Ética
Para Iniciantes
Comece aqui

Avançado / Ética animal

Especismo e a igual consideração de interesses

Dar menos peso a um interesse só porque é de outra espécie: o argumento de Singer, a resposta de Regan e o que os críticos dizem.

AvançadoÉtica animalCírculo moral4 min de leitura

Especismo é o nome dado à discriminação com base na espécie: dar menos peso aos interesses de um ser só porque ele não é humano. O termo foi cunhado por Richard Ryder em 1970 e popularizado por Peter Singer em Libertação Animal (1975). A tese é que o especismo tem a mesma estrutura lógica do racismo e do sexismo, e é tão difícil de justificar.

Uma analogia

Dois pacientes com a mesma fratura chegam ao hospital, e um recebe analgésico e o outro não, por causa da cor da pele. Todos chamariam isso de racismo. O argumento contra o especismo diz que dar menos peso a uma dor igual só por causa da espécie tem a mesma estrutura, e pede a mesma justificativa.

Explicando para uma criança

Não seria justo cuidar de um colega machucado e ignorar outro só porque ele é de outra cidade. A dor é igual. O especismo é fazer isso com animais: achar que a dor de um porco importa menos só porque ele não é humano.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Enunciar o princípio da igual consideração de interesses.
  • Reconstruir o argumento de Singer em passos e a via dos direitos de Regan.
  • Avaliar as respostas dos críticos (Cohen, Scruton, Williams).

Ajuda ter lido: Senciência: o que é, quem tem e como sabemos, Imparcialidade: a regra de ouro, o véu e a universalidade.

Antes de ler: o que você faria?

Uma dor idêntica, de intensidade igual, num humano e num porco.

Há razão para contar a dor do porco por menos? Se a razão é “ele não é humano”, isso é diferente de “ele não é da minha raça”?

Ver o que a lição responde

Singer argumenta que a espécie, por si, é um traço como a raça: irrelevante para o peso de uma dor. Os críticos tentam achar a diferença relevante. A lição apresenta os dois lados com cuidado.

O princípio da igual consideração

Singer não diz que todos os seres são iguais em capacidades, nem que devem ser tratados do mesmo jeito. Diz que interesses iguais devem receber consideração igual, não importa de quem sejam. Um porco não tem interesse em votar, então não há nada a considerar aí. Mas tem interesse em não sofrer, e esse interesse é tão real quanto o nosso. Dar-lhe menos peso só pela espécie é o que o princípio proíbe.

O argumento em passos

  1. Racismo e sexismo são errados porque excluem interesses iguais com base em um traço irrelevante.
  2. A espécie, como a raça, é um traço biológico que não muda a capacidade de sofrer.
  3. Logo, excluir interesses iguais com base na espécie é errado pela mesma razão.

Para escapar, é preciso negar a premissa 2: mostrar que a espécie traz uma diferença relevante. As tentativas mais comuns:

Diferença alegadaO problema
Racionalidade, linguagemBebês e pessoas com deficiência grave não as têm, e contam. Veja casos marginais
“Pertencem à espécie que tem essas capacidades em geral”Julgar um indivíduo pelo grupo é a estrutura do preconceito
Contrato: animais não podem retribuirBebês também não; e quem não pode retribuir é justamente quem mais precisa de proteção
Laços e afetoExplicam por que cuidamos mais dos nossos, não por que os outros não contam
Alma, imagem de DeusNão é verificável, e divide até os religiosos. Muitas tradições pregam compaixão com todos os seres

A via dos direitos: Regan

Tom Regan chegou a conclusões parecidas por um caminho deontológico. Para ele, qualquer sujeito de uma vida, um ser com crenças, desejos, memória e um bem-estar que importa para si, tem valor inerente, e esse valor é igual em todos que o têm. Não se trata de somar interesses: trata-se de direitos que proíbem usar esses seres como recursos, por mais útil que seja. Regan era mais radical do que Singer: para ele, não é questão de reduzir o sofrimento na criação de animais, e sim de abolir o uso.

Outras vozes

  • Gary Francione: abolicionismo; o problema central é tratar animais como propriedade.
  • Christine Korsgaard: uma kantiana que estende o status de fim em si a todos os animais que têm um bem próprio.
  • Martha Nussbaum: justiça para animais como garantia de que possam exercer suas capacidades.
  • Sue Donaldson e Will Kymlicka: animais como membros da comunidade política, com cidadania, residência ou soberania.

O que os críticos dizem

Alguns defendem que a pertença à espécie humana tem valor moral em si, independente de capacidades (Bernard Williams falou de um “preconceito humano” que não precisaria de justificativa). Outros aceitam o argumento, mas dizem que a diferença de grau nas capacidades justifica diferenças de peso, o que leva ao gradualismo. Outros ainda concordam na teoria e dizem que a mudança prática é inviável. Singer responde que esse último foi o argumento contra toda reforma moral da história.

Para guardar

  • Igual consideração de interesses: interesses iguais contam igual; a espécie, por si, é um traço como a raça.
  • Casos marginais: qualquer capacidade usada para excluir animais também exclui alguns humanos; o critério real é sentir.
  • Regan: todo sujeito de uma vida tem direitos; Singer: interesses iguais, peso igual; os críticos buscam a diferença relevante.

Para pensar

Escreva a diferença entre um humano e um porco que, para você, justifica contar a dor de um por menos. Ela vale para todos os humanos? Se não, o que resta?

Erro comum: “Igual consideração quer dizer que um porco vale o mesmo que uma pessoa.” Quer dizer que interesses iguais contam igual: a dor conta igual. Interesses diferentes (ter planos, continuar uma vida longa) podem pesar diferente, e é por isso que matar um humano e um porco não é a mesma coisa para Singer.
Pratique: Teste de troca. Você julgaria o mesmo ato se o autor fosse do outro grupo?

Teste rápido · 1 de 3

Aplique · 2 de 3

Confira · 3 de 3