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Direitos como trunfos e a deontologia de limiar

Direitos vencem cálculos de utilidade, como trunfos no baralho. Mas vencem sempre, ou cedem diante de uma catástrofe?

IntermediárioDeontologia3 min de leitura

Dizer que alguém tem um direito é dizer que certas coisas não podem ser feitas a essa pessoa, mesmo que fossem úteis para outras. Ronald Dworkin chamou os direitos de trunfos: cartas que vencem o cálculo de utilidade. A pergunta que divide os deontologistas é se eles vencem sempre.

Uma analogia

Um cofre com uma regra: só se abre com a chave, nunca com um pedido. Mas se o prédio estiver pegando fogo e dentro dele houver o extintor? O absolutista diz que o cofre fica fechado. O deontologista de limiar diz que em uma catástrofe a regra cede. Os dois concordam que “eu queria muito” não abre o cofre.

Explicando para uma criança

Algumas regras são como paredes: não se passa por elas mesmo com um bom motivo, como “não machucar os outros”. Mas e se for a única forma de salvar muitas pessoas? Os filósofos discutem se a parede nunca cai ou se cai só em um perigo enorme.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar a metáfora dos direitos como trunfos.
  • Comparar absolutismo e deontologia de limiar e o problema de cada um.
  • Discutir quem tem direitos e com que base.

Ajuda ter lido: Deontologia: quando deveres e direitos pesam mais.

Antes de ler: o que você faria?

Uma bomba vai matar um milhão de pessoas. O único que sabe onde está é um terrorista preso, que só falará sob tortura.

O direito de não ser torturado é absoluto, ou cede aqui? Se cede, em que ponto: um milhão, mil, dez?

Ver o que a lição responde

O absolutista diz nunca, e aceita a catástrofe; o deontologista de limiar diz que cede acima de um limiar, e tem de dizer qual, sem fórmula. A lição mostra o custo das duas respostas, e por que a maioria fica com o limiar alto.

Direitos como trunfos

Se a liberdade de expressão de uma pessoa só valesse enquanto fosse útil à maioria, não seria um direito, seria uma concessão. Para Dworkin, o ponto de um direito é proteger o indivíduo justamente quando a maioria quer passar por cima dele. Robert Nozick foi além: direitos são restrições laterais, limites ao que qualquer um pode fazer em busca de qualquer meta, inclusive da meta de proteger direitos.

Tipo de direitoO que impõe aos outrosExemplo
NegativoNão interferirNão ser torturado, não ser censurado
PositivoFornecer algoEducação, saúde, socorro
De liberdadeDeixar fazerCulto, associação, expressão
De reivindicaçãoAlguém tem o dever correspondenteReceber o que foi contratado

Libertários como Nozick aceitam só os negativos. A tradição dos direitos humanos inclui os positivos. Essa é uma das linhas que separa esquerda e direita, e ela nasce aqui, na teoria dos direitos.

Absolutismo: nunca

A deontologia absolutista diz que certas restrições nunca podem ser violadas: não torturar, não matar inocentes, não escravizar. Nem para salvar mil vidas. O lema é fiat justitia, ruat caelum: faça-se justiça, ainda que o céu caia. Elizabeth Anscombe defendeu que quem considera, nem que seja por um instante, executar um inocente para salvar outros já mostrou uma mente corrompida.

Limiar: quase nunca

A deontologia de limiar responde: as restrições valem com força enorme, mas cedem quando as consequências ultrapassam um limiar catastrófico. Torturar para evitar um constrangimento, jamais; torturar um terrorista para impedir a explosão de uma cidade, talvez. Michael Moore e outros defendem essa posição como a que melhor descreve nossas intuições.

O problema de cada uma

  • Absolutismo: parece fanatismo quando o custo é imenso. Permitir que milhões morram para não violar um direito é difícil de defender diante dessas pessoas.
  • Limiar: onde fica a linha, e por quê? Se mil vidas justificam a violação, 999 não? Larry Alexander mostrou que qualquer limiar fixo gera paradoxos. Defensores respondem que a vagueza é da moral, não da teoria, e que vagueza não é arbitrariedade.
  • As duas: por que a restrição? Se é errado matar um para salvar cinco, mas não para salvar um milhão, parece que no fundo o número conta. A deontologia de limiar pode ser consequencialismo com freio de mão.

Quem tem direitos?

Para Nozick e Kant, seres racionais. Mas bebês e pessoas com deficiência cognitiva grave não raciocinam no sentido exigido, e têm direitos. Tom Regan propôs que o critério é ser sujeito de uma vida: ter experiências, preferências, um bem-estar que importa para si. Pelo critério, muitos animais são portadores de direitos, inclusive o de não ser usado como recurso. Veja especismo.

Para guardar

  • Direitos são trunfos: vencem cálculos de utilidade comuns.
  • Absolutismo diz que nunca cedem; a deontologia de limiar diz que cedem diante da catástrofe, e precisa dizer onde fica o limiar.
  • Direitos morais são o que a lei deveria reconhecer, e servem para criticar a lei.

Para pensar

Um direito que você considera absoluto: existe algum número de vidas que o faria ceder? Se sim, você é um deontologista de limiar; se não, aceita a catástrofe. Qual custo prefere?

Erro comum: “Direitos são o que a lei dá.” Direitos legais são criados por leis; direitos morais são o que a lei deveria reconhecer, e servem para criticar a lei. Escravizados tinham direitos morais sem ter direitos legais.
Pratique: O bonde, caso a caso. Responda às variantes do dilema e veja que padrão suas respostas revelam.
Dilemas para testar: O transplante.

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