Leve a sério a ideia de que o sofrimento de qualquer pessoa conta igual, e surge uma conclusão desconfortável: a maior parte do que gastamos em conforto poderia salvar vidas. Até onde a moral pode ir antes de pedir demais?
Uma analogia
Um treinador pode exigir que o atleta treine oito horas por dia. Se exigir vinte e quatro, o atleta desiste ou adoece. A moral tem um problema parecido: se pede tudo, ninguém segue; se pede nada, não é moral. A questão é onde está a medida que de fato muda o mundo.
Explicando para uma criança
Se você pudesse ajudar alguém dando um brinquedo, você daria. Mas e se tivesse que dar todos os seus brinquedos, sempre? Ninguém consegue. Os filósofos discutem até onde é certo pedir, e a resposta costuma ser: mais do que fazemos, menos do que tudo.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Reconstruir o argumento de Singer e a objeção da exigência excessiva.
- Listar as respostas: satisfatório, regras, santos morais, prerrogativas.
- Formular uma posição prática defensável.
Ajuda ter lido: Pobreza extrema e ética global.
Antes de ler: o que você faria?
Se cada 3 mil reais salvam uma vida, cada jantar caro, cada viagem, cada roupa nova é uma vida não salva.
O argumento parece válido. Se a conclusão é insuportável, qual premissa você rejeita? Ou aceita a conclusão e não vive de acordo?
Ver o que a lição responde
As saídas: negar a premissa da equivalência, aceitar prerrogativas pessoais, ou aceitar a conclusão com uma meta realista (10%). A lição percorre as respostas e propõe uma posição prática.
O argumento de Singer
Em Fome, Riqueza e Moralidade (1972), Peter Singer propôs: se podemos evitar algo muito ruim sem sacrificar nada de importância moral comparável, devemos fazê-lo. Com a criança no lago, mostrou que já aceitamos isso quando a vítima está perto. Como distância e número de outros que poderiam ajudar não parecem diferenças relevantes, a conclusão é que devemos doar até o ponto em que doar mais nos custaria algo tão importante quanto o que a doação salva. Quase ninguém faz isso.
A objeção da exigência excessiva
Críticos dizem que uma teoria que proíbe quase todo projeto pessoal (uma viagem, um presente, um hobby) não pode estar certa, porque nenhuma pessoa real pode viver assim. Susan Wolf, em Santos Morais (1982), argumentou que uma pessoa inteiramente dedicada ao bem seria, a seu modo, empobrecida: sem arte, sem humor, sem relações que não fossem instrumentais. E ninguém quer que seus filhos sejam assim. Bernard Williams acrescentou que a moral que exige abandonar o que dá sentido à vida esqueceu para que a vida serve.
As respostas
| Resposta | O que diz | Problema |
|---|---|---|
| Aceitar a exigência | A teoria está certa; nós é que somos complacentes | Pode desencorajar em vez de motivar |
| Obrigatório e supererrogatório | Há um mínimo devido; acima dele é louvável, não obrigatório | Onde fica o mínimo, e por quê? |
| Prerrogativa do agente | Samuel Scheffler: temos direito a dar algum peso extra aos próprios projetos | Quanto peso? E vale para quem está morrendo? |
| Dever justo | Liam Murphy: cada um deve a sua parte do que seria preciso se todos fizessem a sua | Quem sofre não é ajudado pela parte que os outros não fizeram |
| Consequencialismo sobre exigências | Uma regra moderada gera mais bem no total, porque é seguida | Pode ser verdade, mas parece conveniente demais |
Uma posição prática
Singer mesmo adotou, em livros posteriores, um padrão realista: doar uma porcentagem crescente da renda, começando por algo como 1% e subindo com a riqueza, e comparar o que se faz com o que se poderia fazer sem ilusões. O movimento do altruísmo eficaz propôs o compromisso de 10%. Não é o que a teoria pura pede, mas é muito mais do que a média, e salva vidas. A diferença entre o ideal e o nada não precisa ser preenchida com culpa; pode ser preenchida com uma meta.
O que isso diz sobre as teorias
- Consequencialismo: enfrenta a objeção de frente; suas melhores versões distinguem o que é certo do que vale a pena cobrar.
- Deontologia: tem deveres positivos limitados; Kant falava em dever imperfeito de beneficência, com latitude. Isso alivia a exigência, mas pode permitir pouco demais.
- Virtudes: a pessoa generosa dá muito, mas também cultiva amizades, arte e descanso. A exigência é vivida, não calculada.
- Cuidado: começa pelos próximos, mas não termina neles: a vulnerabilidade distante também chama.
Para guardar
- Se cada quantia pode salvar uma vida, o argumento de Singer parece exigir quase tudo; a objeção da exigência responde que há um teto.
- As saídas: consequencialismo satisfatório, regras, prerrogativas do agente, santos morais.
- A posição prática mais defendida é um compromisso regular e significativo que se sustenta por anos.
Para pensar
Qual é a sua resposta ao argumento: rejeita uma premissa, aceita prerrogativas, ou aceita a conclusão e não vive de acordo? Qual das três é mais honesta no seu caso?
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