O relativismo metaético diz que juízos morais são verdadeiros ou falsos, mas só dentro de um referencial, cultural ou pessoal. O quietismo diz que a pergunta inteira, sobre haver ou não fatos morais “lá fora”, é um erro de gramática filosófica. As duas tentam escapar da disputa entre realistas e antirrealistas.
Uma analogia
Duas pessoas em fusos horários diferentes discutem se “é tarde”. Não discordam de verdade: falam de relógios diferentes. O relativista acha que a moral é assim. O problema é que, quando alguém defende a escravidão e outro a condena, parece um desacordo de verdade, e não dois relógios.
Explicando para uma criança
Dizer “cada lugar tem as suas regras e pronto” parece educado, mas então não daria para dizer que uma regra injusta é injusta. Quem sofre com a regra também mora naquele lugar, e não concorda com ela.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir relativismo metaético de relativismo cultural normativo.
- Explicar o quietismo (Dworkin, Parfit em parte): a pergunta metafísica é mal posta.
- Dizer o que cada saída custa na prática.
Ajuda ter lido: O que é metaética: fatos morais existem?, Egoísmo, relativismo e ceticismo: há um padrão?.
Antes de ler: o que você faria?
Harman compara a moral a uma gramática: “errado” é sempre “errado em relação a um conjunto de normas”, como “gramatical” é relativo a uma língua.
Se é assim, o que acontece quando duas sociedades discordam sobre a escravidão? Estão as duas certas, cada uma na sua “língua”?
Ver o que a lição responde
O relativista metaético aceita que sim, e paga o preço de não poder dizer que a abolição foi um acerto. O quietista responde que a pergunta “a que isso é relativo?” está mal feita. A lição compara as duas saídas.
Relativismo metaético
Diferente do relativismo normativo visto no Iniciante (“não julgue outras culturas”), o metaético é uma tese sobre a verdade: “X é errado” é como “X é ilegal”, verdadeiro em relação a um código, sem sentido fora de um. Gilbert Harman defendeu uma versão sofisticada: juízos morais pressupõem um acordo implícito entre quem fala e quem ouve, e só valem dentro dele.
O que o relativismo acerta: a variação moral entre culturas é real, e muitos de nossos juízos dependem de um pano de fundo que não escolhemos. O que custa:
- Perde o desacordo: se “a escravidão é errada” é verdadeiro para mim e “é aceitável” é verdadeiro para o escravocrata, não estamos discordando: estamos falando de referenciais diferentes, como quem diz “é tarde” em fusos horários diferentes. Mas a disputa moral parece ser um desacordo real.
- Quem define o referencial? Dentro de qualquer cultura há dissidentes, e quase sempre são as vítimas. O relativismo tende a dar a última palavra a quem manda.
- Autorrefutação: “toda verdade moral é relativa” é uma afirmação que pretende valer para todos. Veja o relativismo metaético.
Quietismo
Inspirado em Ludwig Wittgenstein, o quietista diz que perguntar se fatos morais são “independentes da mente” importa um modelo da física para onde ele não cabe. A prática moral funciona: damos razões, corrigimos erros, convencemos e somos convencidos. Perguntar o que “fundamenta” isso de fora é como perguntar o que fundamenta a matemática fora da matemática: a pergunta não tem para onde ir.
Ronald Dworkin, em Justiça para Porcos-Espinhos, defendeu que a única forma de responder a uma pergunta moral é com um argumento moral: nenhuma descoberta sobre a natureza dos fatos pode mostrar que a tortura é aceitável. Thomas Scanlon e John McDowell têm posições próximas, às vezes chamadas de realismo “relaxado”.
| Quietismo acerta | Quietismo custa |
|---|---|
| A moral não precisa de aval da física para funcionar | Parece recusar uma pergunta legítima, em vez de respondê-la |
| Argumentos morais só se respondem com argumentos morais | Não explica por que a moral motiva, nem de onde vem o desacordo |
| Evita a metafísica estranha do realismo e o niilismo da teoria do erro | Críticos dizem que é realismo sem coragem, ou antirrealismo sem honestidade |
O que isso muda na prática
Pouco, e isso é o ponto dos quietistas. Em qualquer das posições, continua fazendo sentido perguntar se uma prática causa sofrimento, se trata casos iguais igualmente, se resistiria a quem a sofre. A metaética esclarece o que estamos fazendo quando perguntamos; não muda as perguntas. Mas há uma diferença de atitude: quem acha que pode estar errado investiga; quem acha que “é tudo relativo” para de investigar. Veja o quietismo metaético.
Para guardar
- Relativismo metaético: a verdade moral é relativa a um referencial, como a gramática a uma língua; custa a possibilidade de progresso.
- Quietismo: a pergunta metafísica está mal posta; só argumentos morais defendem juízos morais.
- O relativismo normativo (“tolere as outras culturas”) é uma tese universal e se contradiz.
Para pensar
Você acha que a abolição da escravidão foi um acerto, e não só uma mudança? Se sim, que teoria metaética permite dizer isso?
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