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Avançado / Metaética

Evolução, desmascaramento e moral

Nossas intuições morais foram moldadas para sobreviver, não para achar a verdade. Isso as desmente? O argumento de Sharon Street e as respostas.

AvançadoMetaéticaMente e vieses3 min de leitura

A seleção natural moldou nossas emoções morais: cuidamos dos filhos, retribuímos favores, punimos trapaceiros, desconfiamos de estranhos. Tudo isso ajudou nossos ancestrais a sobreviver. A pergunta metaética é o que isso diz sobre a confiabilidade dessas intuições para descobrir o que é certo.

Uma analogia

Um detector de metais foi feito para achar moedas, e às vezes apita em uma tampinha. Nossas intuições morais foram feitas pela evolução para sobreviver em tribos pequenas, e às vezes apitam para coisas que não têm nada a ver com o certo. Saber para que o detector foi feito ajuda a saber quando confiar nele.

Explicando para uma criança

A gente nasce já gostando mais da própria família e desconfiando de estranhos. Isso ajudou nossos antepassados a sobreviver. Mas o que ajudou a sobreviver nem sempre é o que é justo. Por isso vale pensar antes de seguir o primeiro sentimento.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar como a evolução moldou intuições morais.
  • Reconstruir o dilema darwiniano de Street.
  • Dar as respostas realistas e o que sobra para todos: explicar não é justificar.

Ajuda ter lido: Realismo moral: naturalistas e não naturalistas, Psicologia moral: intuição primeiro, razão depois.

Antes de ler: o que você faria?

Sentimos repulsa por incesto, lealdade ao grupo e cuidado com os filhos. A seleção natural explica os três.

Se a explicação é a mesma, as três intuições têm o mesmo valor moral? O que a evolução nos diz sobre quais confiar?

Ver o que a lição responde

A evolução explica a origem, não a validade; mas sugere que intuições ligadas à sobrevivência do grupo (tribalismo) merecem mais suspeita do que as que resistem à reflexão imparcial. A lição apresenta Street e as respostas.

A origem evolutiva da moral

DisposiçãoVantagem evolutivaIntuição moral
Cuidado parentalFilhos sobrevivemDever especial com os filhos
ReciprocidadeCooperação repetidaGratidão, justiça, punição de trapaceiros
Favoritismo de grupoCoesão contra rivaisLealdade, desconfiança do estranho
NojoEvitar contaminaçãoJuízos de pureza e impureza
HierarquiaOrdem no grupoRespeito à autoridade

Frans de Waal mostrou raízes dessas disposições em outros primatas: empatia, consolo, senso de justiça. A moral humana é uma elaboração, com linguagem e cultura, de algo mais antigo.

O dilema darwiniano de Street

Sharon Street formulou em 2006 um argumento contra o realismo moral. Se há fatos morais independentes de nós, ou nossas intuições foram selecionadas porque rastreiam esses fatos, ou a coincidência entre o que a evolução favoreceu e o que é verdade seria um milagre. Mas a seleção natural não premia crenças verdadeiras: premia crenças que ajudam a sobreviver. Logo, para o realista, nossas intuições não têm por que ser confiáveis, e ele perde o acesso aos fatos que afirma. Para o antirrealista, não há problema: a moral é o conjunto de atitudes que a evolução e a cultura produziram, refinado pela reflexão.

As respostas realistas

  • Terceiro fator (Enoch, Wielenberg): a sobrevivência é, em geral, boa; então o que favorece a sobrevivência tende a coincidir com o que é bom, sem milagre. Street responde que isso já pressupõe um juízo moral.
  • Desmascarar seletivamente (Singer, de Lazari-Radek): a evolução explica as intuições parciais: favoritismo de grupo, nojo, prioridade ao próximo. Mas não explica bem a intuição imparcial de que a dor de qualquer um conta igual, que não ajudava ninguém a sobreviver. Logo, essa intuição sobrevive ao desmascaramento, e as parciais não. O resultado é um argumento evolutivo a favor da imparcialidade.
  • Paridade com a razão: a lógica e a matemática também evoluíram, e confiamos nelas. Se o desmascaramento derruba a moral, derruba tudo. Realistas acham isso um custo alto demais para o argumento.

O que fica, para todos

Mesmo sem decidir a metaética, o argumento de Street deixa uma lição prática: intuições que têm uma explicação evolutiva clara e servem ao interesse do grupo merecem desconfiança. É o caso da parcialidade pelo próximo, do nojo e do tribalismo. Intuições que não se explicam por vantagem, como “o sofrimento de qualquer ser é ruim”, merecem mais confiança. Esse filtro move na direção da imparcialidade e da expansão do círculo.

Explicar não é justificar

Saber que o nojo evoluiu para evitar doença não torna o nojo um guia moral. Saber que a lealdade evoluiu para a guerra não a justifica. A evolução explica de onde vieram nossas reações; a ética pergunta se devemos segui-las. Confundir as duas é a falácia naturalista em versão darwiniana.

Para guardar

  • A evolução moldou intuições morais: cuidado com os filhos, lealdade ao grupo, repulsa.
  • Street: o realista precisa explicar como intuições selecionadas para sobreviver rastreariam verdades independentes.
  • Explicar não é justificar; intuições que sobrevivem à reflexão imparcial (o sofrimento é mau) são mais confiáveis do que as tribais.

Para pensar

Qual das suas intuições morais parece mais claramente útil à sobrevivência do grupo? Ela resiste quando você a examina de um ponto de vista imparcial?

Erro comum: “A evolução prova que a moral é ilusão.” Prova que nossas intuições têm uma história; a verdade de uma crença é outra questão. O argumento de Street é mais sutil: pergunta como intuições selecionadas para sobreviver poderiam rastrear verdades independentes. Os realistas respondem; o debate está vivo.

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