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Avançado / Ética animal

O sofrimento dos animais selvagens

A natureza não é um documentário. A maioria dos animais que nasce morre cedo, de fome, doença ou predação. Se o sofrimento conta, conta aqui também.

AvançadoÉtica animalCírculo moral4 min de leitura

Pense em um peixe que põe milhões de ovos. Em uma população estável, em média só dois descendentes chegam à idade adulta. Os outros morrem jovens, de fome, frio, doença, parasitas ou nas mandíbulas de outro animal. Esse é o padrão da maior parte da vida na Terra, e ele coloca uma pergunta que a ética animal evitou por muito tempo.

Uma analogia

Um terremoto não é culpa de ninguém, e ninguém diz que por isso não se deve socorrer as vítimas. A natureza é um terremoto permanente para a maioria dos animais que nascem. “Não fomos nós” explica de onde o sofrimento veio; não explica por que ele não contaria.

Explicando para uma criança

Nos filmes, os bichos da floresta vivem felizes. Na vida real, a maioria dos filhotes não chega a crescer: morre de fome, de doença ou é comida por outro animal. Se a dor de um bicho importa quando ele está na nossa casa, ela também importa quando ele está na floresta.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Descrever a escala: a maioria dos animais que nascem morre cedo e mal.
  • Explicar por que o tema foi ignorado e qual é o argumento para levá-lo a sério.
  • Avaliar as objeções (intervir é arrogante; a natureza se equilibra) e o que muda.

Ajuda ter lido: Senciência: o que é, quem tem e como sabemos, Vida e ecossistemas: biocentrismo e ecocentrismo.

Antes de ler: o que você faria?

Uma tartaruga põe cem ovos; um ou dois filhotes chegam à idade adulta. Os outros morrem de fome, predação ou doença nos primeiros dias.

Se o sofrimento conta, esse sofrimento conta? E se a resposta é sim, o que se pode fazer sem causar mais dano?

Ver o que a lição responde

Conta, porque a causa (natureza ou humano) não muda a dor de quem a sente; o que se pode fazer agora é pouco e cauteloso (vacinar, pesquisar, não piorar), mas o reconhecimento muda prioridades. A lição apresenta o argumento e as objeções.

A escala

O número de animais selvagens supera em muito o de animais criados por humanos: estimativas falam em trilhões de vertebrados e um número incomparavelmente maior de invertebrados. A maioria das espécies segue a estratégia de ter muitos filhotes e investir pouco em cada um. O resultado é que, para a maior parte dos animais que nascem, a vida é curta e termina mal. Para os que sobrevivem, fome sazonal, ferimentos sem tratamento, parasitas e doenças são comuns.

CausaO que acontece
Mortalidade juvenilA maioria dos filhotes morre antes de se reproduzir, em geral de fome ou predação
Doença e parasitasSem tratamento; infecções e parasitas são a norma, não a exceção
Fome e sedeSecas e invernos matam populações inteiras lentamente
PredaçãoMuitas vezes sem morte rápida; animais são comidos vivos
Clima e acidentesIncêndios, inundações, frio extremo

Por que o tema foi ignorado

  • A visão idílica: documentários mostram o leão caçando, não a gazela morrendo por horas, nem os filhotes de leão que morrem de fome.
  • “Não fomos nós”: o viés de omissão faz o sofrimento que não causamos parecer menos nosso problema.
  • O ecocentrismo: se o que importa é o ecossistema, o sofrimento dos indivíduos dentro dele é “parte do equilíbrio”. Veja vida e ecossistemas.
  • O medo de parecer absurdo: “ajudar animais selvagens” soa como querer impedir leões de caçar. Não é disso que se trata.

O argumento

  1. Se o sofrimento conta, conta pelo que é sentido, não por quem o causou. Uma dor de origem natural não dói menos.
  2. Já aceitamos isso para humanos: ninguém diz que um terremoto “é natural” e por isso não se deve socorrer as vítimas.
  3. Já intervimos na natureza o tempo todo: vacinamos animais selvagens contra a raiva, resgatamos animais de incêndios, alimentamos populações em invernos severos.
  4. Logo, a pergunta não é se devemos intervir, e sim quando a intervenção reduz sofrimento sem causar mais, e como saber.

Oscar Horta, Catia Faria e Brian Tomasik estão entre os autores que desenvolveram o tema. Para eles, a defesa dos animais não pode se limitar aos que estão nas nossas mãos: a imparcialidade pede olhar para onde o sofrimento é maior.

As objeções

  • “A natureza sabe o que faz.” A natureza não sabe nada: a seleção natural produz o que se reproduz, não o que vive bem. Apelar a ela é a falácia naturalista.
  • “Intervir vai piorar.” Muitas vezes vai, e por isso a maior parte dos defensores pede pesquisa antes de ação em escala, e ações pequenas e reversíveis agora. A incerteza é razão para estudar, não para declarar o problema inexistente.
  • “Não dá para resolver.” Também não dá para resolver a pobreza inteira, e nem por isso deixamos de ajudar quem podemos. Vacinação, resgate em desastres e controle de doenças já são possíveis.
  • “Os animais selvagens vivem bem.” Alguns sim, sobretudo mamíferos e aves de vida longa. A maioria dos indivíduos que nascem, não. A objeção confunde os animais que vemos com os animais que existem.

O que isso muda

Se o argumento está certo, o sofrimento dos animais selvagens é, pela escala, um dos maiores problemas morais existentes, e quase ninguém trabalha nele. Isso não exige abandonar o resto: a criação industrial continua sendo o maior sofrimento que causamos, e é por onde a maioria começa. Mas muda a forma de ver a natureza: de cenário intocável a lugar onde há quem sofre, e onde um dia talvez possamos ajudar.

Para guardar

  • A maioria dos animais que nascem morre cedo, de fome, doença ou predação; a natureza não é um documentário.
  • Se o sofrimento conta, conta aqui também; a causa não muda a dor.
  • O que se pode fazer agora é pouco e cauteloso; o reconhecimento muda prioridades e pesquisa.

Para pensar

Antes desta lição, você imaginava a vida selvagem como boa? O que mudou? Que cautela você pediria antes de qualquer intervenção?

Erro comum: “A natureza é harmoniosa; só o humano causa sofrimento.” A maioria dos animais selvagens vive pouco e morre com dor; a imagem do documentário esconde o que a ecologia mostra. Reconhecer isso não obriga a intervir cegamente, mas proíbe fingir que não existe.
Dilemas para testar: O último homem.

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