Ética
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Uma breve história da ética

De Confúcio e Sócrates a Parfit e Singer: as perguntas mudaram menos do que as respostas. Um mapa do tempo para situar cada lição.

InicianteFundamentos5 min de leitura

A ética como reflexão organizada tem cerca de 2.500 anos, e começou em vários lugares ao mesmo tempo: na Grécia, na Índia e na China, entre os séculos VI e IV a.C. Esta lição é um mapa do tempo, para que você saiba onde cada teoria e cada filósofo do site se encaixam.

Uma analogia

Pense em um rio com vários afluentes: Grécia, Índia e China nascem separados, se juntam e se separam de novo. Olhar o mapa do rio não substitui beber a água, mas evita confundir a nascente com a foz.

Explicando para uma criança

Há muito tempo, pessoas em lugares diferentes do mundo começaram a perguntar “o que é ser bom?”. Cada época deu uma resposta um pouco diferente, e as respostas de hoje são filhas das antigas. Saber a história ajuda a entender de onde cada ideia veio.

Ao fim desta lição, você vai conseguir

  • Situar as grandes perguntas da ética em cinco períodos.
  • Explicar o que mudou na modernidade: a moral sem Deus como premissa.
  • Reconhecer que o século XX se voltou para a metaética e o XXI para as fronteiras do círculo.

Ajuda ter lido: O que é ética?.

Antes de ler: o que você faria?

Sócrates, Confúcio e o Buda viveram com poucas décadas de diferença, em lugares que não se conheciam, e os três perguntaram como viver bem.

Por que a mesma pergunta nasceu em três lugares ao mesmo tempo? O que isso sugere sobre a ética?

Ver o que a lição responde

Sociedades complexas, com cidades, comércio e desigualdade, produziram o conflito entre costume e razão, e a pergunta nasceu dele. A lição mostra que as perguntas mudaram menos do que as respostas.

Antiguidade: como viver bem

QuandoQuemA pergunta e a resposta
Século VI a.C.Confúcio, LaoziComo viver em harmonia? Pela benevolência, pelo ritual e pelo exemplo (Confúcio); pelo não forçar (Laozi).
Século V a.C.Buda, MahaviraComo cessar o sofrimento? Pelo caminho ético e pela compaixão com todos os seres (budismo); pela não violência radical (jainismo).
Século V a.C.MoziO cuidado deve ser imparcial: amar todos igualmente, e julgar práticas pelos benefícios. O primeiro consequencialista.
Século V a.C.Sócrates, PlatãoO que é a justiça, e vale por si? Sim: a alma justa vive em ordem. Conhecer o bem é condição de fazê-lo.
Século IV a.C.AristótelesO que é uma vida boa? O florescimento pela virtude, aprendida pelo hábito e guiada pela sabedoria prática.
Séculos IV a III a.C.Epicuro, ZenãoO prazer tranquilo e a amizade (epicurismo); a virtude como único bem e a aceitação do que não depende de nós (estoicismo).

O traço comum da ética antiga: a pergunta central é que vida vale a pena viver, e a resposta passa pelo caráter. Regras e consequências aparecem, mas não são o centro.

Idade Média: a moral e Deus

Com o cristianismo, o judaísmo rabínico e o islã, a ética passa a dialogar com a revelação. Agostinho (século V) liga a moral à vontade e ao amor a Deus. Maimônides e Al-Ghazali (séculos XI e XII) tentam conciliar Aristóteles com a lei religiosa. Tomás de Aquino (século XIII) faz a síntese: a razão pode conhecer o bem pela lei natural, e a revelação a completa. O dilema de Eutífron atravessa o período.

Modernidade: a moral sem Deus como premissa

QuandoQuemA ideia
1651HobbesA moral como pacto entre interessados em paz: o contrato social.
1739–1751HumeA razão não motiva; a moral vem do sentimento e da simpatia. Do “é” não se tira o “deve”.
1759Adam SmithO espectador imparcial: julgamos bem quando imaginamos como um observador justo nos veria.
1785KantA moral vem da razão: o imperativo categórico e a pessoa como fim em si.
1789BenthamO utilitarismo: a maior felicidade para o maior número, contando quem pode sofrer, inclusive os animais.
1841SchopenhauerA compaixão como base da moral, estendida aos animais.
1861–1874Mill, SidgwickO utilitarismo refinado: liberdade, prazeres superiores, o ponto de vista do universo.
1887NietzscheA genealogia da moral: os valores têm história e interesses; é preciso criar valores.

Século XX: o que é um juízo moral?

A primeira metade do século foi da metaética: Moore (1903) perguntou o que “bom” significa; Ayer (1936) respondeu que juízos morais são expressões de emoção; Hare (1952) que são prescrições universalizáveis; Mackie (1977) que são todos falsos. O existencialismo de Sartre e Beauvoir colocou a liberdade e a responsabilidade no centro, e Arendt, depois do Holocausto, perguntou como pessoas comuns participam do mal.

A segunda metade reabriu a ética normativa: Anscombe (1958) trouxe de volta as virtudes; Rawls (1971) relançou o contrato social com o véu da ignorância; Nozick (1974) respondeu com os direitos; Singer (1975) estendeu a igualdade aos animais; Gilligan (1982) fundou a ética do cuidado; Parfit (1984) abriu a ética populacional; Habermas formulou a ética do discurso; Scanlon (1998) o contratualismo da justificabilidade.

Século XXI: fronteiras

As perguntas abertas de hoje são sobre as fronteiras do círculo: animais selvagens, gerações futuras, mentes artificiais; sobre como agir sob incerteza sobre a própria teoria; sobre o que a psicologia e a evolução dizem da confiabilidade das nossas intuições; e sobre os riscos de longo prazo. Korsgaard, Nussbaum, Horta, Ord e Baumann estão entre os nomes dessa geração.

O que mudou e o que não mudou

  • Mudou o centro: da vida boa (Antiguidade) para a lei divina (Idade Média), para a regra e o resultado (Modernidade), para o significado do juízo (século XX), para quem conta (hoje).
  • Mudou o círculo: de cidadãos livres (Aristóteles aceitava a escravidão) para todos os humanos, e agora para além deles. Mozi, Buda e Mahavira estavam, nisso, à frente do Ocidente.
  • Não mudou a pergunta: como devo agir, e por quê? Nem o método: argumentos, casos e coerência.

Para guardar

  • As perguntas mudaram menos do que as respostas: como viver bem, o que devemos, quem conta.
  • A modernidade fundou a moral sem Deus como premissa; o século XX perguntou o que é um juízo moral; o XXI discute as fronteiras do círculo.
  • O que mais avançou com clareza foi o círculo de quem conta; as teorias normativas seguem em disputa.

Para pensar

Se um filósofo de 2200 olhasse para nós como olhamos para os romanos, que prática nossa ele teria mais dificuldade de entender?

Erro comum: “A ética foi progredindo até chegar à resposta certa de hoje.” A história mostra perguntas que voltam e respostas que se refinam, não uma linha reta. O que avançou com mais clareza foi o círculo de quem conta; as teorias normativas continuam em disputa.
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