Cerca de 700 milhões de pessoas vivem em pobreza extrema, abaixo da linha de cerca de dois dólares por dia, segundo o Banco Mundial. Milhões de crianças morrem por ano de causas evitáveis com remédios baratos. A ética global pergunta o que isso exige de quem vive com muito mais, e por que a resposta costuma ser tão menor do que a pergunta.
Uma analogia
Imagine que no seu prédio um vizinho morre todo mês por falta de um remédio que custa o valor de um jantar fora. Você provavelmente pagaria o remédio. A pobreza extrema é esse prédio, só que o vizinho mora longe e você não vê o rosto dele. A distância muda o que você sente; não muda o que ele perde.
Explicando para uma criança
Imagine que, com o dinheiro de um brinquedo, dá para comprar o remédio que salva uma criança que mora longe. Ela não aparece na sua rua, mas existe de verdade, e a vida dela vale tanto quanto a de qualquer amigo seu.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Reconstruir o argumento de Singer (a criança no lago) e o de Pogge (a injustiça das regras).
- Avaliar as objeções: distância, exigência, eficácia, instituições.
- Dizer o que uma pessoa pode fazer, com evidência.
Ajuda ter lido: Consequencialismo: quando o resultado pesa mais, Fazer e deixar acontecer: o viés de omissão.
Antes de ler: o que você faria?
Você passa por um lago raso onde uma criança se afoga. Salvar estraga seus sapatos de 300 reais.
Você salva, claro. Agora: 300 reais doados a uma organização eficaz têm chance real de salvar uma vida distante. O que muda entre os dois casos?
Ver o que a lição responde
A distância, o rosto, a certeza, a quantidade de pessoas que poderiam ajudar. Singer pergunta se alguma dessas diferenças é moralmente relevante. A lição apresenta o argumento, o de Pogge e as objeções.
O argumento de Singer
Peter Singer formulou em 1972 o argumento que organiza o debate: se podemos evitar algo muito ruim sem sacrificar nada de importância moral comparável, devemos fazê-lo. A pobreza extrema é muito ruim. Doar parte da renda a organizações eficazes a evita, ao custo de bens que não são comparáveis a uma vida. Logo, devemos doar. A criança no lago mostra que já aceitamos a premissa quando a vítima está perto.
O argumento de Pogge
Thomas Pogge chegou a uma conclusão parecida por um caminho deontológico. Para ele, a pobreza global não é só um mal que deixamos de aliviar: é um dano que ajudamos a causar, por meio de regras de comércio, dívida e recursos que favorecem países ricos e sustentam regimes corruptos. Se é assim, não se trata de caridade, e sim de reparação, um dever negativo de não prejudicar, mais forte do que qualquer dever positivo de ajudar. Veja fazer e deixar acontecer.
O que dizem as teorias
| Teoria | O que exige | Limite reconhecido |
|---|---|---|
| Utilitarismo | Doar até que o custo para você se iguale ao benefício para o outro | Exige demais; versões práticas propõem uma porcentagem |
| Prioritarismo | Prioridade máxima a quem está pior, e os mais pobres do mundo estão pior | Quanto peso a mais, exatamente |
| Kant | Dever imperfeito de beneficência: ajudar é devido, com latitude sobre quanto e a quem | A latitude pode virar desculpa |
| Direitos (Pogge) | Parar de prejudicar e reparar o dano causado | Depende de mostrar a causa |
| Ética do cuidado | Atenção à vulnerabilidade, que não termina na fronteira | O cuidado distante é mais difícil de sustentar |
| Libertarismo | Nenhum dever forçado; ajudar é louvável, não obrigatório | Não explica por que o lago e a distância seriam diferentes |
As objeções
- “A ajuda não funciona.” Parte dela não funcionou: ajuda entre governos foi desperdiçada ou desviada. Mas intervenções específicas, como redes contra a malária, vermífugos e transferências diretas de dinheiro, têm efeito medido em estudos controlados. Avaliadores como o GiveWell estimam que algumas salvam uma vida por alguns milhares de dólares.
- “Cria dependência.” Transferências diretas de dinheiro, estudadas em vários países, aumentaram consumo, investimento e trabalho, não a dependência. O argumento vale contra formas ruins de ajuda, não contra a ajuda.
- “Primeiro os pobres daqui.” Há pobreza no Brasil, e ela conta. Mas o mesmo valor alivia muito mais sofrimento onde a pobreza é extrema, e o lugar de nascimento não é uma razão moral para que uma vida valha menos. Veja tribalismo moral.
- “Exige demais.” A objeção mais séria, discutida em quanto a moral pode exigir. A resposta prática é uma meta realista e crescente, não a culpa.
- “É dever do Estado, não meu.” Também é dever do Estado. Mas quem morre enquanto o Estado não age não é ajudado por essa divisão de tarefas.
Pobreza e outros círculos
A ética da pobreza tem a mesma estrutura dos outros temas do curso: alguém sofre, nós podemos reduzir o sofrimento, e uma diferença (a distância, a fronteira) é tratada como relevante sem ser. As mesmas organizações que avaliam a ajuda humana começaram a avaliar a defesa animal pelo mesmo critério: quanto sofrimento cada real evita. Veja ética animal na prática.
O que uma pessoa pode fazer
- Doar com evidência: escolher organizações avaliadas por resultado, não por emoção.
- Doar uma porcentagem: o compromisso de 10% do altruísmo eficaz, ou menos, mas regular.
- Apoiar regras melhores: comércio, patentes de remédios, paraísos fiscais e dívida afetam mais pessoas do que qualquer doação.
- Não se paralisar: a diferença entre o ideal e o nada é imensa, e cada passo salva alguém.
Para guardar
- Singer: se salvar com custo pequeno é devido no lago, é devido à distância; Pogge: os ricos sustentam regras que empobrecem, e devem reparar.
- As objeções (distância, exigência, eficácia, instituições) têm respostas, e a mais forte é a da exigência.
- Algumas intervenções têm efeito grande e medido; escolher onde doar importa centenas de vezes.
Para pensar
Quanto você gastou este mês com coisas de que não precisava? Que fração disso, doada a uma organização eficaz, você estaria disposto a comprometer todo mês?
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