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Intermediário / Ética aplicada

Responsabilidade coletiva: sua parte nos danos de todos

Arendt, Jaspers, Iris Marion Young e Kutz: o que você deve por males que ninguém causou sozinho, da injustiça estrutural ao clima e à criação industrial.

IntermediárioVida práticaConsequencialismo4 min de leitura

Os maiores danos de hoje não têm um autor. A mudança climática, a pobreza global, a criação industrial de animais, as cadeias de produção com trabalho degradante são feitas de milhões de atos pequenos, legais e, um a um, quase sem efeito. A ética tradicional julga agentes e atos; aqui, o agente é uma multidão e o ato é um padrão. Que responsabilidade cabe a cada um?

Uma analogia

Um rio fica poluído porque mil casas jogam um pouco de lixo nele. Nenhuma casa sozinha mataria um peixe. Procurar o culpado não adianta; ninguém é. Mas cada casa está no rio, e a pergunta certa é: quem pode ajudar a mudar isso, e como se faz junto?

Explicando para uma criança

Se cada criança da escola joga um papelzinho no chão, o pátio fica sujo, mesmo que cada papel sozinho não faça diferença. Ninguém é “o culpado”, mas todo mundo tem que ajudar a limpar e a combinar de não jogar mais.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Distinguir culpa (individual, por ato) de responsabilidade (pode ser coletiva).
  • Explicar o modelo da conexão social de Young.
  • Responder à objeção da gota no oceano com valor esperado e cumplicidade.

Ajuda ter lido: Fazer e deixar acontecer: o viés de omissão.

Antes de ler: o que você faria?

“Minha compra não muda nada: o frango já foi morto, e a fábrica não vai fechar por minha causa.”

A frase é verdadeira? O que acontece se mil pessoas a dizem? O que o valor esperado diz sobre uma compra?

Ver o que a lição responde

Quase sempre a compra não muda nada; de vez em quando, é a que faz encomendar mais um lote, e o valor esperado é a parte proporcional do dano. A lição apresenta esta resposta, a dos torturadores inofensivos e a da cumplicidade.

Culpa e responsabilidade

Karl Jaspers, em 1946, distinguiu quatro culpas na Alemanha do pós-guerra: a criminal (de quem agiu), a política (de todo cidadão pelo que o Estado faz), a moral (de cada um pelo que fez e deixou de fazer) e a metafísica (por ter sobrevivido onde outros morreram). Hannah Arendt separou culpa, que é individual e exige ato, de responsabilidade, que pode ser coletiva: ninguém é culpado por pertencer a um grupo, mas todos respondem pelo que o grupo faz em seu nome. A distinção evita dois erros: diluir a culpa de quem agiu na de todos, e isentar todos porque ninguém agiu sozinho.

O modelo de Iris Marion Young

Para a injustiça estrutural, Young propôs o modelo da conexão social: quem participa das estruturas que produzem um dano (comprando, trabalhando, votando, aceitando) tem responsabilidade de agir para mudá-las, mesmo sem culpa pelo dano. Essa responsabilidade olha para a frente (o que fazer agora), é compartilhada (ninguém a cumpre sozinho) e se exerce em conjunto (organização, pressão, mudança de regra), não só pela escolha de consumo. Ela substitui a pergunta “quem é o culpado?” por “quem está em posição de mudar isto?”.

A objeção da gota no oceano

“Minha compra não muda nada.” A objeção é séria e tem três respostas. A do valor esperado (Kagan, Norcross): o efeito de cada compra é quase sempre zero, mas, de vez em quando, uma compra é a que faz o produtor encomendar mais um lote; o valor esperado é a parte proporcional do dano, e não é desprezível. A dos torturadores inofensivos de Parfit: se mil atos imperceptíveis causam um dano enorme, cada um é errado pela sua parte, ou nenhum seria, e isso é absurdo (veja o dilema). A da cumplicidade (Christopher Kutz): participar intencionalmente de um empreendimento coletivo torna cada um responsável pelo que o empreendimento faz, com ou sem diferença causal, como o membro de um pelotão que atira sem saber se foi a sua bala.

Muitas mãos e nenhuma

Em instituições e sistemas técnicos, o dano pode não ter ninguém a quem apontar: cada um fez a sua parte conforme a regra, e o resultado é ruim (o problema das muitas mãos, de Dennis Thompson; veja ética da tecnologia). A resposta institucional é desenhar responsabilidade antes do dano: quem responde pelo quê, com que poder de parar. A resposta pessoal é o dever de alerta: quem vê o dano formando-se e cala participa dele.

O que isso pede de cada um

  • Não confundir ausência de culpa com ausência de dever: participar de uma estrutura obriga a agir sobre ela.
  • Preferir ações coletivas e institucionais às puramente individuais, sem desprezar as individuais: elas são o que torna as coletivas críveis.
  • Aceitar que a responsabilidade é proporcional ao poder: quem decide mais, deve mais.
  • Desconfiar do “todos somos culpados”: quando serve para que ninguém responda, é uma anistia disfarçada.

Para guardar

  • Culpa é individual e exige ato; responsabilidade pode ser coletiva, pelo que o grupo faz em nosso nome (Arendt, Jaspers).
  • Young: quem participa de uma estrutura injusta tem responsabilidade voltada para a frente, compartilhada e coletiva.
  • “Minha parte não muda nada” tem três respostas: valor esperado, torturadores inofensivos, cumplicidade.

Para pensar

De que estrutura injusta você participa todo dia (consumo, trabalho, voto)? Que ação coletiva, não só individual, está ao seu alcance para mudá-la?

Erro comum: “Se todos são responsáveis, ninguém é.” Responsabilidade compartilhada não é diluída: cada um responde pela parte que pode mudar, proporcional ao poder. “Todos somos culpados” vira anistia só quando é usado para que ninguém aja.

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