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Debates / Tecnologia e futuro

Devemos priorizar o futuro distante?

Se as pessoas futuras contam e podem ser trilhões, o longo prazo domina tudo? Ou isso é um cheque em branco contra o presente?

O longoprazismo diz que influenciar positivamente o futuro de longo prazo é uma das prioridades morais do nosso tempo: as pessoas que podem vir a existir são muito mais numerosas do que as vivas, e o que fazemos hoje (riscos existenciais, inteligência artificial, instituições) afeta todas elas. Os críticos aceitam que o futuro conta e discordam do peso, da matemática e das prioridades que o argumento gera.

Antes de ler: para que lado você pende?

As perspectivas

A favor

  • Imparcialidade no tempo: uma pessoa não vale menos por nascer em 2200, como não vale menos por nascer em outro país. Veja o atemporalismo.
  • Escala: se a humanidade durar o que outras espécies duraram, as pessoas futuras serão a quase totalidade das que existirão; ignorá-las é o maior ponto cego possível.
  • Alavanca: há momentos em que o futuro está mais em nossas mãos do que nunca, por tecnologias que podem extinguir ou aprisionar a humanidade; evitar o irreversível é barato comparado ao que protege (Ord).
  • Não compete com o presente: pandemias, guerra nuclear e instituições corrigíveis beneficiam quem vive hoje também.

Contra, ou com fortes ressalvas

  • Fanatismo: números astronômicos multiplicados por probabilidades minúsculas justificam qualquer sacrifício presente; o argumento não tem freio interno.
  • Incerteza: ninguém sabe prever efeitos a séculos; a confiança em intervenções de longo prazo é mais fraca do que a aritmética sugere.
  • Negligência do presente: há sofrimento certo agora, e recursos desviados para cenários especulativos têm custo em vidas reais.
  • Pessoas possíveis: há dever de criar pessoas felizes? A visão focada no sofrimento diz que o dever é evitar que o futuro seja ruim, não garantir que seja populoso; isso muda as prioridades de “existir” para “não sofrer”.
  • Poder: “pelo bem das gerações futuras” é uma justificativa que já serviu a concentrar poder; instituições plurais protegem melhor do que planos grandiosos.

Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.

O que cada teoria tende a dizer

Temporalismo e atemporalismoA favor do princípio: o tempo não muda o valor de um sofrimento ou de uma vida.
Utilitarismo clássicoA favor, e com o risco do fanatismo: quanto mais vidas boas, melhor.
Prioridade ao sofrimentoA favor de evitar futuros ruins; contra a prioridade a criar futuros populosos.
Deontologia de direitosDeveres com as gerações futuras existem, mas não autorizam violar direitos presentes.
Contratualismo rawlsianoSob o véu, sem saber em que geração nasceria, você aceitaria regras de poupança justa, não sacrifício ilimitado.

Por que é complexo

Onde a razão pesa

A razão pesa para um lado, com ressalvas

O longoprazismo fraco está bem fundamentado: a data de nascimento não é razão moral, e evitar catástrofes irreversíveis é prioridade em quase qualquer teoria. O forte não convence a maioria: a aritmética de números astronômicos é frágil, a incerteza é maior do que o argumento admite, e a prioridade a criar vidas felizes é contestada pelas éticas focadas no sofrimento. O que fica: levar o futuro a sério, com foco no irreversível e em instituições capazes de corrigir erros, sem sacrificar quem sofre agora.

Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.

E agora, depois de ler?

Perguntas para pensar

  1. Qual parte é fato, e qual é valor?
  2. Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
  3. Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
  4. O que me faria mudar de ideia?

Lições relacionadas: Gerações futuras: quem ainda não nasceu conta igual?, Riscos X e riscos S: o pior que pode acontecer, Ética populacional e a conclusão repugnante, Teoria da decisão e ética.