A ideia central
O satanismo moderno não adora o diabo. Anton LaVey fundou a Igreja de Satã em 1966 e escreveu a Bíblia Satânica: Satã é um símbolo da carne, do orgulho e da rebeldia contra a culpa religiosa. Sua ética é um egoísmo racional: viva seus desejos, responda a quem o fere, não faça mal a quem não o fez, não desperdice amor com quem não o merece. As “nove declarações” e as “onze regras da Terra” misturam Nietzsche, Ayn Rand e darwinismo social. O Templo Satânico, de 2013, também é ateu, mas inverte o tom: seus sete princípios pedem compaixão e empatia com todas as criaturas, justiça acima de leis e instituições, inviolabilidade do próprio corpo, respeito à liberdade alheia e disposição de corrigir os próprios erros. É, na prática, um humanismo secular que usa a estética satânica para forçar a laicidade do Estado, com processos judiciais e monumentos em praças públicas. O satanismo teísta, que adora uma entidade, existe mas é minoritário e sem doutrina ética comum.
Referências
Anton LaVey, A Bíblia Satânica (1969); Lucien Greaves e o Templo Satânico (2013), com os sete princípios fundamentais; por trás deles, Nietzsche, Ayn Rand e o humanismo secular.
De onde veio
O “satanismo” foi, por séculos, uma acusação, não uma crença: inquisições e pânicos morais inventaram adoradores do diabo que não existiam. Poetas românticos como Blake e Shelley leram o Satã de Milton como herói da liberdade, e é dessa leitura literária que o satanismo moderno vem. LaVey a transformou em religião em 1966, no auge da contracultura. O pânico satânico dos anos 1980 e 1990, com acusações de rituais e sacrifícios, foi investigado pelo FBI e por pesquisadores e não encontrou um único caso comprovado. O Templo Satânico nasceu em 2013 como resposta à presença religiosa no Estado americano e cresceu como organização de ativismo pela separação entre religião e governo.
No dilema do bonde
LaVey: desvie se isso serve ao que você valoriza, e não aceite culpa por nenhuma das escolhas. Templo Satânico: a compaixão por todas as criaturas pede o menor dano, e o corpo do homem na passarela é inviolável: desviar sim, empurrar não. Entenda o dilema.
Pontos fortes: o que pode estar certo
- Diagnostica com precisão como a culpa religiosa pode ser usada para controlar pessoas, e recusa a ideia de que desejo e prazer sejam pecado.
- O Templo Satânico leva a sério a autonomia do corpo e a laicidade, e usa o próprio direito à liberdade religiosa para proteger a de todos.
- Expõe uma hipocrisia: regras morais que valem só para quem crê em um deus não são regras morais.
Objeções
- O egoísmo de LaVey tem o problema de todo egoísmo ético: não consegue dizer por que o seu interesse deve pesar mais que o de quem está diante de você, e fica sem resposta para quem é fraco e não pode “responder a quem o fere”.
- Boa parte da Bíblia Satânica é copiada de Might is Right, um panfleto de darwinismo social do século XIX; o que é novo é a estética, não a ética.
- O Templo Satânico diz pouco que o humanismo secular já não diga: o rótulo serve ao ativismo, mas não acrescenta uma teoria.
- A provocação funciona como marketing e afasta quem poderia concordar com o conteúdo.
O que dizem os críticos
Filósofos tratam o satanismo de LaVey como uma variante do egoísmo ético e do objetivismo de Ayn Rand, com os mesmos problemas; o Templo Satânico é lido como humanismo secular organizado como religião, mais relevante na disputa jurídica sobre laicidade do que na ética normativa. Pesquisadores de religião destacam que a imagem popular do satanismo vem de pânicos morais sem base, e que os satanistas reais são, em geral, ateus de classe média.
O que não é satanismo
Concepções erradas e espantalhos que costumam aparecer em conversas e debates, com a correção.
“Satanista adora o diabo e faz sacrifícios.”
As duas correntes principais são ateias: Satã é símbolo, não entidade. O pânico satânico dos anos 1980 e 1990 foi investigado e não encontrou um caso comprovado de ritual com sacrifício.
“Satanismo é fazer o mal.”
A ética de LaVey proíbe ferir quem não o feriu; os princípios do Templo Satânico pedem compaixão por todas as criaturas. O “mal” é a rebeldia contra a culpa religiosa, não a crueldade.
“Satanismo é uma coisa só.”
O satanismo de LaVey é egoísta e nietzschiano; o Templo Satânico é humanista e ativista; o satanismo teísta é religião minoritária. Discordam entre si mais do que se parecem.
“Quem ouve metal ou usa pentagrama é satanista.”
A estética satânica é usada por músicos, artistas e adolescentes sem nenhuma adesão à doutrina. Satanistas reais são poucos e, em geral, ateus de classe média.