Depois do Holocausto, a pergunta era inevitável: as pessoas que participaram eram monstros, ou pessoas comuns em situações extraordinárias? A psicologia social dos anos 1960 e 1970 deu uma resposta desconfortável, e a filosofia ainda discute o que ela significa.
Uma analogia
Uma ponte firme aguenta vento forte; uma ponte fraca cai com brisa. Os experimentos de Milgram e Zimbardo mediram o vento, e descobriram que quase todas as pontes caem com vento suficiente. Isso não diz que firmeza não existe: diz que ela é rara e que vale construir onde venta menos.
Explicando para uma criança
Em um experimento famoso, pessoas comuns deram choques em outras porque um cientista mandou. Elas não eram más; só não paravam para pensar. Isso ensina que, quando todo mundo está fazendo algo errado, a pessoa que diz “não” é muito importante, e que vale perguntar o que a gente está fazendo.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Descrever Milgram, Zimbardo e a banalidade do mal de Arendt.
- Enunciar a objeção situacionista à ética das virtudes.
- Dizer o que a replicação mostrou e o que fica para a ética.
Ajuda ter lido: Psicologia moral: intuição primeiro, razão depois, Aristóteles, a vida boa e as virtudes.
Antes de ler: o que você faria?
Em Milgram, dois terços das pessoas comuns aplicaram o que acreditavam ser choques perigosos porque um homem de jaleco pediu.
Isso mostra que não existe caráter, ou que o caráter precisa de condições? O que você faria para se proteger?
Ver o que a lição responde
Mostra que a situação pesa mais do que achamos, e que a virtude inclui conhecer as situações e evitá-las ou preparar-se. A lição apresenta os experimentos, os limites deles e a resposta da ética das virtudes.
Milgram: obediência
Em 1961, Stanley Milgram pediu a voluntários que aplicassem choques, supostamente crescentes, a outro participante (um ator) sempre que ele errasse em um teste. Um pesquisador de jaleco dizia “o experimento exige que continue”. Cerca de dois terços foram até o choque máximo, apesar de gritos e depois silêncio. Não eram sádicos: suavam, protestavam, e continuavam. A conclusão de Milgram: a obediência a uma autoridade percebida como legítima leva pessoas comuns a atos que condenariam. Variações mostraram o que reduz a obediência: proximidade da vítima, ausência da autoridade, um colega que se recusa.
Zimbardo: papéis
Em 1971, Philip Zimbardo dividiu estudantes em “guardas” e “prisioneiros” em uma prisão simulada. Em dias, guardas humilhavam prisioneiros, e o experimento foi interrompido. A leitura clássica: o papel molda a conduta. Críticas posteriores mostraram que Zimbardo orientou os guardas e que parte do comportamento foi encenação, o que enfraquece o estudo, mas não a conclusão geral, confirmada por outros.
Arendt: a banalidade do mal
Hannah Arendt cobriu o julgamento de Adolf Eichmann, organizador da logística do extermínio, e viu não um monstro, mas um burocrata sem imaginação, que cumpria ordens, usava clichês e nunca pensou no que fazia. Sua tese, a banalidade do mal, é que o mal em grande escala não precisa de maldade: precisa de pessoas que não pensam. Historiadores discutem se Eichmann era mesmo assim (há evidência de convicção ideológica), mas a tese sobreviveu como descrição de como sistemas de atrocidade funcionam: com muita gente fazendo a sua parte pequena.
A objeção situacionista
Nos anos 1990, Gilbert Harman e John Doris usaram esses estudos e outros (pessoas ajudam mais quando acabaram de achar uma moeda; menos quando estão com pressa) para atacar a ética das virtudes: se a conduta depende tanto da situação, traços de caráter estáveis como “coragem” ou “honestidade” talvez não existam, e uma ética baseada neles estaria fundada em uma ilusão.
As respostas dos defensores das virtudes:
- Os experimentos mostram que a virtude é rara, não que é impossível; Aristóteles já dizia que poucos a alcançam.
- A virtude inclui saber reconhecer situações perigosas e evitá-las ou resistir a elas; os que se recusaram em Milgram existiram, e a pergunta é o que os distinguia.
- Traços locais (honesto com amigos, não com estranhos) ainda são traços, e a educação pode ampliá-los.
- O argumento prova demais: se não há caráter, também não há agentes para o consequencialismo nem para Kant.
Replicação e limites
Parte da psicologia social dos anos 2000 não se replicou, e os estudos clássicos foram reexaminados. Milgram se sustenta em replicações parciais; Zimbardo, pouco; o efeito do humor e da pressa sobre a ajuda, moderadamente. A conclusão que resiste: a situação pesa muito mais do que supomos, e menos do que “tudo”. Veja probabilidade e ética sobre como pesar evidência.
O que isso muda
- Humildade: “eu nunca faria isso” é o que todos os participantes diziam antes.
- Desenhar situações: se a situação pesa, instituições e regras que facilitam o certo valem mais do que sermões.
- O primeiro a recusar: em Milgram, um colega que se recusava derrubava a obediência. Dissentir em voz alta é o ato mais eficaz que uma pessoa comum tem.
- Pensar: a tese de Arendt tem um corolário prático: a defesa contra o mal banal é o hábito de perguntar o que se está fazendo, e para quem.
Para guardar
- Milgram, Zimbardo e Arendt mostram que a situação pesa mais sobre a conduta do que supomos.
- A objeção situacionista não prova que o caráter não existe: um terço resistiu em Milgram, e replicações reduziram alguns efeitos.
- A virtude inclui conhecer as situações perigosas e evitá-las ou preparar-se para elas.
Para pensar
Em que situação você já fez algo que não faria “normalmente”? O que naquela situação o empurrou? O que faria diferente hoje, sabendo disso?
Teste rápido · 1 de 3
Aplique · 2 de 3
Confira · 3 de 3