Ética
Para Iniciantes
Comece aqui

Avançado / Metaética

Epistemologia moral: desacordo, testemunho e ficção

Como sabemos o que é certo? E o que fazer quando alguém tão informado quanto você discorda, ou quando a resposta vem de outra pessoa?

AvançadoMetaética4 min de leitura

A epistemologia moral pergunta como conhecemos verdades morais, se as há. O site já tratou do intuicionismo e do equilíbrio reflexivo. Esta lição cobre três problemas mais difíceis: o desacordo entre pessoas igualmente competentes, o conhecimento moral que vem dos outros, e a proposta de manter a moral como ficção útil.

Uma analogia

Dois médicos experientes discordam sobre um diagnóstico. Nenhum deve simplesmente ceder, nem simplesmente insistir: devem pedir mais exames e perguntar por que leem os dados de modo diferente. O desacordo moral entre pessoas competentes pede o mesmo: menos certeza, mais investigação.

Explicando para uma criança

Se um amigo tão esperto quanto você discorda de você, isso é um aviso: talvez você esteja errado, talvez ele. O certo não é brigar nem desistir; é perguntar por que cada um pensa assim. Às vezes vocês descobrem que estavam falando de coisas diferentes.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Dizer o que fazer diante do desacordo entre pares.
  • Explicar por que o testemunho moral é mais suspeito do que o testemunho científico.
  • Descrever como conhecemos moralmente: intuição, coerência, reflexão.

Ajuda ter lido: Realismo moral: naturalistas e não naturalistas.

Antes de ler: o que você faria?

Você e uma colega igualmente informada e honesta discordam sobre se comer animais é errado.

O desacordo deveria reduzir sua confiança? Se sim, quanto? Se não, por quê?

Ver o que a lição responde

O conciliacionismo diz que sim, pelo menos um pouco: um de vocês errou, e você não tem motivo para supor que foi ela. A lição discute isso, o testemunho moral e o que é conhecer em ética.

O desacordo entre pares

Dois filósofos, igualmente informados e inteligentes, leem os mesmos argumentos e discordam sobre a eutanásia. O que cada um deve fazer com a sua crença? A epistemologia geral discute isso como desacordo entre pares. Duas respostas:

  • Conciliar: o desacordo de um par é evidência de que você pode estar errado; reduza a confiança. Levado ao extremo, ninguém teria crenças morais firmes, porque sempre há um par que discorda.
  • Manter: se você avaliou bem os argumentos, o desacordo não é razão para mudar; o outro é que errou. Levado ao extremo, ninguém aprenderia com ninguém.

A posição intermediária é a mais defendida: o desacordo deve reduzir a confiança em proporção à competência do outro e à dificuldade da questão, e deve motivar a procurar por que discordam. Em ética, muita divergência vem de fatos não morais e de quem conta, e esses pontos podem ser investigados. O que fica depois disso é o desacordo real, que pede humildade sem paralisia. Veja abertura moral.

O testemunho moral

Aceitamos que a Terra é redonda porque alguém confiável disse. Podemos aceitar que a eutanásia é errada porque alguém confiável disse? Muitos filósofos sentem que há algo estranho em crer moralmente “por testemunho”: parece que a pessoa precisa ver a razão, não só adotar a conclusão. As explicações: a compreensão moral tem valor em si (Alison Hills); a crença por testemunho não gera a motivação e a sensibilidade que a crença própria gera; e quem crê por testemunho não sabe aplicar a regra a casos novos. A resposta contrária: para quem não tem tempo ou competência, confiar em quem estudou é o mais racional, como em qualquer área. A posição moderada: o testemunho é uma boa razão para investigar, e pode ser a melhor razão disponível para agir enquanto não se investigou.

A ficção útil

Se a teoria do erro estiver certa e nenhum juízo moral for verdadeiro, o que fazer com a moral? Richard Joyce propõe o ficcionalismo: manter a prática moral como mantemos uma ficção que conhecemos, porque ela funciona. Dizemos “isso é errado” sabendo que não descreve um fato, do mesmo modo que um ator chora em cena. A vantagem: preserva o que a moral faz (coordenar, motivar, conter o interesse próprio) sem crer no que não existe. As objeções: uma ficção que todos sabem ser ficção perde força; e, se a moral funciona tão bem como ficção, talvez isso seja evidência de que não é ficção. Richard Garner propõe o oposto, o abolicionismo: abandonar a linguagem moral e falar só de interesses e consequências.

Como conhecemos, afinal

FonteO que ofereceLimite
IntuiçõesDados de partida: o que parece certo ao refletirVêm da evolução e da cultura; precisam de filtro
ArgumentosCoerência entre juízos; ver que um compromisso implica outroDependem das premissas
Casos e experimentos mentaisIsolam o que pesaPodem ser desenhados para a resposta desejada
FatosQuem sofre, o que funcionaNão decidem valores, mas mudam conclusões
TestemunhoO que quem estudou concluiuNão substitui a compreensão
Experiência e convivênciaConhecer quem é afetadoParcial; precisa ser ampliada

Para guardar

  • Diante do desacordo entre pares, reduza um pouco a confiança: um de vocês errou, e você não tem razão para supor que foi o outro.
  • Testemunho moral é suspeito porque agir bem exige entender a razão, não só saber a conclusão.
  • Conhecemos em ética por intuição, coerência e reflexão: o equilíbrio reflexivo.

Para pensar

Quem é a pessoa mais informada e honesta que discorda de você em ética? Quanto essa discordância deveria pesar? Quanto pesa de fato?

Erro comum: “Em ética, cada um sabe por si; não se aprende com os outros.” Aprendemos com os outros o tempo todo (exemplos, argumentos, experiências que não tivemos). O que é suspeito é aceitar uma conclusão moral só por testemunho, sem entender a razão: a compreensão é parte do que a moral exige.
Pratique: Exercício de equilíbrio reflexivo. Julgue casos, escolha um princípio e veja onde seus juízos e seu princípio se contradizem.

Teste rápido · 1 de 3

Aplique · 2 de 3

Confira · 3 de 3