Ética
Para Iniciantes
Comece aqui

Avançado / As fronteiras do círculo

Gerações futuras: quem ainda não nasceu conta igual?

Temporalismo contra atemporalismo: o sofrimento daqui a cem anos vale menos do que o de hoje? Parfit, o desconto e os riscos de longo prazo.

AvançadoFuturo e incertezaCírculo moral3 min de leitura

Pessoas que vão existir daqui a cem anos não votam, não protestam e não aparecem em pesquisas. Mas sofrerão ou se beneficiarão do que decidimos hoje sobre clima, dívidas, tecnologia e instituições. A pergunta é se os interesses delas contam tanto quanto os de quem existe agora.

Uma analogia

Deixar uma conta para alguém pagar daqui a cem anos não a torna menor; só muda quem paga. Se uma dor de dente na semana que vem não doerá menos do que uma amanhã, um sofrimento daqui a um século também não vale menos. O que muda é a nossa incerteza, não o valor.

Explicando para uma criança

As crianças que vão nascer daqui a muitos anos vão viver no mundo que a gente deixar. Elas não podem pedir nada agora, porque ainda não existem. Mas o que elas vão sentir vai ser tão real quanto o que você sente hoje.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir temporalismo e atemporalismo e o argumento contra descontar.
  • Explicar o problema da não identidade.
  • Dizer o que o longo prazo e os riscos acrescentam.

Ajuda ter lido: O círculo moral: quem conta e por quê.

Antes de ler: o que você faria?

Você pode enterrar um vidro quebrado numa trilha. Daqui a cem anos, uma criança vai se cortar nele.

O corte dela conta menos do que um corte hoje? Por quê? O que a resposta diz sobre o clima e os resíduos nucleares?

Ver o que a lição responde

A distância no tempo não muda a dor de quem a sente, como a distância no espaço não muda; descontar vidas futuras é um temporalismo que poucos defendem ao dizer alto. A lição apresenta o argumento e o problema da não identidade.

Temporalismo e atemporalismo

T

Temporalista

O presente pesa mais. O futuro é incerto, distante e, para alguns, menos real. Aplica-se uma taxa de desconto ao bem-estar futuro.

A

Atemporalista

Um sofrimento é igualmente ruim em qualquer data. A distância no tempo, como a distância no espaço, não é uma razão moral. Descontar o futuro é um viés.

O argumento contra descontar

Derek Parfit distinguiu duas razões para dar menos peso ao futuro. A incerteza é legítima: se não sabemos se o dano acontecerá, pesamos pela probabilidade. Mas o desconto puro, dar menos valor a um sofrimento certo só porque é mais tarde, não tem defesa: ninguém acha que uma dor de dente na próxima semana doerá menos do que uma amanhã. Henry Sidgwick já dizia que o tempo em que alguém existe não muda o valor do que lhe acontece. Economistas usam taxas de desconto por razões práticas (crescimento, incerteza), mas quando o desconto é puro, filósofos de quase todas as correntes o rejeitam.

O problema da não identidade

Parfit notou uma dificuldade. Nossas políticas de hoje determinam quem vai existir: outra política, outros pais se encontrariam, outras pessoas nasceriam. Então quem nasce em um mundo arruinado não pode dizer que foi prejudicado, porque sem a política ruim não existiria. Isso parece absurdo (a política foi ruim de qualquer jeito), e mostra que o dano a gerações futuras não pode ser pensado só em termos de prejudicar indivíduos específicos. Veja ética populacional.

Longo prazo e riscos

Se o futuro conta, o número de pessoas que podem vir a existir é imenso, e isso dá peso enorme a evitar catástrofes irreversíveis: guerra nuclear, pandemias projetadas, inteligência artificial fora de controle, colapso climático. Essa é a ideia do longoprazismo, de autores como Toby Ord e William MacAskill. As críticas:

  • Fanatismo: números imensos multiplicados por probabilidades minúsculas podem justificar qualquer coisa hoje. Defensores respondem com limites à agregação e foco em riscos concretos.
  • Pessoas possíveis: temos dever de criar pessoas felizes, ou só de não prejudicar quem vai existir? A visão focada no sofrimento diz que o dever é evitar que o futuro seja ruim, não garantir que seja populoso.
  • Negligenciar o presente: há sofrimento concreto agora, e ele é certo. Muitos defendem que a prioridade ao sofrimento atual e ao futuro não são rivais: ambas pedem evitar os piores desfechos.

Uma convergência

Teorias diferentes concordam em uma coisa: há riscos cujo custo seria tão grande e irreversível, para tantos, que evitá-los é prioridade em quase qualquer visão. Um atemporalista focado no sofrimento, um utilitarista clássico e um deontologista preocupado com deveres às próximas gerações chegam ao mesmo lugar: não deixar um mundo arruinado para quem não teve voz.

Para guardar

  • A distância no tempo não muda a dor de quem a sente; descontar vidas futuras é um temporalismo que poucos defendem ao dizer alto.
  • Desconta-se dinheiro e incerteza, não o valor de uma vida.
  • O problema da não identidade pede uma ética impessoal para o futuro.

Para pensar

Que decisão sua desta semana terá efeito daqui a cinquenta anos? Você deu a esse efeito o mesmo peso que daria se fosse amanhã?

Erro comum: “Gerações futuras não existem, logo não têm interesses.” Elas existirão, e o que fazemos hoje decide como; o interesse de quem vai existir em não sofrer é tão real quanto o de quem já existe. O que de fato é difícil é o problema da não identidade, que a lição explica.
Teorias desta lição: Temporalismo e atemporalismo.
Dilemas para testar: A conclusão repugnante.

Teste rápido · 1 de 3

Aplique · 2 de 3

Confira · 3 de 3