Debates / Riqueza e sociedade
Empresas têm deveres além do lucro?
Friedman contra Freeman: a empresa deve só aos acionistas ou a todos os afetados? O que a ética diz sobre o lucro, as regras do jogo e quem fica fora delas.
Milton Friedman escreveu em 1970 que a única responsabilidade social da empresa é aumentar o lucro dentro das regras do jogo. Edward Freeman respondeu que a empresa deve a todas as partes interessadas (stakeholders): trabalhadores, clientes, fornecedores, comunidade. A disputa parece de administração, mas é de ética: quem conta quando uma empresa decide, e quem decide pelos que não estão à mesa.
Antes de ler: para que lado você pende?
As perspectivas
Só o lucro, dentro das regras
- Os executivos administram dinheiro alheio; gastá-lo em causas é tributar acionistas sem mandato. Quem quer fazer o bem faz com o próprio dinheiro.
- Divisão de trabalho institucional: empresas produzem, Estados regulam e redistribuem; se cada empresa decidir o que é socialmente bom, decide sem legitimidade e sem competência.
- O lucro, em mercados competitivos e bem regulados, já é o sinal de que a empresa serve a alguém; a busca de lucro criou mais bem-estar do que qualquer filantropia.
- A “responsabilidade social” vira marketing e desvio: a empresa escolhe causas que vendem e esconde o que custa.
Deveres com todos os afetados
- A empresa é um ator moral: ela decide, prevê e causa; dizer que só deve aos donos é dizer que o dano a terceiros não conta, o que nenhuma teoria aceita para pessoas.
- As regras do jogo são feitas em parte pelas próprias empresas (lobby, captura regulatória); quem escreve as regras não pode esconder-se atrás delas.
- Externalidades: poluição, condições de trabalho e sofrimento animal não aparecem no preço; o lucro é alto justamente porque alguém paga fora da conta. Ser “eficiente” às custas de quem não tem voz não é mérito.
- O próprio Friedman admitia a exceção das regras e da “honestidade”; o debate é sobre o que elas incluem.
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
O que cada teoria tende a dizer
| Consequencialismo de regras | Julgue o sistema: empresas que internalizam os danos produzem mais bem-estar do que as que os exportam. |
|---|---|
| Deontologia kantiana | Trabalhadores, clientes e vizinhos são fins; a empresa que os usa como meros meios age mal, lucre ou não. |
| Contratualismo escanloniano | Um princípio que permita lucrar causando dano a quem não consentiu seria razoavelmente rejeitado pelos afetados. |
| Egoísmo ético | Cada agente busca o próprio interesse dentro das regras; é a base filosófica mais próxima de Friedman. |
| Sencientismo | As maiores vítimas das empresas são os animais, que nenhuma regra representa à mesa. |
| Ética das virtudes | Uma empresa tem caráter: honestidade, justiça com quem depende dela, prudência. |
Por que é complexo
- Os dois lados concordam mais do que parece: Friedman exige respeitar regras e evitar fraude; Freeman admite que sem lucro não há empresa. A disputa real é sobre o que a empresa deve quando a lei é omissa ou fraca, e sobre quem não tem voz.
- A crítica mais forte ao modelo do lucro não é a de que ele ignore a sociedade, e sim a de que ele ignore quem está fora das regras: os animais criados industrialmente e as gerações futuras não têm lei que os proteja a contento, e a empresa que lucra sobre eles está dentro das regras e fora da ética.
- A resposta institucional (regular melhor) e a resposta ética (a empresa deve agir bem mesmo sem regra) não competem: a primeira é a mais segura e a segunda é o que vale enquanto a primeira não chega.
Onde a razão pesa
O peso está com os deveres além do lucro, com uma precisão: a empresa é um agente moral que responde pelo dano que causa, e “dentro das regras” não basta onde as regras são fracas, capturadas ou inexistentes, como é o caso dos animais e do futuro. A posição de Friedman tem razão em dois pontos que sobrevivem: executivos não devem gastar dinheiro alheio em causas pessoais, e a regulação pública é o lugar mais legítimo para decidir o que a sociedade exige. A síntese defendida é: lucro como meio, não causar dano como limite, e regras melhores como meta.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.
E agora, depois de ler?
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
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