Debates / Vida pessoal e relações
Perdoar é um dever?
Perdoar quem não se arrependeu, perdoar em nome de outros, perdoar o imperdoável. O que o perdão é, quando é devido e quando é uma traição à vítima.
Perdoar é abrir mão do ressentimento e da cobrança contra quem nos fez mal, sem negar que o mal foi feito. Quase todas as tradições o elogiam; a filosofia pergunta se ele pode ser exigido, se depende do arrependimento do outro, e se há atos que não se devem perdoar. O tema cruza a ética das emoções (o ressentimento tem valor?), a justiça (perdoar cancela a punição?) e o cuidado de si (perdoar liberta quem perdoa?).
Antes de ler: para que lado você pende?
As perspectivas
O perdão é uma virtude, às vezes um dever
- Tradições religiosas (o cristianismo acima de todas, mas também o budismo e o judaísmo com condições) fazem do perdão um dever: quem foi perdoado deve perdoar, e o ressentimento corrói quem o guarda.
- Bem de quem perdoa: a psicologia mostra que o ressentimento prolongado faz mal a quem o sente; perdoar é, entre outras coisas, parar de dar ao agressor o poder de ocupar a mente da vítima.
- Relações: sem perdão, nenhuma relação duradoura sobrevive, porque todos falham; o perdão é o que permite recomeçar sem fingir que nada aconteceu.
- Paz coletiva: comissões de verdade e reconciliação (África do Sul) mostraram que sociedades que trocam parte da punição por verdade e perdão podem sair de conflitos que a vingança perpetuaria.
O perdão é um dom, não um dever, e tem condições
- Perdoar é prerrogativa da vítima: ninguém pode perdoar em nome de outro, e exigir o perdão da vítima é uma segunda violência (Jean Améry, sobrevivente de Auschwitz, defendeu o direito ao ressentimento).
- Sem arrependimento, perdoar pode ser condescendência: trata o agressor como alguém de quem não se espera melhor, e deixa a injustiça sem resposta (Jeffrie Murphy).
- O ressentimento tem valor moral: é a emoção que reconhece que fomos tratados como menos do que somos; abrir mão dele cedo demais é desrespeitar a si mesmo.
- Há o imperdoável: para Jankélévitch, certos crimes excedem o que o perdão pode abranger; Derrida respondeu que só o imperdoável pede de fato perdão, e que isso o torna impossível e necessário ao mesmo tempo.
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
O que cada teoria tende a dizer
| Ética das virtudes | O perdão é a virtude entre o rancor e a complacência; o virtuoso sabe quando e a quem. |
|---|---|
| Deontologia kantiana | O ressentimento reconhece a dignidade violada; perdoar sem arrependimento pode desrespeitá-la. |
| Utilitarismo clássico | Perdoe quando reduz sofrimento (o seu, o do outro, o do ciclo de vingança); não quando encoraja o dano. |
| Ética do cuidado | As relações exigem reparação e recomeço; o perdão é parte do cuidado, não uma renúncia. |
| Ética budista | O ressentimento é veneno que se bebe esperando que o outro adoeça; soltar é compaixão por si e pelo outro. |
| Teoria do mandamento divino | Perdoar é dever para quem foi perdoado por Deus; a tradição varia quanto às condições. |
Por que é complexo
- Perdão e punição são coisas diferentes: a vítima pode perdoar e o Estado punir, ou a vítima não perdoar e o Estado aplicar a pena justa. O perdão cancela o ressentimento, não a justiça.
- A distinção entre perdoar (o que só a vítima faz) e deixar de odiar (o que qualquer um pode fazer por si) resolve parte do debate: o segundo pode ser um dever para consigo; o primeiro, não é exigível de ninguém.
- Perdão condicional (ao arrependimento) e incondicional (como dom) não se excluem: o primeiro é o padrão das relações justas; o segundo é supererrogatório, admirável e não devido.
Onde a razão pesa
O peso está com tratar o perdão como dom e virtude, não como dever exigível: só a vítima pode perdoar, ninguém tem direito ao perdão dela, e o ressentimento tem um valor moral que não se deve apagar sob pressão. Ao mesmo tempo, abrir mão do ódio quando ele só corrói, perdoar quem se arrependeu e reparou, e preferir a reconciliação à vingança são disposições que quase todas as teorias elogiam, e que fazem bem a quem as cultiva. O perdão não cancela a justiça; corre em paralelo a ela.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.
E agora, depois de ler?
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
Lições relacionadas: Emoções morais: culpa, vergonha, indignação, nojo e perdão, A ética do cuidado, As éticas religiosas: o que cada tradição ensina, Aristóteles, a vida boa e as virtudes.
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