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Intermediário / Caráter, cuidado e contrato

A ética do cuidado

Gilligan, Noddings e Held: a moral começa em relações de dependência, não entre estranhos que negociam. O que isso muda e o que não muda.

IntermediárioCaráter e cuidado3 min de leitura

A ética do cuidado nasceu de uma observação: as grandes teorias partem de indivíduos adultos, independentes e iguais, que negociam regras. Mas ninguém começa assim. Começamos dependentes, e passamos boa parte da vida cuidando ou sendo cuidados. Uma ética que ignora isso deixa de fora a maior parte da experiência moral.

Uma analogia

As teorias clássicas imaginam a moral como um contrato entre adultos iguais, em uma mesa de reunião. A ética do cuidado lembra que, antes da reunião, alguém trocou as fraldas de cada um dos presentes. Uma moral que não dá conta da fralda não dá conta da vida.

Explicando para uma criança

Quando você estava doente, alguém cuidou de você: trouxe água, ficou por perto, percebeu o que você precisava. A ética do cuidado diz que prestar atenção em quem precisa e responder é uma das coisas mais importantes de ser uma boa pessoa.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Contar a origem: Gilligan contra a escala de Kohlberg.
  • Explicar o que cuidar envolve (atenção, resposta, responsabilidade) e o que a ética do cuidado critica nas teorias da imparcialidade.
  • Avaliar as objeções (parcialidade, essencialismo) e a extensão aos animais.

Ajuda ter lido: Virtudes e cuidado: quando quem você é pesa mais.

Antes de ler: o que você faria?

Na escala de Kohlberg, meninas que respondiam “Heinz deveria conversar com o farmacêutico” pontuavam abaixo de meninos que diziam “a vida vale mais que a propriedade”.

A resposta das meninas era imatura, ou uma outra forma de raciocínio moral? O que muda se for a segunda?

Ver o que a lição responde

Gilligan argumentou que era uma voz diferente, centrada em relações e responsabilidades, que a escala não media. A lição conta essa origem e o que a ética do cuidado propõe e critica.

A origem: Gilligan contra Kohlberg

Nos anos 1970, Lawrence Kohlberg propôs estágios de desenvolvimento moral, com o raciocínio por princípios abstratos no topo. Meninas e mulheres pontuavam menos. Carol Gilligan, sua colaboradora, ouviu as mesmas entrevistas e concluiu em Uma Voz Diferente (1982) que elas não raciocinavam pior: raciocinavam de outro modo, atentas a relações, contexto e às necessidades concretas de cada envolvido. Kohlberg havia medido uma “voz” e chamado a outra de imatura.

Gilligan não disse que mulheres são cuidadosas e homens justos por natureza. Disse que há duas orientações morais, a da justiça e a do cuidado, e que as duas são necessárias.

O que é cuidar

Nel Noddings descreveu o cuidado como uma relação: quem cuida se volta para o outro, percebe suas necessidades e responde; quem é cuidado reconhece a resposta. Joan Tronto listou fases: perceber a necessidade, assumir a responsabilidade, prestar o cuidado com competência e verificar se funcionou. O cuidado não é sentimento vago. É atenção mais ação mais verificação.

O que a ética do cuidado critica

Teorias tradicionaisÉtica do cuidado
Partem de indivíduos independentesParte de pessoas em relações de dependência
Valorizam imparcialidade e distânciaValoriza atenção ao particular e proximidade
Veem a emoção como obstáculoVê a emoção como forma de perceber
Buscam princípios universaisBusca respostas adequadas a cada relação
Trabalho de cuidado é invisívelTrabalho de cuidado é o centro da vida moral

As objeções

  • Parcialidade: cuidar dos “meus” pode justificar ignorar os de fora. Virginia Held e outras respondem que o cuidado deve se expandir: começa perto, mas não termina ali.
  • Reforça estereótipos: associar cuidado a mulheres pode naturalizar a divisão que oprime. Muitas autoras insistem que o cuidado é humano, não feminino, e que o problema é sua desvalorização.
  • Falta critério: como saber se o cuidado é bom? Noddings respondeu que o cuidado bom é o que a pessoa cuidada reconhece como tal, mas isso não resolve casos em que quem é cuidado não pode responder.
  • Precisa de justiça: relações de cuidado podem ser exploradoras. A maioria das autoras hoje defende cuidado e justiça, não um no lugar do outro.

Cuidado e animais

Josephine Donovan e Carol Adams argumentam que a ética do cuidado tem uma vantagem na questão animal: em vez de debater se animais têm direitos, pergunta o que eles precisam e como respondemos. A atenção à vulnerabilidade concreta, central ao cuidado, aponta diretamente para quem está mais vulnerável, e bilhões de animais estão.

Para guardar

  • Gilligan contra Kohlberg: a voz do cuidado não era imaturidade, era outro raciocínio moral.
  • Cuidar envolve atenção, resposta e responsabilidade; a dependência é a condição humana.
  • A objeção: o cuidado é parcial e começa perto; precisa da imparcialidade para alcançar quem não vemos.

Para pensar

Quem cuida de você hoje, e de quem você cuida? Essas relações aparecem em alguma das teorias que você leu antes? O que elas revelam que o contrato não vê?

Erro comum: “Ética do cuidado é a ética das mulheres.” A voz do cuidado foi observada com mais frequência em mulheres, por socialização, mas não é feminina por natureza nem exclusiva: Held e Kittay a propõem como ética para todos, e a crítica ao essencialismo vem de dentro do feminismo.
Teorias desta lição: Ética do cuidado.
Dilemas para testar: O dilema de Heinz.

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