da floresta é muito importante. Mas uma árvore não sente dor, e um macaco que vive nela sente. Quando a gente protege a natureza, vale lembrar que o que mais importa são os seres que sentem alguma coisa.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir biocentrismo e ecocentrismo.
- Usar o último homem para testar se a natureza tem valor por si.
- Explicar a tensão com a senciência e o meio-termo possível.
Ajuda ter lido: O círculo moral: quem conta e por quê.
Antes de ler: o que você faria?
O último ser humano, antes de morrer, destrói uma floresta onde não vive nenhum animal. Ninguém jamais a verá.
Ele fez algo errado? Se sim, o erro foi contra quem?
Ver o que a lição responde
Quem diz que sim atribui valor à floresta por si (ecocentrismo); quem diz que não exige alguém que seja prejudicado (sencientismo). A lição apresenta as duas posições, a tensão e um meio-termo.
Biocentrismo
Toda vida tem valor inerente. Albert Schweitzer falou de “reverência pela vida”; Paul Taylor, em Respeito pela Natureza (1986), argumentou que todo organismo tem um bem próprio (crescer, se reproduzir, manter-se), e que ter um bem próprio basta para merecer consideração. Humanos não seriam superiores: apenas uma espécie entre outras. Veja o biocentrismo.
A dificuldade: o que uma bactéria ou uma planta tem a perder? Ela pode ser danificada, mas não sente o dano. Se a consideração moral exige um ponto de vista, alguém para quem as coisas vão bem ou mal, seres sem senciência não o têm. E dar peso igual a tudo o que vive leva a conclusões estranhas: matar uma planta e matar um porco seriam equivalentes.
Ecocentrismo
O que tem valor são os sistemas: ecossistemas, espécies, a biosfera. Aldo Leopold, em A Ética da Terra (1949), formulou: algo é certo quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica. J. Baird Callicott desenvolveu a posição, e a ecologia profunda de Arne Naess a radicalizou. Veja o ecocentrismo.
A dificuldade: um ecossistema não sente nada. Os animais que vivem nele, sim. Quando o ecocentrismo manda sacrificar indivíduos pela “saúde do sistema” (abater animais introduzidos, deixar que a predação siga seu curso), ele dá prioridade a algo que não sofre sobre quem sofre. Tom Regan chamou isso de “fascismo ambiental”. Além disso, “integridade” e “estabilidade” não são estados naturais: ecossistemas mudam o tempo todo, e escolher um estado como o certo é uma decisão humana.
O último homem
Richard Routley propôs: o último humano vivo destrói, antes de morrer, toda a vida restante. Ninguém será afetado. Ele fez algo errado? Se a resposta é sim, algo na natureza tem valor independente de nós. Mas repare: no cenário, há animais sencientes sendo mortos. Um sencientista também diz que foi errado. Para separar as posições, é preciso imaginar a destruição só de plantas e rochas, e aí a intuição fica muito menos clara. Veja o dilema.
A tensão com a senciência
| Caso | Ecocentrismo | Sencientismo |
|---|---|---|
| Animais selvagens sofrendo por fome ou doença | Parte do sistema; não interferir | Sofrimento conta; ajudar se possível sem causar mais dano |
| Espécie invasora que ameaça um bioma | Erradicar | Buscar métodos que não causem sofrimento; o bioma só vale pelos seres que sentem |
| Floresta sem animais sencientes | Tem valor em si | Tem valor pelo que faz por quem sente, inclusive no futuro |
| Criação industrial de animais | Ruim pelo impacto ambiental | Ruim pelo sofrimento, antes de qualquer impacto |
O Teste de Visão Moral emite um aviso de tensão quando alguém inclui ecossistemas sem incluir nenhum ser senciente: deu consideração ao todo, e nenhuma a quem sofre dentro dele.
Um meio-termo possível
Muita gente combina as posições: seres sencientes contam por si; ecossistemas contam de forma derivada, porque abrigam quem sente, hoje e no futuro, e porque sua destruição é irreversível. Isso preserva quase tudo o que o ambientalismo pede, sem colocar o sistema acima de quem sofre nele. O que não dá é ignorar a tensão: proteger “a natureza” e proteger os animais nem sempre coincidem.
Para guardar
- Biocentrismo: toda vida tem valor por si; ecocentrismo: ecossistemas contam acima dos indivíduos.
- O último homem testa se a natureza tem valor sem ninguém para quem seja boa.
- A crítica sencientista: um ecossistema não sente a diferença entre existir e não existir; seus habitantes sentem.
Para pensar
Você condenaria o último homem por destruir uma floresta vazia? Se sim, contra quem foi o erro? Se não, o que torna a floresta valiosa quando há alguém nela?
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