A seleção natural moldou nossas emoções morais: cuidamos dos filhos, retribuímos favores, punimos trapaceiros, desconfiamos de estranhos. Tudo isso ajudou nossos ancestrais a sobreviver. A pergunta metaética é o que isso diz sobre a confiabilidade dessas intuições para descobrir o que é certo.
Uma analogia
Um detector de metais foi feito para achar moedas, e às vezes apita em uma tampinha. Nossas intuições morais foram feitas pela evolução para sobreviver em tribos pequenas, e às vezes apitam para coisas que não têm nada a ver com o certo. Saber para que o detector foi feito ajuda a saber quando confiar nele.
Explicando para uma criança
A gente nasce já gostando mais da própria família e desconfiando de estranhos. Isso ajudou nossos antepassados a sobreviver. Mas o que ajudou a sobreviver nem sempre é o que é justo. Por isso vale pensar antes de seguir o primeiro sentimento.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Explicar como a evolução moldou intuições morais.
- Reconstruir o dilema darwiniano de Street.
- Dar as respostas realistas e o que sobra para todos: explicar não é justificar.
Ajuda ter lido: Realismo moral: naturalistas e não naturalistas, Psicologia moral: intuição primeiro, razão depois.
Antes de ler: o que você faria?
Sentimos repulsa por incesto, lealdade ao grupo e cuidado com os filhos. A seleção natural explica os três.
Se a explicação é a mesma, as três intuições têm o mesmo valor moral? O que a evolução nos diz sobre quais confiar?
Ver o que a lição responde
A evolução explica a origem, não a validade; mas sugere que intuições ligadas à sobrevivência do grupo (tribalismo) merecem mais suspeita do que as que resistem à reflexão imparcial. A lição apresenta Street e as respostas.
A origem evolutiva da moral
| Disposição | Vantagem evolutiva | Intuição moral |
|---|---|---|
| Cuidado parental | Filhos sobrevivem | Dever especial com os filhos |
| Reciprocidade | Cooperação repetida | Gratidão, justiça, punição de trapaceiros |
| Favoritismo de grupo | Coesão contra rivais | Lealdade, desconfiança do estranho |
| Nojo | Evitar contaminação | Juízos de pureza e impureza |
| Hierarquia | Ordem no grupo | Respeito à autoridade |
Frans de Waal mostrou raízes dessas disposições em outros primatas: empatia, consolo, senso de justiça. A moral humana é uma elaboração, com linguagem e cultura, de algo mais antigo.
O dilema darwiniano de Street
Sharon Street formulou em 2006 um argumento contra o realismo moral. Se há fatos morais independentes de nós, ou nossas intuições foram selecionadas porque rastreiam esses fatos, ou a coincidência entre o que a evolução favoreceu e o que é verdade seria um milagre. Mas a seleção natural não premia crenças verdadeiras: premia crenças que ajudam a sobreviver. Logo, para o realista, nossas intuições não têm por que ser confiáveis, e ele perde o acesso aos fatos que afirma. Para o antirrealista, não há problema: a moral é o conjunto de atitudes que a evolução e a cultura produziram, refinado pela reflexão.
As respostas realistas
- Terceiro fator (Enoch, Wielenberg): a sobrevivência é, em geral, boa; então o que favorece a sobrevivência tende a coincidir com o que é bom, sem milagre. Street responde que isso já pressupõe um juízo moral.
- Desmascarar seletivamente (Singer, de Lazari-Radek): a evolução explica as intuições parciais: favoritismo de grupo, nojo, prioridade ao próximo. Mas não explica bem a intuição imparcial de que a dor de qualquer um conta igual, que não ajudava ninguém a sobreviver. Logo, essa intuição sobrevive ao desmascaramento, e as parciais não. O resultado é um argumento evolutivo a favor da imparcialidade.
- Paridade com a razão: a lógica e a matemática também evoluíram, e confiamos nelas. Se o desmascaramento derruba a moral, derruba tudo. Realistas acham isso um custo alto demais para o argumento.
O que fica, para todos
Mesmo sem decidir a metaética, o argumento de Street deixa uma lição prática: intuições que têm uma explicação evolutiva clara e servem ao interesse do grupo merecem desconfiança. É o caso da parcialidade pelo próximo, do nojo e do tribalismo. Intuições que não se explicam por vantagem, como “o sofrimento de qualquer ser é ruim”, merecem mais confiança. Esse filtro move na direção da imparcialidade e da expansão do círculo.
Explicar não é justificar
Saber que o nojo evoluiu para evitar doença não torna o nojo um guia moral. Saber que a lealdade evoluiu para a guerra não a justifica. A evolução explica de onde vieram nossas reações; a ética pergunta se devemos segui-las. Confundir as duas é a falácia naturalista em versão darwiniana.
Para guardar
- A evolução moldou intuições morais: cuidado com os filhos, lealdade ao grupo, repulsa.
- Street: o realista precisa explicar como intuições selecionadas para sobreviver rastreariam verdades independentes.
- Explicar não é justificar; intuições que sobrevivem à reflexão imparcial (o sofrimento é mau) são mais confiáveis do que as tribais.
Para pensar
Qual das suas intuições morais parece mais claramente útil à sobrevivência do grupo? Ela resiste quando você a examina de um ponto de vista imparcial?
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