Nem toda teoria aceita que exista um critério moral válido para todos. O egoísmo ético coloca o próprio interesse no centro; o relativismo diz que certo e errado dependem de quem julga; o ceticismo duvida que haja resposta. Elas são mais populares em conversas do que em filosofia, e por boas razões.
Uma analogia
Imagine um termômetro em que cada pessoa decide o número. Ninguém poderia dizer que hoje está mais quente do que ontem. O relativismo moral faz algo parecido com o certo e o errado: se tudo depende de quem olha, não existe melhorar nem piorar, e a abolição da escravidão vira só uma mudança de gosto.
Explicando para uma criança
Se cada criança inventasse a própria regra e ninguém pudesse dizer que empurrar o colega é errado, a escola viraria uma bagunça injusta, e quem sofre seria quem é empurrado. Algumas regras valem para todo mundo.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Distinguir egoísmo psicológico (como as pessoas são) de egoísmo ético (como deveriam ser).
- Explicar por que o relativismo cultural não consegue condenar nem a reforma nem a intolerância.
- Dizer o que o ceticismo normativo afirma e por que quase ninguém vive de acordo com ele.
Ajuda ter lido: Resultado, regra ou caráter? O mapa das teorias.
Antes de ler: o que você faria?
“Quem sou eu para julgar outra cultura?”, diz alguém sobre uma prática que mutila meninas.
Se a frase fosse verdadeira, o que ela diria sobre quem, dentro dessa cultura, luta contra a prática? E sobre o fim da escravidão?
Ver o que a lição responde
O relativismo cultural torna o reformador sempre errado, porque ele discorda da própria cultura, e torna o progresso moral impossível por definição. A lição mostra o que cada uma das três posições diz e onde cada uma falha.
Egoísmo ético
O egoísmo psicológico é uma tese de fato: as pessoas sempre agem por interesse próprio. O egoísmo ético é uma tese de valor: cada pessoa deve agir pelo próprio interesse. São coisas diferentes, e a primeira é provavelmente falsa: pessoas se sacrificam por estranhos, e dizer que “no fundo” fizeram isso por prazer esvazia a palavra interesse.
O egoísmo ético tem um argumento sério: cada um conhece melhor as próprias necessidades, e um mundo em que todos cuidam de si pode funcionar bem. Mas enfrenta problemas:
- Não resolve conflitos: se o meu interesse e o seu colidem, a teoria manda cada um vencer o outro. Não é uma moral, é a ausência de uma.
- É arbitrário: por que a minha dor conta e a sua não, se são iguais? A única diferença é que uma é minha. Isso é tão arbitrário quanto dizer que só a dor dos ruivos conta.
- Quase ninguém o defende em público: o egoísta que convence os outros a serem altruístas vive melhor. Uma teoria que não pode ser recomendada tem algo errado.
Relativismo moral
O relativismo descritivo observa que sociedades diferem sobre o que é certo. É verdade, embora menos do que parece: proibições a matar, roubar e traiçoar aparecem em todas, e as diferenças costumam estar nos fatos (“o que acontece depois da morte?”) e no círculo de quem conta. O relativismo normativo vai além: diz que cada cultura, ou cada pessoa, tem a sua verdade moral, e que não cabe julgar de fora.
| O que o relativismo acerta | Onde falha |
|---|---|
| Humildade: nossa cultura também tem pontos cegos | Impede dizer que a escravidão era errada, e não só “diferente” |
| Muita coisa é mesmo convenção, como vestir-se ou comer | Trata o sofrimento de uma vítima como “cultura” de quem a oprime |
| Julgar de fora já serviu para dominar | Não permite progresso: se cada época está certa por definição, nada melhora |
| Tolerância é um valor importante | Mas é um valor que o relativista quer que valha para todos, o que o contradiz |
A pergunta que derruba o relativismo cultural é simples: quem fala pela cultura? Dentro de qualquer sociedade há quem discorda, e quase sempre é quem sofre com a prática. Veja relativismo e quietismo no nível Avançado.
Ceticismo normativo
O cético diz que talvez não haja fato nenhum sobre o que é certo, e que juízos morais só expressam atitudes. É uma posição séria em metaética, discutida no Avançado. Mas ela não dispensa ninguém de agir: o cético também decide se mente, se ajuda, se come carne. Por isso o Teste de Visão Moral pergunta ao cético qual é a sua tendência prática. Mesmo quem duvida da teoria tem uma prática, e ela pode ser mais ou menos coerente.
Por que estudar posições que a maioria rejeita
Porque elas aparecem disfarçadas. “Quem sou eu para julgar?” costuma ser relativismo usado só quando a conclusão incomoda. “Todo mundo pensa em si” costuma ser egoísmo psicológico usado para desculpar o egoísmo ético. Reconhecer a posição ajuda a responder a ela.
Para guardar
- Egoísmo psicológico (como as pessoas são) não implica egoísmo ético (como devem ser), e a evidência contradiz o primeiro.
- O relativismo cultural torna o reformador sempre errado e o progresso impossível; a tolerância precisa de uma base que ele não dá.
- O cético normativo diz que nenhum juízo é mais justificado; na prática, até ele se indigna com injustiças.
Para pensar
“Quem sou eu para julgar?” Pense numa prática de outra cultura que você considera errada. Você consegue dizer por quê sem usar “na minha cultura”?
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