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Debates / Justiça e Estado

Com grande poder vem grande responsabilidade?

Governantes, empresários, cientistas, influenciadores, países ricos. A responsabilidade cresce com o poder, ou cada um responde só pelo que faz? O que a frase significa e o que ela esconde.

A frase é de quadrinhos, mas a ideia é antiga: quem pode mais deve mais. Ela aparece na parábola dos talentos, na noblesse oblige, em Rawls e no altruísmo eficaz. A pergunta tem duas partes: o poder cria deveres positivos (de usar o poder para o bem), e não só negativos (de não abusar)? E quem tem poder responde mais pelo mesmo erro do que quem não tem?

Antes de ler: para que lado você pende?

As perspectivas

O poder cria deveres proporcionais

  • Capacidade gera dever: quem pode salvar com pouco custo e não salva faz algo errado (a criança no lago); quem pode salvar milhares, com o que tem, deve ainda mais. O dever de beneficência cresce com o que se pode.
  • Quem decide por outros responde pelo que decide: o governante, o executivo e o médico tomam decisões cujas consequências recaem sobre quem não escolheu; essa assimetria é a fonte da responsabilidade.
  • Posição injusta: o poder raramente foi conquistado só com mérito; herança, sorte e estrutura o distribuem. Usar parte dele para corrigir o que o produziu é devolver, não doar.
  • Exemplo e norma: quem tem poder define o que é normal; o erro do poderoso ensina, o do fraco só acontece.

A responsabilidade é pelo que se faz, não pelo que se pode

  • Deveres negativos são iguais para todos: não roubar, não mentir, não ferir. Deveres positivos proporcionais ao poder não têm limite claro e levam à exigência infinita, a objeção clássica ao consequencialismo.
  • Perigo do “dever de usar o poder”: foi a justificativa de impérios, intervenções e tutelas; quem acha que deve agir porque pode tende a agir sobre os outros sem lhes perguntar.
  • Igualdade perante a culpa: punir mais o poderoso pelo mesmo ato parece justiça, mas a pena deve seguir o ato e a intenção, não a posição; a posição entra na prevenção (quem pode mais, mais se vigia), não no merecimento.
  • Nem todo poder é escolhido: o cientista que descobre algo perigoso ou o herdeiro não pediram a posição; o dever de quem não escolheu é menor do que o de quem buscou.

Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.

O que cada teoria tende a dizer

Utilitarismo clássicoQuem pode produzir mais bem deve produzi-lo; o dever é proporcional à capacidade.
PrioritarismoPoder e riqueza concentram-se em quem já está bem; a prioridade de quem está pior obriga quem pode mais.
Contratualismo rawlsianoDesigualdades de poder só se justificam se beneficiarem os que estão pior; o poder vem com essa condição.
Deontologia kantianaA beneficência é dever imperfeito para todos; o poder não muda o dever, muda o quanto cabe cumprir.
Deontologia de direitosOs deveres são negativos e iguais; o poderoso deve só o que todos devem.
Ética confucianaO governante é modelo; sua virtude ordena a sociedade e sua falta a corrompe.

Por que é complexo

Onde a razão pesa

A razão pesa para um lado, com ressalvas

O peso está com a proporcionalidade: o poder aumenta o dever de cautela, porque o dano possível é maior, e o dever de beneficência, porque o bem possível custa menos a quem pode mais; e quem decide pelos outros responde pelo que decide. A crítica acerta em três limites: a culpa pelo mesmo ato não cresce com a posição; o “dever de agir” do poderoso precisa do consentimento de quem é afetado, sob pena de virar tutela; e a responsabilidade é menor para o poder que não se escolheu. A frase, portanto, vale como regra de cautela e de beneficência, e não como licença.

Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.

E agora, depois de ler?

Perguntas para pensar

  1. Qual parte é fato, e qual é valor?
  2. Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
  3. Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
  4. O que me faria mudar de ideia?

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