Ética
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Debates / Fundamentos da ética

Os fins justificam os meios?

Maquiavel, Trótski, Dewey e os deontologistas. A frase mais citada da ética, o que ela diz de verdade, e por que a resposta certa é “às vezes, e por isso quase nunca”.

A frase atribuída a Maquiavel (que não a escreveu assim) pergunta se um bom resultado torna aceitável qualquer meio. Posta assim, quase ninguém diz sim. Mas a versão séria é mais difícil: há meios que nenhum fim justifica, ou todo meio é aceitável desde que o fim seja bom o bastante e o meio seja o único? É o núcleo da disputa entre consequencialismo e deontologia, e o teste de toda política.

Antes de ler: para que lado você pende?

As perspectivas

Os fins justificam os meios (em alguma medida)

  • Só os fins podem justificar meios: um meio não é bom nem mau em si, é um ato que produz algo; perguntar se o fim justifica o meio é a única pergunta sensata sobre ele (Dewey). O que se discute é se este fim justifica este meio.
  • Toda ética admite isso em casos: mentir ao assassino, usar força para impedir um crime, quebrar uma promessa para salvar uma vida. Quem diz “nunca” precisa aceitar a catástrofe para não sujar as mãos.
  • Trótski: quem rejeita a frase costuma ter outro fim escondido (a própria pureza), e esse fim também é um fim; a questão é qual fim justifica qual meio, e por quem.
  • Na política, a recusa absoluta de meios impuros entrega o poder a quem não a tem (Weber: a ética da responsabilidade contra a ética da convicção).

Há meios que nenhum fim justifica

  • Pessoas não são meios: usar alguém sem consentimento para um fim, por melhor que seja, é tratá-lo como coisa; é o que proíbe a segunda fórmula do imperativo categórico e o que o transplante involuntário mostra.
  • O fim raramente chega: os meios são certos e presentes; o fim é futuro e incerto. A história dos que mataram “por um mundo melhor” é a história de meios reais e fins que nunca vieram. Os meios moldam o fim: uma revolução feita com terror produz um Estado de terror.
  • Quem calcula se engana a favor de si: a conta de fins e meios é feita por quem quer usar o meio, e o viés motivado infla o fim e esconde o custo. Restrições fixas existem porque a conta não é confiável quando mais importa.
  • Reputação e confiança: uma sociedade em que todos aceitam violar regras por bons fins é uma em que ninguém pode confiar em regra alguma; a utilidade das restrições vem de serem respeitadas quando é tentador não respeitar.

Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.

O que cada teoria tende a dizer

Consequencialismo de atoSó o resultado justifica; o meio é parte da conta, e a conta decide.
Consequencialismo de regrasRegras quase absolutas, porque a conta caso a caso falha quando mais importa.
Deontologia kantianaNunca use uma pessoa apenas como meio; o fim não redime o meio.
Deontologia de limiarAs restrições valem até o limiar da catástrofe; ali, o fim passa a justificar.
Deontologia absolutistaAlguns meios nunca; faça-se justiça, pereça o mundo.
Ética das virtudesO meio revela e forma o caráter; quem usa meios vis se torna vil, seja qual for o fim.

Por que é complexo

Onde a razão pesa

A razão pesa para um lado, com ressalvas

O peso está com uma resposta em dois tempos: os fins são a única coisa que pode justificar meios, e por isso meios comuns (mentir ao assassino, usar força para impedir um crime) se justificam por fins graves; mas há meios que quase nenhum fim justifica, porque tratam pessoas como coisas, porque o fim é incerto e o meio é certo, e porque a conta é feita por quem tem interesse nela. A posição mais defendida, da deontologia de limiar ao consequencialismo de regras, é tratar as restrições como quase absolutas, cedendo só diante de catástrofe comprovada, e desconfiar de quem diz que o seu fim é a exceção.

Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.

E agora, depois de ler?

Perguntas para pensar

  1. Qual parte é fato, e qual é valor?
  2. Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
  3. Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
  4. O que me faria mudar de ideia?

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