Quem aceita que seres sencientes contam ainda precisa responder: contam igual? O gradualismo diz que o peso de um interesse depende de capacidades como inteligência, autoconsciência e planejamento. O não gradualismo diz que uma dor de mesma intensidade conta igual, seja de quem for.
Uma analogia
Dois pacientes sentem a mesma dor. Um é professor de física; o outro, um bebê. Nenhum médico diria que a dor do professor merece mais analgésico porque ele entende mais. O gradualismo propõe algo parecido entre espécies, e o argumento dos casos marginais pergunta por que a regra do hospital não valeria aí.
Explicando para uma criança
Um bebê não sabe fazer contas, mas a dor dele importa tanto quanto a de um adulto. Então ser inteligente não é o que faz a dor importar. Alguns filósofos perguntam: se é assim, por que a dor de um animal importaria menos?
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Separar as duas perguntas: o peso da dor e o valor da vida.
- Reconstruir o argumento gradualista e o dos casos marginais contra ele.
- Dizer o que a ciência acrescenta sobre intensidade da experiência.
Ajuda ter lido: Especismo e a igual consideração de interesses.
Antes de ler: o que você faria?
Uma dor igual num humano e num frango. Um gradualista diz que a do humano conta mais porque ele tem mais capacidades.
Capacidades mudam a dor? Se mudam, um humano mais inteligente sofre mais do que um menos inteligente?
Ver o que a lição responde
A conclusão seria graduar humanos, e ninguém aceita. A distinção útil: capacidades não mudam o peso de uma dor igual, mas mudam o que a morte tira. A lição organiza o debate assim.
Duas perguntas que se confundem
É preciso separar:
- Capacidades mudam o que está em jogo? Sim, e ninguém discute. Um humano que morre perde planos, relações e um futuro antecipado; um peixe perde menos disso. Matar os dois não é igual, porque o dano não é igual.
- Capacidades mudam o peso de um dano igual? Esta é a pergunta do gradualismo. Se um humano e um porco sentem uma dor física de mesma intensidade e duração, a dor do humano conta mais?
Muitos que se dizem gradualistas só aceitam a primeira. O gradualismo propriamente dito responde sim à segunda.
O argumento gradualista
Seres com mais capacidades têm vidas mais ricas, e seu sofrimento se liga a mais coisas: memória, antecipação, sentido. Um humano sofre também por saber que sofre. Além disso, dizem alguns, a complexidade da mente é em si fonte de valor, e o que acontece a uma mente complexa importa mais.
O argumento dos casos marginais
Se o peso de um interesse depende de inteligência, então humanos com menos capacidades (bebês, pessoas com deficiência cognitiva grave, pessoas em estágio avançado de demência) teriam interesses de menor peso do que os de um adulto típico. Quase ninguém aceita isso. E muitos animais adultos têm capacidades iguais ou superiores às de um bebê humano. Logo, ou aceitamos que esses humanos contam menos, ou abandonamos a inteligência como critério de peso. Veja o dilema.
As respostas gradualistas: (a) o potencial do bebê conta, mas isso não cobre quem não tem potencial; (b) laços e pertença à espécie contam, mas isso é o especismo que o argumento questiona; (c) aceitar a conclusão, como Peter Singer faz em parte, o que a maioria rejeita.
Uma distinção útil
| Posição | Dor igual conta igual? | Morte é igualmente ruim? |
|---|---|---|
| Não gradualista estrito | Sim | Não necessariamente: depende do que se perde |
| Gradualista moderado | Quase; a inteligência pode agravar ou aliviar a dor | Não |
| Gradualista forte | Não; mentes complexas pesam mais | Não |
| Antropocentrista | Só humanos contam de forma plena | Só a morte humana importa diretamente |
O que a ciência acrescenta
A intensidade da dor não parece acompanhar a inteligência. Um animal sem a capacidade de entender que a dor vai passar pode sofrer mais em uma situação em que um humano se consola com o futuro. Alguns pesquisadores argumentam que a dor pode ser a experiência central de mentes simples, sem distrações cognitivas. Isso vira o gradualismo ao contrário em alguns casos.
Por que isso importa
Se a dor conta igual, a criação industrial de animais é um dos maiores problemas morais existentes, por escala e intensidade. Se conta menos por grau de inteligência, o problema é menor, mas não desaparece, porque as capacidades dos animais criados são bem maiores do que se supõe. Em qualquer dos casos, a resposta “não contam” fica sem defesa. Veja ética animal na prática.
Para guardar
- Duas perguntas que se confundem: o peso de uma dor igual e o que a morte tira.
- Capacidades não mudam o peso de uma dor igual (senão graduariam humanos); mudam o que se perde com a morte.
- A intensidade da experiência não acompanha a inteligência.
Para pensar
Você acha que a dor de um frango vale menos que a sua? Com a distinção da lição, o que você mantém e o que revisa?
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