Debates / Justiça e Estado
Existe guerra justa?
Pacifismo, guerra justa e realismo: quando, se alguma vez, matar em escala é permitido, e com que regras.
A tradição da guerra justa, de Agostinho a Walzer, diz que a guerra pode ser permitida sob condições estritas: causa justa, último recurso, proporcionalidade, e regras na condução, como não atacar civis. O pacifismo nega; o realismo diz que a moral não se aplica à guerra.
Antes de ler: para que lado você pende?
As perspectivas
A tradição da guerra justa
- Defesa contra agressão é legítima defesa em escala: se um indivíduo pode se defender, um povo também.
- Sem a possibilidade de guerra justa, agressores vencem sempre; o pacifismo absoluto entrega o mundo a quem não é pacifista.
- As regras de condução (distinção entre combatentes e civis, proporcionalidade, não usar certos meios) limitam o horror e são aplicáveis.
- Intervenção humanitária: há casos, como genocídios, em que não intervir é cumplicidade.
Pacifismo e ceticismo
- Toda guerra mata inocentes em massa, inclusive as justas; o duplo efeito tem servido para aceitar isso com facilidade demais.
- Quase toda guerra é declarada justa por quem a faz; o critério é manipulável, e a história de guerras “justas” é uma história de desastres.
- McMahan: soldados do lado injusto não têm o mesmo direito de matar que os do lado justo, o que torna a maior parte das mortes em guerra assassinato.
- Métodos não violentos tiveram sucesso em mais casos do que se pensa, segundo pesquisas comparativas.
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
O que cada teoria tende a dizer
| Doutrina do duplo efeito | Permite atacar alvos militares prevendo mortes civis, se proporcionais; é o núcleo das regras de condução. |
|---|---|
| Deontologia de direitos | Legítima defesa em escala; civis mantêm o direito de não ser atacados. |
| Utilitarismo clássico | Guerra só se o resultado esperado for melhor do que o da paz, contando todos os afetados. |
| Deontologia absolutista | Pacifismo, em algumas versões: matar inocentes nunca, e toda guerra o faz. |
| Contratualismo escanloniano | Que regras de guerra ninguém poderia rejeitar? As que protegem civis e limitam meios. |
Por que é complexo
- A guerra justa é uma teoria sobre casos raros aplicada a casos comuns; quase nenhuma guerra real cumpre as condições.
- Armas modernas tornam a distinção entre combatentes e civis mais difícil, e as armas nucleares a tornam impossível.
- Quem decide? Instituições internacionais são fracas, e a decisão fica com os próprios interessados.
Onde a razão pesa
A maior parte dos filósofos aceita que a defesa contra agressão pode ser justa, e rejeita o pacifismo absoluto e o realismo. Mas a crítica pacifista acertou em algo importante: as condições são quase nunca cumpridas, e o duplo efeito tem sido usado para aceitar mortes de civis que a teoria deveria proibir. O peso prático está em exigir muito mais do que se exige, e em dar às alternativas não violentas o crédito que a evidência lhes dá.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.
E agora, depois de ler?
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
Lições relacionadas: Intenção e previsão: o duplo efeito e os deveres prima facie, Catástrofes morais: e se estivermos errados agora?, Riscos X e riscos S: o pior que pode acontecer.
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