Debates / Vida e morte
Tirar a vida de um ser senciente: qual é o dano da morte?
Se a morte é indolor, o que ela tira de quem morre? A resposta decide o que pensar de eutanásia, aborto, abate e guerra.
Quase todo mundo acha que matar é grave. Mas é difícil dizer por quê, se a morte em si não é sentida: quem morre não sofre a própria ausência. Epicuro concluiu que a morte não é um mal para quem morre. A maioria dos filósofos atuais discorda, e a explicação que dão, o que a morte priva, tem consequências para humanos e para os outros animais.
Antes de ler: para que lado você pende?
As perspectivas
A morte é um dano para quem morre
- Privação (Nagel, Feldman, Bradley): a morte é má porque tira o bem que a vida ainda teria, como um sono do qual não se acorda tira os dias seguintes. Não precisa ser sentida para ser uma perda, assim como uma traição nunca descoberta ainda é uma traição.
- Interesses e desejos: um ser com planos, vínculos e desejos sobre o futuro tem esses desejos frustrados pela morte, mesmo que não saiba (Singer, para seres autoconscientes).
- Graus (McMahan): o dano da morte depende de quanto futuro bom se perde e de quão ligado o ser está a esse futuro por memória, intenção e desejo; por isso a morte de um adulto jovem costuma ser pior do que a de alguém no fim da vida ou de um ser sem senso de futuro, sem deixar de ser um dano.
- Para os animais: um animal que teria uma vida boa perde essa vida quando é morto, por mais indolor que seja o abate. “Vida feliz e morte sem dor” ainda é uma vida interrompida.
A morte não é um dano, ou é um dano menor do que parece
- Epicuro e Lucrécio: onde a morte está, eu não estou; não há sujeito para ser prejudicado, e não temíamos o tempo anterior ao nascimento, que é simétrico.
- Resposta à privação: comparar “a vida que teria” exige um sujeito que a perde; depois da morte, não há ninguém em pior situação.
- Substituibilidade: se o que importa é a quantidade de bem no mundo, um ser morto e substituído por outro igualmente feliz não reduz o total. O próprio Singer defendeu isso para seres sem autoconsciência, e depois passou a duvidar.
- Morte boa: quando a vida que resta é só sofrimento, a morte deixa de ser privação e passa a ser alívio; a eutanásia voluntária parte daí.
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
O que cada teoria tende a dizer
| Utilitarismo clássico | A morte é má pelo bem que deixa de existir; a substituibilidade é a consequência incômoda. |
|---|---|
| Utilitarismo de preferências | Matar frustra o desejo de continuar vivendo; o dano cresce com os planos do ser. |
| Deontologia de direitos | Todo sujeito de uma vida tem direito a ela; matar sem dor continua violando-o (Regan). |
| Sencientismo | A perda do futuro conta para qualquer ser que o teria vivido com bem-estar, sem distinção de espécie. |
| Gradualismo | O dano da morte varia com a ligação do ser ao próprio futuro (McMahan). |
| Ética exclusivamente negativa | A morte sem dor não acrescenta sofrimento; o problema moral está na vida ruim antes dela, e na dor da morte violenta. |
Por que é complexo
- A simetria de Lucrécio tem resposta: antes de nascer não havia ninguém com um futuro a perder; na morte, há alguém que perde o futuro. A assimetria entre passado e futuro é um fato sobre nós, não um erro.
- A substituibilidade só funciona para quem vê os indivíduos como recipientes de bem. Para quem acha que o ser que existe conta por si, substituir não compensa: o frango morto não é poupado pelo frango que nasce.
- A conta de privação não implica que toda morte seja igualmente má, nem que seja sempre má: ela diz que matar um ser com futuro bom tira algo dele, e isso é o que a maioria das teorias chama de dano.
Onde a razão pesa
O peso está com a conta da privação: a morte prejudica quem morre porque tira o bem que a vida ainda teria, mesmo sem ser sentida, e isso vale em graus para todo ser senciente com um futuro bom, humano ou não. A posição epicurista aponta um problema real (quem é o sujeito do dano?) mas leva a conclusões que quase ninguém aceita, como a de que matar sem dor não lesa ninguém. O que fica em aberto é o peso: quanto o dano cresce com os planos, os vínculos e a duração do futuro perdido, e se a substituição alguma vez compensa.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências e argumentos novos podem mudá-la.
E agora, depois de ler?
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção, e essa pessoa tem voz?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
Lições relacionadas: Senciência: o que é, quem tem e como sabemos, Especismo e a igual consideração de interesses, O que torna uma vida boa? As teorias do bem-estar, Ética populacional e a conclusão repugnante, O peso do sofrimento diante do prazer.
No mesmo tema
Eutanásia e suicídio assistido
Uma pessoa lúcida, com doença incurável e sofrimento intenso, pode pedir ajuda para morrer? Quem pode ajudá-la?
Debate em abertoAborto
O debate mais polarizado da ética aplicada, e um dos mais bem estruturados: tudo depende de duas perguntas, e elas são diferentes.
A razão pesa para um lado, com ressalvasPena de morte
O Estado pode matar quem cometeu o pior dos crimes? Merecimento de um lado, erro irreversível e falta de efeito do outro.