Debates / Tecnologia e futuro
Se tudo vai acabar, por que evitar a extinção?
O Sol vai engolir a Terra e o universo esfria. Vale a pena gastar tanto com riscos existenciais, ou o que importa é a qualidade da existência enquanto ela dura?
A humanidade vai deixar de existir. Se nada mais acontecer, a Terra fica inabitável em cerca de um bilhão de anos e o Sol vira gigante vermelha em cinco; mais adiante, o universo esgota a energia útil. Diante disso, o esforço para evitar a extinção (os riscos X) parece adiar o inevitável. Uma crítica diz que o que importa não é durar, e sim que a existência, enquanto houver, seja boa: menos sofrimento, mais bem-estar. A outra posição responde que a diferença entre acabar neste século e acabar daqui a bilhões de anos é a maior diferença que existe.
Antes de ler: para que lado você pende?
As perspectivas
Evitar a extinção importa, mesmo que ela seja inevitável
- O argumento vale para pessoas: todos morrem, e nem por isso a morte aos vinte é igual à morte aos noventa. A inevitabilidade do fim não apaga o valor do tempo entre agora e ele.
- Escala: entre acabar em 2100 e acabar em um bilhão de anos cabem, em qualquer conta, mais vidas do que todas as que já existiram, e cada uma delas vale tanto quanto a nossa (Parfit, Bostrom, Ord). O que está em jogo não é adiar, é quase tudo.
- O futuro é onde a boa existência pode acontecer: curar doenças, acabar com a criação industrial, reduzir o sofrimento dos animais selvagens, entender o universo. Extinguir-se agora é cancelar a possibilidade de fazer bem o que ainda fazemos mal.
- Scheffler: muito do que dá sentido ao que fazemos hoje depende de que haja um depois coletivo; sem futuro, a pesquisa, a arte e a educação perdem parte do sentido já agora.
O que importa é a boa existência, não a duração
- Duração sem qualidade não vale: uma humanidade que dure um bilhão de anos repetindo guerras, criação industrial e miséria não é um bem a ser garantido; é um mal a ser evitado. Quem só conta vidas futuras esquece de perguntar como elas serão.
- Assimetria: a ética focada no sofrimento e o utilitarismo negativo observam que evitar sofrimento é mais urgente do que criar felicidade; a extinção impede toda felicidade futura, mas também todo sofrimento futuro, e os riscos S (futuros de sofrimento astronômico) podem ser piores do que a extinção.
- Custo de oportunidade: recursos e atenção gastos em riscos remotos e especulativos saem de quem sofre agora, com certeza e à vista; há uma vaidade em preferir salvar trilhões hipotéticos a milhões reais.
- Humildade: não sabemos o que seres de daqui a mil anos vão valorizar, nem se nosso esforço muda algo nessa escala; agir bem no horizonte que entendemos é mais seguro do que apostar em cálculos astronômicos.
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
O que cada teoria tende a dizer
| Utilitarismo clássico | Cada vida futura conta como a nossa; a extinção cancela quase todo o valor possível. |
|---|---|
| Ética exclusivamente negativa | A prioridade é evitar sofrimento; a sobrevivência só vale se a existência for boa. |
| Utilitarismo negativo (prioridade absoluta) | Impedir o sofrimento futuro pesa mais do que criar felicidade futura; os riscos S preocupam mais do que os riscos X. |
| Temporalismo e atemporalismo | A distância no tempo não reduz o valor de quem vai existir. |
| Ética existencialista | O sentido não vem da duração cósmica; vem do que se faz com o tempo que há. |
| Epicurismo | A extinção não é um mal para quem não vai existir; o mal está só no que se sofre antes. |
Por que é complexo
- A inevitabilidade não é argumento contra nenhum dos lados: ela só mostra que o que se disputa é o valor do tempo intermediário, e os dois lados admitem que ele tem valor.
- A crítica da boa existência acerta num ponto que o longoprazismo maduro aceita: garantir a existência só vale se vier junto com o esforço para que ela seja boa, e o maior risco futuro pode ser o de sobreviver mal (riscos S), não o de não sobreviver. Reduzir riscos X e riscos S não compete; compete o que se prioriza quando o dinheiro é curto.
- A crítica do custo de oportunidade é forte contra o excesso (gastar tudo em cenários especulativos) e fraca contra o essencial: pandemias planejadas, guerra nuclear e inteligências artificiais desalinhadas são riscos deste século, e reduzi-los também protege quem vive agora.
- A escala que o primeiro lado invoca pressupõe que vidas futuras valem como as presentes; quem aceita isso para gerações próximas tem dificuldade em recusá-lo para as distantes.
Onde a razão pesa
O peso está com evitar a extinção, porque o fim inevitável não torna indiferente quando ele chega, e a diferença entre este século e os próximos bilhões de anos é a maior que a ética conhece. A crítica, porém, corrige o objetivo: o que vale a pena garantir não é a existência, e sim a boa existência, e um futuro longo de sofrimento pode ser pior do que nenhum futuro. A posição mais defendida junta as duas: reduzir os riscos de catástrofe deste século (que também ameaçam os vivos) e, com o mesmo empenho, reduzir o sofrimento presente e os riscos de futuros de sofrimento, sem deixar que a aposta em trilhões hipotéticos retire recursos de quem sofre agora.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.
E agora, depois de ler?
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
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