A ética como reflexão organizada tem cerca de 2.500 anos, e começou em vários lugares ao mesmo tempo: na Grécia, na Índia e na China, entre os séculos VI e IV a.C. Esta lição é um mapa do tempo, para que você saiba onde cada teoria e cada filósofo do site se encaixam.
Uma analogia
Pense em um rio com vários afluentes: Grécia, Índia e China nascem separados, se juntam e se separam de novo. Olhar o mapa do rio não substitui beber a água, mas evita confundir a nascente com a foz.
Explicando para uma criança
Há muito tempo, pessoas em lugares diferentes do mundo começaram a perguntar “o que é ser bom?”. Cada época deu uma resposta um pouco diferente, e as respostas de hoje são filhas das antigas. Saber a história ajuda a entender de onde cada ideia veio.
Ao fim desta lição, você vai conseguir
- Situar as grandes perguntas da ética em cinco períodos.
- Explicar o que mudou na modernidade: a moral sem Deus como premissa.
- Reconhecer que o século XX se voltou para a metaética e o XXI para as fronteiras do círculo.
Ajuda ter lido: O que é ética?.
Antes de ler: o que você faria?
Sócrates, Confúcio e o Buda viveram com poucas décadas de diferença, em lugares que não se conheciam, e os três perguntaram como viver bem.
Por que a mesma pergunta nasceu em três lugares ao mesmo tempo? O que isso sugere sobre a ética?
Ver o que a lição responde
Sociedades complexas, com cidades, comércio e desigualdade, produziram o conflito entre costume e razão, e a pergunta nasceu dele. A lição mostra que as perguntas mudaram menos do que as respostas.
Antiguidade: como viver bem
| Quando | Quem | A pergunta e a resposta |
|---|---|---|
| Século VI a.C. | Confúcio, Laozi | Como viver em harmonia? Pela benevolência, pelo ritual e pelo exemplo (Confúcio); pelo não forçar (Laozi). |
| Século V a.C. | Buda, Mahavira | Como cessar o sofrimento? Pelo caminho ético e pela compaixão com todos os seres (budismo); pela não violência radical (jainismo). |
| Século V a.C. | Mozi | O cuidado deve ser imparcial: amar todos igualmente, e julgar práticas pelos benefícios. O primeiro consequencialista. |
| Século V a.C. | Sócrates, Platão | O que é a justiça, e vale por si? Sim: a alma justa vive em ordem. Conhecer o bem é condição de fazê-lo. |
| Século IV a.C. | Aristóteles | O que é uma vida boa? O florescimento pela virtude, aprendida pelo hábito e guiada pela sabedoria prática. |
| Séculos IV a III a.C. | Epicuro, Zenão | O prazer tranquilo e a amizade (epicurismo); a virtude como único bem e a aceitação do que não depende de nós (estoicismo). |
O traço comum da ética antiga: a pergunta central é que vida vale a pena viver, e a resposta passa pelo caráter. Regras e consequências aparecem, mas não são o centro.
Idade Média: a moral e Deus
Com o cristianismo, o judaísmo rabínico e o islã, a ética passa a dialogar com a revelação. Agostinho (século V) liga a moral à vontade e ao amor a Deus. Maimônides e Al-Ghazali (séculos XI e XII) tentam conciliar Aristóteles com a lei religiosa. Tomás de Aquino (século XIII) faz a síntese: a razão pode conhecer o bem pela lei natural, e a revelação a completa. O dilema de Eutífron atravessa o período.
Modernidade: a moral sem Deus como premissa
| Quando | Quem | A ideia |
|---|---|---|
| 1651 | Hobbes | A moral como pacto entre interessados em paz: o contrato social. |
| 1739–1751 | Hume | A razão não motiva; a moral vem do sentimento e da simpatia. Do “é” não se tira o “deve”. |
| 1759 | Adam Smith | O espectador imparcial: julgamos bem quando imaginamos como um observador justo nos veria. |
| 1785 | Kant | A moral vem da razão: o imperativo categórico e a pessoa como fim em si. |
| 1789 | Bentham | O utilitarismo: a maior felicidade para o maior número, contando quem pode sofrer, inclusive os animais. |
| 1841 | Schopenhauer | A compaixão como base da moral, estendida aos animais. |
| 1861–1874 | Mill, Sidgwick | O utilitarismo refinado: liberdade, prazeres superiores, o ponto de vista do universo. |
| 1887 | Nietzsche | A genealogia da moral: os valores têm história e interesses; é preciso criar valores. |
Século XX: o que é um juízo moral?
A primeira metade do século foi da metaética: Moore (1903) perguntou o que “bom” significa; Ayer (1936) respondeu que juízos morais são expressões de emoção; Hare (1952) que são prescrições universalizáveis; Mackie (1977) que são todos falsos. O existencialismo de Sartre e Beauvoir colocou a liberdade e a responsabilidade no centro, e Arendt, depois do Holocausto, perguntou como pessoas comuns participam do mal.
A segunda metade reabriu a ética normativa: Anscombe (1958) trouxe de volta as virtudes; Rawls (1971) relançou o contrato social com o véu da ignorância; Nozick (1974) respondeu com os direitos; Singer (1975) estendeu a igualdade aos animais; Gilligan (1982) fundou a ética do cuidado; Parfit (1984) abriu a ética populacional; Habermas formulou a ética do discurso; Scanlon (1998) o contratualismo da justificabilidade.
Século XXI: fronteiras
As perguntas abertas de hoje são sobre as fronteiras do círculo: animais selvagens, gerações futuras, mentes artificiais; sobre como agir sob incerteza sobre a própria teoria; sobre o que a psicologia e a evolução dizem da confiabilidade das nossas intuições; e sobre os riscos de longo prazo. Korsgaard, Nussbaum, Horta, Ord e Baumann estão entre os nomes dessa geração.
O que mudou e o que não mudou
- Mudou o centro: da vida boa (Antiguidade) para a lei divina (Idade Média), para a regra e o resultado (Modernidade), para o significado do juízo (século XX), para quem conta (hoje).
- Mudou o círculo: de cidadãos livres (Aristóteles aceitava a escravidão) para todos os humanos, e agora para além deles. Mozi, Buda e Mahavira estavam, nisso, à frente do Ocidente.
- Não mudou a pergunta: como devo agir, e por quê? Nem o método: argumentos, casos e coerência.
Para guardar
- As perguntas mudaram menos do que as respostas: como viver bem, o que devemos, quem conta.
- A modernidade fundou a moral sem Deus como premissa; o século XX perguntou o que é um juízo moral; o XXI discute as fronteiras do círculo.
- O que mais avançou com clareza foi o círculo de quem conta; as teorias normativas seguem em disputa.
Para pensar
Se um filósofo de 2200 olhasse para nós como olhamos para os romanos, que prática nossa ele teria mais dificuldade de entender?
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