Pense em um peixe que põe milhões de ovos. Em uma população estável, em média só dois descendentes chegam à idade adulta. Os outros morrem jovens, de fome, frio, doença, parasitas ou nas mandíbulas de outro animal. Esse é o padrão da maior parte da vida na Terra, e ele coloca uma pergunta que a ética animal evitou por muito tempo.
Uma analogia
Um terremoto não é culpa de ninguém, e ninguém diz que por isso não se deve socorrer as vítimas. A natureza é um terremoto permanente para a maioria dos animais que nascem. “Não fomos nós” explica de onde o sofrimento veio; não explica por que ele não contaria.
Explicando para uma criança
Nos filmes, os bichos da floresta vivem felizes. Na vida real, a maioria dos filhotes não chega a crescer: morre de fome, de doença ou é comida por outro animal. Se a dor de um bicho importa quando ele está na nossa casa, ela também importa quando ele está na floresta.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Descrever a escala: a maioria dos animais que nascem morre cedo e mal.
- Explicar por que o tema foi ignorado e qual é o argumento para levá-lo a sério.
- Avaliar as objeções (intervir é arrogante; a natureza se equilibra) e o que muda.
Ajuda ter lido: Senciência: o que é, quem tem e como sabemos, Vida e ecossistemas: biocentrismo e ecocentrismo.
Antes de ler: o que você faria?
Uma tartaruga põe cem ovos; um ou dois filhotes chegam à idade adulta. Os outros morrem de fome, predação ou doença nos primeiros dias.
Se o sofrimento conta, esse sofrimento conta? E se a resposta é sim, o que se pode fazer sem causar mais dano?
Ver o que a lição responde
Conta, porque a causa (natureza ou humano) não muda a dor de quem a sente; o que se pode fazer agora é pouco e cauteloso (vacinar, pesquisar, não piorar), mas o reconhecimento muda prioridades. A lição apresenta o argumento e as objeções.
A escala
O número de animais selvagens supera em muito o de animais criados por humanos: estimativas falam em trilhões de vertebrados e um número incomparavelmente maior de invertebrados. A maioria das espécies segue a estratégia de ter muitos filhotes e investir pouco em cada um. O resultado é que, para a maior parte dos animais que nascem, a vida é curta e termina mal. Para os que sobrevivem, fome sazonal, ferimentos sem tratamento, parasitas e doenças são comuns.
| Causa | O que acontece |
|---|---|
| Mortalidade juvenil | A maioria dos filhotes morre antes de se reproduzir, em geral de fome ou predação |
| Doença e parasitas | Sem tratamento; infecções e parasitas são a norma, não a exceção |
| Fome e sede | Secas e invernos matam populações inteiras lentamente |
| Predação | Muitas vezes sem morte rápida; animais são comidos vivos |
| Clima e acidentes | Incêndios, inundações, frio extremo |
Por que o tema foi ignorado
- A visão idílica: documentários mostram o leão caçando, não a gazela morrendo por horas, nem os filhotes de leão que morrem de fome.
- “Não fomos nós”: o viés de omissão faz o sofrimento que não causamos parecer menos nosso problema.
- O ecocentrismo: se o que importa é o ecossistema, o sofrimento dos indivíduos dentro dele é “parte do equilíbrio”. Veja vida e ecossistemas.
- O medo de parecer absurdo: “ajudar animais selvagens” soa como querer impedir leões de caçar. Não é disso que se trata.
O argumento
- Se o sofrimento conta, conta pelo que é sentido, não por quem o causou. Uma dor de origem natural não dói menos.
- Já aceitamos isso para humanos: ninguém diz que um terremoto “é natural” e por isso não se deve socorrer as vítimas.
- Já intervimos na natureza o tempo todo: vacinamos animais selvagens contra a raiva, resgatamos animais de incêndios, alimentamos populações em invernos severos.
- Logo, a pergunta não é se devemos intervir, e sim quando a intervenção reduz sofrimento sem causar mais, e como saber.
Oscar Horta, Catia Faria e Brian Tomasik estão entre os autores que desenvolveram o tema. Para eles, a defesa dos animais não pode se limitar aos que estão nas nossas mãos: a imparcialidade pede olhar para onde o sofrimento é maior.
As objeções
- “A natureza sabe o que faz.” A natureza não sabe nada: a seleção natural produz o que se reproduz, não o que vive bem. Apelar a ela é a falácia naturalista.
- “Intervir vai piorar.” Muitas vezes vai, e por isso a maior parte dos defensores pede pesquisa antes de ação em escala, e ações pequenas e reversíveis agora. A incerteza é razão para estudar, não para declarar o problema inexistente.
- “Não dá para resolver.” Também não dá para resolver a pobreza inteira, e nem por isso deixamos de ajudar quem podemos. Vacinação, resgate em desastres e controle de doenças já são possíveis.
- “Os animais selvagens vivem bem.” Alguns sim, sobretudo mamíferos e aves de vida longa. A maioria dos indivíduos que nascem, não. A objeção confunde os animais que vemos com os animais que existem.
O que isso muda
Se o argumento está certo, o sofrimento dos animais selvagens é, pela escala, um dos maiores problemas morais existentes, e quase ninguém trabalha nele. Isso não exige abandonar o resto: a criação industrial continua sendo o maior sofrimento que causamos, e é por onde a maioria começa. Mas muda a forma de ver a natureza: de cenário intocável a lugar onde há quem sofre, e onde um dia talvez possamos ajudar.
Para guardar
- A maioria dos animais que nascem morre cedo, de fome, doença ou predação; a natureza não é um documentário.
- Se o sofrimento conta, conta aqui também; a causa não muda a dor.
- O que se pode fazer agora é pouco e cauteloso; o reconhecimento muda prioridades e pesquisa.
Para pensar
Antes desta lição, você imaginava a vida selvagem como boa? O que mudou? Que cautela você pediria antes de qualquer intervenção?
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