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Dilemas / Quem conta

O sorites: o paradoxo do monte

Um grão não faz um monte; mais um grão também não; logo, nenhum número de grãos faz um monte. O paradoxo que atravessa o aborto, o gradualismo e a senciência.

Origem: Eubúlides de Mileto, século IV a.C.

Um grão de areia não é um monte. Acrescentar um grão a algo que não é monte não o torna monte. Logo, por indução, dez mil grãos não são um monte. Mas são.

Se não há um ponto exato em que o monte começa, segue-se que não há montes?

O que cada teoria tende a dizer

SencientismoNão há ponto exato em que um feto, ou uma espécie, passa a sentir; isso não significa que não há diferença entre o início e o fim. A vagueza pede cautela proporcional, não negação.
GradualismoAs capacidades variam em grau; o sorites mostra que graus sem linhas ainda são graus.
Deontologia absolutistaTenta fugir da vagueza fixando uma linha (a concepção, a espécie); o preço é a arbitrariedade da linha.
Utilitarismo clássicoLida bem com graus: pesa o que há de experiência, sem precisar de uma fronteira.

Tendências, não vereditos: dentro de cada teoria há variantes, e autores da mesma família discordam.

O que o caso ensina

Muitos argumentos morais têm a forma do sorites: “não há linha entre embrião e bebê, logo o embrião tem os direitos do bebê”, ou “não há linha entre humanos e animais, logo não há diferença”. O paradoxo ensina que a ausência de uma linha nítida não elimina a diferença entre os extremos, e que a resposta razoável a uma fronteira vaga é um peso crescente, não um corte arbitrário nem a negação da diferença.

Perguntas para pensar

  1. Qual foi a sua primeira reação, e que princípio ela expressa?
  2. Esse princípio vale em um caso parecido com os papéis trocados?
  3. O que mudaria a sua resposta?