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Parcialidade: até onde cuidar mais dos seus?

Você deve mais ao seu filho do que a um estranho. Quase todos concordam. A pergunta é por quê, e onde a parcialidade legítima vira exclusão.

InicianteCírculo moralFundamentos4 min de leitura

A imparcialidade diz que interesses iguais contam igual. Mas ninguém vive assim: damos mais à família, aos amigos, a quem nos ajudou. Isso é uma falha da imparcialidade, uma falha nossa, ou há deveres especiais que a imparcialidade mesma reconhece?

Uma analogia

Em um hospital, cada médico cuida dos seus pacientes, não de todos os do mundo. Isso é parcialidade, e é bom: o sistema funciona assim. Mas nenhum médico pode prejudicar o paciente do colega para favorecer o seu. A parcialidade legítima é a do médico; o tribalismo seria a de quem sabota a outra ala.

Explicando para uma criança

É normal cuidar mais dos seus amigos e da sua família. O que não pode é ser mau com os outros por causa disso, nem fingir que eles não existem. Cuidar mais dos seus e cuidar bem de todos são coisas que cabem juntas.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Explicar de onde vêm os deveres especiais (relações, promessas, papéis).
  • Mostrar como uma ética imparcial pode justificar a parcialidade.
  • Dizer onde a parcialidade legítima vira exclusão.

Ajuda ter lido: Imparcialidade: a regra de ouro, o véu e a universalidade.

Antes de ler: o que você faria?

Você tem dinheiro para um presente de aniversário do seu filho ou para uma doação que livraria uma criança desconhecida de uma doença.

Quase todos compram o presente. Isso é um erro moral, ou há uma razão legítima? E se fosse o quarto presente do mês?

Ver o que a lição responde

Há razão: os vínculos são parte de uma vida boa e de uma sociedade que funciona, e a imparcialidade pode justificar que cada um cuide dos seus. Mas a razão tem limite, e o quarto presente contra a vida de uma criança o ultrapassa. A lição busca esse limite.

O problema

William Godwin, no século XVIII, propôs um caso: em um incêndio, você pode salvar um grande benfeitor da humanidade ou a sua mãe. Godwin disse que a imparcialidade manda salvar o benfeitor. Quase todo mundo recua. Bernard Williams respondeu com outro caso: um homem pode salvar a esposa ou um estranho, e pensa “é minha esposa, e a moral permite que eu a prefira”. Para Williams, esse “e a moral permite” é um pensamento a mais: quem ama não consulta a teoria antes de agir.

De onde vêm os deveres especiais

FonteExemploO que gera
Promessas e acordosCasamento, contrato, compromissoDever de cumprir o prometido
Relações em cursoAmizade, parceriaDever de atenção e lealdade, na medida da relação
Dependência que criamosFilhos, animais que adotamosDever de cuidado: nós os colocamos em dependência
Benefícios recebidosPais que cuidaram, quem nos ajudouGratidão
Instituições compartilhadasConcidadãosDeveres recíprocos, mais fracos

Como a imparcialidade acomoda a parcialidade

A maioria das teorias chega a uma posição em dois níveis: a imparcialidade vale para as regras, e as regras permitem parcialidade.

  • Consequencialismo: um mundo em que cada um cuida dos seus é melhor do que um em que todos tentam cuidar de todos sem conhecer ninguém. Os deveres especiais são aprovados pela imparcialidade de segundo nível.
  • Kant: a beneficência é um dever imperfeito, com latitude para escolher a quem; os deveres perfeitos (não mentir, não usar) valem para todos igualmente.
  • Contratualismo: sob o véu, todos querem ser cuidados por alguém; logo, todos aceitam regras que permitem cuidar mais dos seus.
  • Virtudes e cuidado: a parcialidade não é exceção, é o ponto de partida; o problema é expandi-la, não eliminá-la.

O limite

A parcialidade legítima tem dois limites que a separam do tribalismo:

  1. Ela permite dar mais; não permite tratar os outros como se não contassem. Cuidar mais do próprio filho não autoriza prejudicar o filho dos outros, nem ignorar uma criança que se afoga porque não é sua.
  2. Ela se baseia em relações, não em traços. Preferir quem você conhece é parcialidade; preferir quem tem sua cor, sua nação ou sua espécie é discriminação. A diferença: a relação é algo que existe entre vocês; o traço é algo que a pessoa é.

A nacionalidade fica na fronteira: há instituições compartilhadas (relação), mas também um traço de nascimento. A maioria dos filósofos aceita alguma prioridade aos compatriotas por razões institucionais, e rejeita que a vida de um estrangeiro valha menos. Veja o debate sobre fronteiras.

Quanto a mais?

Não há fórmula, mas há um teste: a prioridade aos seus deve ser a que você aceitaria que todos dessem aos seus. Um pai que gasta em aula de piano enquanto outras crianças passam fome está dentro do que todos aceitam; um pai que suborna um juiz pelo filho, não. O teste de universalidade decide.

Para guardar

  • Deveres especiais nascem de relações, promessas e papéis, e são reais.
  • Uma ética imparcial justifica a parcialidade: um mundo em que cada um cuida dos seus é melhor para todos.
  • A parcialidade vira exclusão quando serve para negar aos de fora a consideração mínima que lhes é devida.

Para pensar

Quanto a mais você deve aos seus do que a um estranho? Tente dar um número ou uma regra. Onde a sua regra deixa de ser cuidado e vira indiferença pelos outros?

Erro comum: “Se a imparcialidade é o ideal, amar os seus é uma falha moral.” A imparcialidade de segundo nível justifica a parcialidade de primeiro: um mundo em que cada um cuida dos seus com dedicação é melhor para todos do que um em que ninguém cuida de ninguém em particular. O que ela proíbe é usar os vínculos para excluir.
Pratique: Simulador do véu da ignorância. Escolha as regras de uma sociedade sem saber quem você será nela. Depois, descubra.
Dilemas para testar: A criança no lago.

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