O realismo moral afirma que alguns juízos morais são verdadeiros, e são verdadeiros por causa de fatos que não dependem de opinião. Que a tortura por diversão é errada seria um fato como o de que a água ferve a 100 graus: podemos ignorá-lo, mas não mudá-lo. Os realistas discordam sobre que tipo de fato é esse.
Uma analogia
Dois mais dois são quatro mesmo que ninguém esteja contando, e isso não é um fato físico. O realista moral acha que “sofrimento sem motivo é ruim” é um fato desse tipo: não está em lugar nenhum do espaço, mas é verdadeiro, e podemos descobri-lo ou errar sobre ele.
Explicando para uma criança
Para o realista, dizer que a crueldade é errada é como dizer que a Terra é redonda: é verdade mesmo que algumas pessoas não acreditem. A gente pode descobrir coisas sobre o certo e o errado, e pode estar enganado.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir realismo naturalista e não naturalista.
- Explicar o intuicionismo como epistemologia do realismo.
- Apresentar os argumentos a favor (fenomenologia, desacordo que parece real, progresso) e contra (estranheza, desmascaramento).
Ajuda ter lido: O que é metaética: fatos morais existem?.
Antes de ler: o que você faria?
“A escravidão era errada mesmo quando quase todos a aceitavam.” Quase todos concordam com a frase.
Se ela é verdadeira, verdadeira em relação a quê? Ao que a maioria pensava? Não pode ser. Então a quê?
Ver o que a lição responde
A frase parece exigir um fato que não depende das opiniões: é o ponto de partida do realismo. A lição mostra as duas versões e os argumentos de cada lado.
Realismo naturalista
Fatos morais são fatos naturais, redutíveis a propriedades que a ciência pode estudar: bem-estar, sofrimento, florescimento, cooperação. “Isso é errado” significa algo como “isso causa sofrimento sem compensação” ou “isso frustra o florescimento”. Autores: Richard Boyd, David Brink e Nicholas Sturgeon (o “realismo de Cornell”), Peter Railton (naturalismo redutivo) e Philippa Foot (a bondade de um ser humano é como a boa saúde de uma planta: um fato sobre o que o faz funcionar bem). A vantagem é encaixar a moral no mundo que conhecemos. A desvantagem é o argumento da questão em aberto de G. E. Moore: para qualquer propriedade natural N, faz sentido perguntar “N é bom?”, o que mostra que “bom” não significa N. Veja o realismo naturalista.
Realismo não naturalista
Fatos morais são de um tipo próprio, irredutível, como os fatos matemáticos: não estão no espaço, não têm causa, e ainda assim há verdades sobre eles. Que dois mais dois são quatro não é um fato físico, e não deixa de ser um fato. Moore, W. D. Ross e, recentemente, Derek Parfit, Thomas Nagel e David Enoch defendem alguma versão. Veja o realismo não naturalista.
Como conhecemos: o intuicionismo
Se fatos morais não são empíricos, como os descobrimos? A resposta não naturalista é a intuição racional: certas proposições são autoevidentes a quem as entende bem, como axiomas. “Sofrimento, em si, é ruim” seria uma delas. Não é um sentimento, e sim uma apreensão intelectual, do tipo que temos ao ver que se A é maior que B e B maior que C, então A é maior que C. Críticos perguntam por que intuições morais conflitam tanto entre pessoas; defensores respondem que intuições matemáticas também erraram e foram corrigidas.
Os argumentos a favor do realismo
- A aparência: a experiência moral se parece com descobrir, não com inventar. Quem muda de ideia sobre a escravidão sente que aprendeu algo, não que trocou de gosto.
- O argumento da convergência: em condições de informação, imparcialidade e reflexão, as pessoas tendem a concordar em muito: dor é ruim, casos iguais pedem tratamento igual. Isso sugere que estão respondendo a algo.
- A paridade com a matemática e a lógica: rejeitar verdades normativas por não serem empíricas exigiria rejeitar também a lógica, que diz o que devemos inferir. Parfit e Enoch exploram isso.
- O custo do antirrealismo: se nada é mesmo errado, o genocídio não é mesmo errado. Muitos acham isso mais implausível do que qualquer problema do realismo.
Os argumentos contra
- Estranheza: J. L. Mackie perguntou que tipo de coisa seria um fato que, só por ser conhecido, nos obriga a agir. Nada no mundo físico funciona assim.
- Desacordo: se há fatos, por que tanta divergência persistente? Realistas respondem que boa parte do desacordo é sobre fatos não morais e sobre quem conta, e que diminui com informação.
- Desmascaramento evolutivo: nossas intuições foram moldadas pela seleção natural para sobreviver, não para rastrear verdades morais. Veja evolução e moral.
- Economia: dá para explicar toda a prática moral sem supor fatos extras. Por que supô-los?
A convergência de Parfit
Em On What Matters, Derek Parfit tentou mostrar que kantianos, contratualistas e consequencialistas, bem entendidos, “escalam a mesma montanha por lados diferentes” e chegam a conclusões muito próximas. Se tiver razão, isso é um argumento forte a favor do realismo: teorias independentes convergindo é o que esperaríamos se houvesse algo a descobrir.
Para guardar
- Realismo: há fatos morais independentes das opiniões; naturalistas os veem como fatos naturais, não naturalistas como fatos de outro tipo.
- A favor: a fenomenologia do juízo, o desacordo que parece real, o progresso; contra: a estranheza e o desmascaramento.
- O realista pode estar errado sobre quais são os fatos; é o que o torna humilde.
Para pensar
“A escravidão era errada mesmo quando quase todos a aceitavam.” Você concorda? Verdadeira em relação a quê? Sua resposta o aproxima ou o afasta do realismo?
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